Blog do J Ruy Veloso


Araçatuba Paradiso

               

ARAÇATUBA PARADISO

A minha geração é do cinema. Quando menino, nas décadas de 50/60, a grande magia, a diversão e meu referencial eram o cinema. Os jornais de cinema (chamavam de complemento nacional) traziam jogos de futebol (sempre no Rio) e eventos do governo. No tempo do Juscelino a garotada vaiava quando ele aparecia. Nada político. Só reclamavam da repetição, porque ele estava em todos os jornais, e queriam logo o filme. Eu era criança lá em Araçatuba e aos domingos ia à matineé do Cine Bandeirantes. Tinha lá meus oito anos e vergonha de comprar ingresso. Era tímido também para trocar gibis, que era um grande comércio na porta do cinema nas tardes secas e de muito sol na Rua Osvaldo Cruz. Para enfrentar o desconhecido, sem ter um irmão mais velho ou o pai vivo, recorria a um vizinho que era uns cinco anos mais velho e que se prestava a comprar o meu ingresso e me fazer companhia. Era o Zé Luiz Fonseca, que tinha duas irmãs, a Vera e a Lúcia e cujo pai tinha uma gráfica na cidade. Dureza era vestir a calça curta, azul e de casimira inglesa. É de não se acreditar. Num sol de 39 graus a gente usava aquela roupa com suspensório, sapato e meias. Era muito quente também dentro do cinema e a vitrine de vender balas tinha dentro alguns copos com água. Para não derreter os chocolates, diziam. Acho que já falei aqui nesse Blog sobre o Cine Bandeirantes. Assoalho de madeira e cadeiras idem. Arandelas em moldura de gesso nas paredes e escadas que subiam para o “poleiro” que era como chamávamos a galeria suspensa do cinema. O foyer com uma cabine de madeira onde se vendiam os ingressos ficava com a porta aberta para a rua. Para entrar na sala de projeção atravessávamos pesadas cortinas de veludo bordô que cheiravam a cera Parquetina. O piso inclinado favorecia as corridas da molecada que tentava escorregar depois de um impulso. A capacidade devia ser para uma trezentas pessoas. Era impossível escutar até mesmo o colega da cadeira ao lado tal a gritaria que se fazia desde a hora em que tocava o prefixo e as luzes começavam a diminuir. Lá o prefixo era Fascination cantada por uma voz masculina e seguida de três soar de gongos com a cortina, também de veludo, se abrindo. A Matineé tinha sempre três filmes. Primeiro passava algo dos “Três Patetas” ou do “Gordo e Magro”, depois um filme de cowboy, mais longo e finalmente o seriado, que todos queriam acompanhar. Os seriados da época foram: O Tesouro dos escoteiros; Niyoka a Rainha das Selvas; Durango Kid e o grande e saudoso Flash Gordon. A molecada se irritava com as cenas de amor ou quando os personagens estavam conversando ou fazendo planos. O negócio era a perseguição a cavalo, as lutas e os índios. E quando aparecia o mocinho correndo, eeeeeeeeeeê, gritava a platéia. A câmera fechava no bandido sobre o cavalo: uuuuuuuuuuuuú.  E assim era. Eu era fissurado na fissura da saia da noiva do Flash Gordon, loura (no preto e branco) e com aquela carinha frágil, sempre gritando. Ruim era quando tinha desenho animado. Aquele público não gostava do Pica-pau ou do Donald. O negócio era o cowboy. Os filmes do Roy Rogers eram ruins porque ela cantava muito e o seu chapéu nunca caia quando trocava socos com os bandidos. A platéia também costumava contar alto os tiros que saiam dos revolver dos mocinhos. Não me lembro se passavam de seis ou não. Quando a gente saia do cinema tinha três sensações: um certo alívio do calor, um choque de luz com o sol muito forte (o horário era das 13:30 ás 16:00 hs) e os ouvidos ainda reverberando com os gritos.

Então chegou minha vez de ir ao cinema à noite. E aconteceu sem qualquer critério de escolha pela película e sim por uma questão de não poder ficar em casa sozinho. Senti-me adulto porque estava de calças compridas e usando só o cinto, sem suspensório. Tenho o filme até hoje na cabeça, assim como o nome da atriz: A escuna do Diabo (Fair Wind to Java) com a Vera Ralston. Fiquei deveras impressionado com uma cena na qual um bandido encostava um punhal no pescoço da moça e ia sangrando devagar. Enfim, ele parou quando o mocinho cedeu ao que ele exigia. Senti-me adulto com aquele filme colorido.

Vivi a vida sempre roteirizada e em cores. Situações diferentes me trazem as imagens em cores vivas, em sépia, preto e branco ou um azul esverdeado, esse último nas horas mais dramáticas. Sempre tive uma trilha sonora nos ouvidos, mesmo nas horas mais trágicas. Nas viagens, desde o trem da Noroeste do Brasil que me levava a Lins ou Bauru, até os Boeing nos quais viajei pelo mundo, sempre tive uma trilha sonora. A vantagem dos aviões é que você pode de fato escolher uma trilha e dormir com aquilo nos ouvidos. Hoje busco roteirizar o meu amanhã que, a esta altura da vida, se traduz numa semana curta. Como os episódios dos seriados.

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 17h04
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Por quê?

   

Por quê?

1.   Por que a Itália ficou desse jeito, tão mafiosa? Por que sempre tem um travesti brasileiro no meio dos casos policiais europeus? Por que o Berlusconi ainda ri para os fotógrafos? Por que o foco das confusões italianas, na política, é sempre regado a dinheiro e sexo? A explicação talvez esteja nos seus ancestrais romanos cuja luxuria é conhecida na história e era normal para a sociedade sob o mando dos Césares.

2.   Por que essa visão obscurantista dos defensores do Battisti aqui no Brasil? Por que gente como o Suplicy, o Greenhalgh e outros políticos ditos “da esquerda” (ah, pobre Bobbio) insistem em defender pessoas que praticam crimes como os seqüestradores de Abílio Diniz e do Washington Olivetto? Internacionalmente, o que nos agrega defender aqui esses assassinos?

3.   Por que a UNIBAN foi tão incompetente no caso da Geyse Arruda? Por que, ainda por cima, deixaram vazar que o departamento de marketing é que fez ver à instituição que a medida da expulsão era um “mau negócio”?  Muitos de seus (ex) colegas devem estar hoje se roendo por dentro ao vê-la na mídia todos os dias e ainda por cima recebendo ofertas para posar para revistas e sendo tietada até por jornalistas da Globo. Geyse é apenas uma vítima/símbolo da intolerância e do atraso no século 21. Mas deu uma virada, escapando da fogueira e recebendo afagos dos mais progressistas...

4.   Por que algumas figuras do Judiciário brasileiro andam censurando jornais e blogs? Por que não usam a lei vigente para processar quem escreve, se configurarem-se calúnia ou difamação os seus escritos sobre empresas ou pessoas? Expressar-se é um direito constitucional. Processar alguém que se expressa contra nós também. Por que então censurar? Mas vem por aí chumbo grosso que está sendo preparado pelo ministro Franklin Martins para tentar um garrote na imprensa. Por que as pessoas que um dia defenderam a imprensa livre e dela tiveram o apoio, agora se voltam para a censura? Por quê?

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 11h51
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Pobrezas

estudante Salém

POBREZA - 1- Como professor, por um quarto de século, vi muitos estudantes vestidos de forma inadequada nas escolas de nível superior, onde dei aulas. Diretor e depois coordenador de cursos, recebi reclamações de docentes em relação a estudantes por suas posturas e trajes. É verdade que tem muita gente que não têm noção de como se vestir mais adequadamente para freqüentar determinados ambientes. E os estudantes de hoje nem sempre têm orientação da família para esses procedimentos, ou simplesmente ignoram as palavras dos pais. De qualquer forma, existe sempre um viés do modo de educar os filhos nesse comportamento que vem a refletir nos ambientes coletivos como trabalho e escolas. São muitas as razões para esses comportamentos, o modo de se vestir, o de sentar-se, falar etc. Não foram poucas vezes que alunas mostraram pernas, decotes e fizeram insinuações. Há, com certeza, por trás disso, mais do que querer melhorar uma nota ou ganhar uma presença quando esteve ausente. Há algo com a sua necessidade de firmar-se através da sedução. Coisas freudianas misturadas a questões familiares e de grupos sociais. Assim acontece em todos os ambientes coletivos: tem sempre o homem galinhão, a mulher mais galinha, o homem galanteador e a mulher metida a fatal. Mas têm também os “comem quietos”, eles e elas, que fazem muito e dizem pouco. Em todos os lugares.

Como professor, nos últimos quatro anos, vi coisas mais estranhas do que saias curtas, camisetas transparentes ou bermudas masculinas que pouco protegem as bolas dos garotos. Vi  estudantes agressivos e desrespeitadores. Vi estudante que mandou outro em seu lugar para fazer a prova. Vi grupo de estudantes que colou um trabalho inteiro da Internet e me entregou achando que não seriam checados por algo tão bem feito e que tinha um vocabulário estranho a eles.  Vi estudantes que não sabem quem são ou foram, Amir Klink, Michael Moore, João do Pulo, Al Gore, José Mindlin, Vinicius de Moraes, Cecília Meirelles, Washington Olivetto, Ivan Zurita ou Samuel Klein. E estudam administração, turismo, publicidade, hotelaria. A maioria não lê jornais, não vê noticiário na TV e romance, o que é isso? Também nunca ouviram falar em Betty Friedan ou Jean Paul Sartre. Conhecem de ver lá uma vez ou outra na TV o William Bonner e a Fátima Bernardes. Como podem entender uma saia mais curta ou uma mulher mais ousada?

Assim, sem essas informações e de conhecimento pouco, deve ser pobre a moça que estuda turismo e vai toda exibida a um ambiente coletivo que demanda roupas mais sóbrias. Mais pobres ainda são os colegas que formaram uma turba incontrolável a perseguí-la como se fora uma bruxa da Salém, Massachusetts em 1692.  Pior e mais pobre é a escola que, para livrar-se do problema, expulsa a moça com base no regimento sem levar em conta a repercussão do assunto que se tornou deverasmente público. Pobreza total essa solução encontrada pela instituição educacional. O evento demanda um trabalho educativo, palestras sobre os direitos da mulher, sobre tolerância e intolerância, sobre o que é uma Universidade e o sentido dessa palavra. O evento demanda acolher a moça na escola e ponderar sobre os fatos. Enfim, se a escola achava que ela, a moça, não era vítima, agora o é. Pobreza...

POBREZA – 2 – Documentário na TV (não me perguntem o Canal) mostra estadunidense profissional de TI que perde o emprego porque sua empresa de telemarketing fechou e foi abrir serviços terceirizados na Índia. Revoltado ele se propõe a ir para a Índia trabalhar para resgatar o emprego. Acerta então, via Web, com um profissional da empresa terceirizada, a sua ida para a casa dele por 30 dias para ver de perto quem lhe tomou o emprego. É mais ou menos como o Morgan Spurlock, que fez Super Size Me  comendo só no McDonald´s por 30 dias. O estadunidense vai morar na casa de classe média do indiano, inscreve-se para empregar-se na empresa de telemarketing (os indianos chamam de “auto-atendimento”) e tem que passar por um curso de “como falar com americanos” onde se acertam a pronúncia e expressões para os diálogos ao telefone.  Convive com o seu “irmão” que o hospeda e ouve sobre o que é o seu (do indiano) casamento por indicação: a esposa vem para cuidar da família do marido e assim deve proceder. Só que a jovem mulher do anfitrião também quer trabalhar no telemarketing, que opera sempre à noite, uma vez que os fusos entre Índia e EUA são invertidos. O salário dessas pessoas chega a quase mil dólares por mês na Índia e os coloca num nível invejável de emprego, com direito ao uso de gravata e tudo o mais. O estadunidense começa seu trabalho e se interessa por conhecer a vida dos colegas. Visitando a casa de um supervisor daquele tipo de serviço constata que ele mora numa casa de um só quarto, coberta com telhas finas e que aquecem o ambiente. Detalhe, na casa moram 8 pessoas, todas dormindo no mesmo quarto.  Depois ele se interessa pelos faxineiros que recolhem restos dos sanduíches dos operadores de telemarketing. Ao visitá-los em suas casas constata que é uma favela onde as casas são feitas com caixas de papelão, tijolos velhos e pedaços de automóveis. Eles ganham cerca de 130 dólares por mês.  O visitante americano pondera com o seu anfitrião sobre a possibilidade de a sua mulher trabalhar no telemarketing. O indiano bate duro: ela não vai ter tempo de cuidar de minhas meias e camisas e nem de fazer o meu café da manhã. Se ela trabalhar a noite, quem fará o serviço durante o dia? Mas no decorrer daquele mês o marido parece começar a se convencer e a moça não perde a chance de aproveitar aquela oportunidade. Num dia morre um ator da Bollywood. A população se enfurece dizendo que ele era bom para os pobres  e parte para um quebra- quebra na cidade. Os serviços são suspensos no telemarketing e os funcionários podem dormir uma noite em casa. No dia seguinte a empresa que contratou os serviços de telemarketing acusa uma perda de 40 milhões de dólares pela parada dos serviços. Verdade ou não, é uma ameaça para a terceirizada. Danças nas ruas, sem o glamour da rede Globo, acontecem mesmo. Só que as pessoas são feias e desajeitadas. Em casa também dançam a esposa que quer trabalhar e a sobrinha. Os homens tomam chá e olham. No final o estadunidense volta para casa com a consciência mexida: “perdi o emprego por uma boa causa. Aquela gente precisa muito mais do que eu e depois, estar em NYC me faz sentir-me seguro e em casa”. É a vida...

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 13h48
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Turismo e o mercado de baixa renda - 2

   

 Turismo e o mercado de baixa renda – 2

Nos estudos que Erik Simanis e sua equipe desenvolveram na Índia e no Quênia visando descobrir como transformar em consumidores os 4 bilhões de pessoas da base da pirâmide social, identificamos que algumas das estratégias aplicadas lembram o que a Avon e outras empresas fizeram com os produtos de estética e beleza em meados do século 20. Naquela época as revendedoras Avon promoviam em suas casas e depois nas casas de clientes ou potenciais clientes, tardes de lanches, sucos e chás para demonstrarem seus produtos num ambiente que não deixasse expostas as donas de casa com seus temores e ansiedades para melhorar suas aparências. Esse método foi repetido em cidades do interior e favelas da Índia pela empresa Solae, uma subsidiária da DuPont. Produtora de proteína de soja, a empresa recrutou em cada uma dessas comunidades pobres cerca de 20 mulheres e mostrou a elas um novo conceito de negócios: o preparo de refeições saudáveis e deliciosas usando soja. Essas mulheres passaram um mês testando receitas com proteína de soja. Faziam receitas e as customizavam de acordo com suas tradições. Depois desse tempo passaram a fazer “O dia das vizinhas na cozinha” que consistia em convidar as vizinhas tidas como boas cozinheiras e sugerir a elas agregar às suas receitas a proteína de soja. Esse evento atraia os familiares que acabavam por conhecer o novo produto e seu potencial de sabor e valor agregado. Cerca de seis meses depois do primeiro teste de cardápio essas senhoras já estavam recebendo pedidos de livrinhos de receita e de porções de proteína de soja. Tornaram-se vendedoras. Consolidava-se assim a “estratégia Avon” para alimentação na baixa renda. Essa busca por fazer da base da pirâmide uma massa consumidora merece muitas reflexões. E cuidados. Todavia, para efeito de comparar com as possibilidades de desenvolver no Brasil, em especial nas áreas rurais, atrativos turísticos de baixos investimentos para populações de baixa renda, essa tendência deve ser pensada, isto é, como podemos fazer com que a baixa renda manifeste seu desejo e utilize equipamentos e serviços de turismo. Hoje, dia 03 de novembro de 2009, o jornal Valor Econômico trouxe matéria sobre a busca do McDonald´s pela Classe C. No Brasil, até por precificar seus produtos em dólar, o McDonald´s foi desde o princípio alvo da classe média, enquanto nos Estados Unidos atende a classe baixa. Aliás, o historiador da McDonald´s,  John F. Love, explicou o significado desse sistema (fast food) ainda nos anos 1950: “As famílias operárias podiam finalmente se dar ao luxo de alimentar os filhos num restaurante”. À época o hambúrguer deixava de ser “churrasquinho de porta de estádio” e prato de Drive- in para ser servido nas mesas de restaurantes. Hoje, 2009, o McDonald´s busca uma plataforma (pacote) de até 6 reais, com a sobremesa, para oferecer a esse consumidor C e D (num restaurante que vende a 19 reais o quilo de comida brasileira é possível comer 400 gramas pagando 7,60 reais por arroz, feijão, bife e salada). A rede estadunidense, que teve muitos problemas na justiça com franqueados no Brasil nos últimos 5 anos, faz hoje uma campanha que denominou GPPP: Grandes Prazeres, Pequenos Preços. Trata-se de uma estratégia que visa acertar as classes D e E para o seu cardápio tradicional e trazer a classe B para aos seus cafés através dos quais pretende desbancar a Starbucks no Brasil. Até meados de 2010, a McDonald´s terá 577 lojas no país e não poderia deixar de lado o segmento de baixa renda, sobretudo quando a classe média volta-se para a preocupação com o consumo incorreto de carboidratos e aumento do colesterol.

O que pretendo, falando das pesquisas do professor Simanis e da tendência do McDonald´s, é voltar à questão dos pequenos investimentos em atrativos turísticos.  A OIT, Organização Internacional do Trabalho, ou ILO, International Labour Organization o BID, Banco Interamericano de Desenvolvimento, e a OMT, Organização Mundial do Turismo, World Tourism Organization , de há muito têm estudos que mostram as melhores possibilidades de emprego e renda por unidade de valor investido nos empreendimentos turísticos, comparativamente aos empreendimentos fabris. Além disso, o nível de exigência para a mão-de-obra a ser empregada nesses serviços, em background e tempo de treinamento, é bem menor do que na indústria mais complexa. E é disso que estamos falando quando tratamos de manter intactas as áreas de cultivo ainda existentes nos municípios brasileiros, sobretudo aqueles situados perto de grandes centros urbanos, como se configuram todas as capitais dos estados no país.

Se os municípios criarem leis de incentivo aos projetos de Turismo Rural e programas de conscientização dos proprietários rurais sobre o assunto, é possível que surjam idéias e iniciativas que façam nascer projetos dessa natureza: baratos e para um público que pode estar mais perto do empreendedor do que ele imagina. Há quem tenha investido em acantonamentos e venha recebendo estudantes, religiosos e famílias, há mais de 20 anos, sem problemas de demanda ou dificuldades de manutenção. Um acantonamento pode ser feito com chalés ou grandes dormitórios divididos por idade, sexo ou qualquer que seja o critério do usuário. Escolas e igrejas são os grandes clientes desse tipo de meio de hospedagem.  Um fazendeiro da região de Itatiba, por exemplo, resolveu plantar um pomar só para seus clientes. Criou um “Colha e Pague” que dá alegria e produtos ao seu cliente, complementa seus serviços (ele tem pousada e faz geléias e sucos proibitivamente deliciosos) e não causa dano fito sanitário à sua lavoura de frutas de mesa. Ele não ganha como o McDonald´s, mas mantém a propriedade, vive com qualidade de vida e está aproximo de tudo o que se pode chamar de “progresso”.  

As perguntas que faço hoje quando penso nas inúmeras possibilidades são:

1-   O que os municípios fazem sobre o assunto?

2-   Quais são as diretrizes estratégicas para as áreas rurais nas próximas décadas?

3-   Quais as leis municipais que podem evitar a conurbação, uma resultante do êxodo rural e da falta de limites para a expansão urbana?

A questão é:

  • Como os gestores da coisa pública vêem os cenários futuros, ou
  • Têm a compreensão do que é turismo e de como o município pode se valer dele para o seu desenvolvimento econômico de forma sustentada.

Volto ao tema.



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 17h21
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Turismo e o mercado de baixa renda-1

 Simanis   pesque

Turismo e o mercado de baixa renda-1

Erik Simanis é um pesquisador Sênior associado do Center for Sustainable Global Enterprise na Johnson School of Management da Cornell University que fundou em 2000, em parceria com o professor Stuart Hart o The Base of the Pyramid Learning Laboratory. Trata-se de um consórcio de empresas multinacionais, ONGs e outras multilaterais que buscam conhecer o mercado de quatro bilhões de pessoas que estão na base da pirâmide de renda e, portanto, socioeconômica.  O trabalho de Simanis tem sido o de desenvolver e redefinir processos para trazer resultados para as grandes empresas na co-criação de novos negócios em boas e profundas parcerias com o mercado de baixa renda, ou comunidades pobres. Pelo menos dois projetos específicos, um no Kenya e outro na Índia, com apoio das empresas Johnson e Dupont respectivamente, já mostraram resultados. Para o pesquisador, a base da pirâmide é considerada um grande mercado inexplorado e o grande desafio das empresas é o de transformar essas pessoas em consumidores. Necessidades básicas como água limpa e eletricidade nem sempre se transformam automaticamente em um produto desejado por essas pessoas. A questão instigante é: por quê? Simanis entende que é porque as empresas vêem as coisas de maneira errada.

Erick Simanis traduz isso de forma singela: a base da pirâmide não é, na realidade, um mercado. Não se configura um mercado pela falta de duas características que ele considera vitais para que exista um mercado consumidor:

1-   Essas pessoas não foram condicionadas a pensar que os produtos oferecidos são algo que se pode comprar

2-   Essas pessoas não adaptaram seu comportamento e seu orçamento de modo a integrar esses produtos em suas vidas.

Considerando que um mercado consumidor “nada mais é que um estilo de vida construído em torno de um produto” (Simanis), essa imensa população mundial não está, portanto, dentro do universo de consumidores por não ter acesso (e nem se interessar) por determinados produtos ou serviços que se lhes parece muito distante de seu status e poder aquisitivo. Verdadeiro? Para demonstrar isso o pesquisador trata, em artigo para o The Wall Street Journal, do exemplo da água. Nos anos 1970, a água engarrafada não era algo comum a maioria das pessoas (na minha infância dos anos 1950 ainda lá em Araçatuba, a classe média comprava água engarrafada da Fonte Santa Maria, em garrafões de vidro. Nos EUA é que se bebia a água do poço na roça ou das torneiras nas cidades), não fazia parte do estilo de vida e levou décadas para que se tornasse um negócio. Então, por quê um consumidor de baixa renda, com tantas necessidades básicas por preencher, vai comprar água se a tem na torneira ou na cisterna sem precisar mais por isso? Para esses consumidores, pagar por água limpa ou produtos sanitários que possam limpá-la, pode parecer um absurdo. Para isso, de acordo com Simanis, é preciso que as empresas criem mercados, traduzidos em novos estilos de vida, nas comunidades pobres. É preciso ainda que as empresas adotem uma abordagem ampla de marketing apresentando aos compradores o máximo possível de razões para experimentar os produtos. Ele cita um exemplo de pesquisa e produto da Procter & Gamble que desenvolveu um produto chamado PUR que converte água turva, suja e contaminada em água potável (o exército português, imaginem, já usava similar para os seus soldados na África, na década de 1960). Todas as etapas de pesquisas foram realizadas: ouviu-se milhares de consumidores de baixa renda, visitou-se favelas e povoados rurais e tudo o mais para compreender as necessidades dos moradores. O produto final com vários atributos como o preço (US$0,10 por sache que purifica 10 litros de água), simples de usar, fácil armazenamento e longa duração, não teve fácil penetração no mercado dos pobres por razões absolutamente comportamentais e culturais. Embora tenham claros para si os benefícios do produto que lhes garante a água pura, essas pessoas não dão o passo decisivo da compra quando lhes é dada a oportunidade.  Falta-lhes o desejo e a curiosidade por um produto de primeira necessidade que não conseguiu atrair suficientemente a sua atenção. E o que tem isso a ver com o turismo? Vamos por partes.  Num processo que vem lá dos anos 1980 quando a TAM começava a mostrar sua tendência de crescimento, passando pelo início do Plano Real e consolidando-se com o aumento da concorrência atual, o mercado da aviação civil deixou de ser coisa de rico e virou transporte coletivo de fato aqui no Brasil. Os aeroportos entupidos e a falta de investimentos no setor (que deveria estar de há muito privatizado) mostram-nos o que é oferecer boas condições de compra de serviços para diferentes segmentos da população. A participação da Pirâmide Social nos vôos domésticos aumentou muito no nosso país. E isso é bom. E tem mais.

Hoje encontramos pacotes de agências de turismo para quem sai de São Paulo e vai para o Nordeste ou para o Sul dividido em 10 pagamentos de 35 reais; bilhetes de vôo entre São Paulo e Fortaleza ou Juazeiro do Norte em 10 pagamentos de 8,50 reais. Esses valores dizem de perto das reais possibilidades de vender turismo para quem só pode comprá-lo por preços baixos e parcelados. E com relação aos hotéis? Confortáveis, limpos e honestos, muitos hotéis com bandeiras internacionais têm preços razoáveis para os pernoites de uma família de 3 ou 4 pessoas por 75 reais e mais 7 reais por um café da manhã muito bom. Levou muito tempo para que tivéssemos esse tipo de meio de hospedagem que começou na década de 1950 nos EUA via Holiday Inn. Os albergues e as possibilidades de Day Use em muitos outros estabelecimentos democratizaram o lazer no país. Falta muito ainda, é certo, mas o caminho está aberto.

A questão é: como os empreendedores podem vender para camadas mais pobres da sociedade e ainda ganhar dinheiro? É possível. Os empreendimentos de “Pesque e Pague” são uma prova disso. A freqüência desses atrativos é majoritariamente de classe C e D. E são investimentos que mantêm as pequenas propriedades rurais. Os grandes investimentos em lazer e entretenimento, necessários e igualmente importantes para o desenvolvimento econômico do país, exigem, para o seu sucesso, uma conjunção de fatores, pessoas e organizações de difícil orquestração e resultados nem sempre saudáveis. É o caso dos parques temáticos.

Curiosamente a grande expansão prevista em 1990 para os parques temáticos no ano 2000 ficou só na previsão. O Wet´n Wild de Salvador durou pouco. O do Estado de São Paulo trabalha só com eventos. O Hopi Hari, outro parque temático perto de São Paulo, já completou dez anos sem nunca ter dado resultados positivos e teve donos fortes como os fundos Previ, Funcef, Petros e Atlântico, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, da Petrobras e da Telemar respectivamente. O investimento inicial para a construção do parque foi elevado e originou pesada dívida. Foram investidos R$ 320 milhões, a valores da época. O Hopi Hari nunca conseguiu remunerar os acionistas pelo capital investido. Desde sua abertura até setembro de 2008, a empresa acumulou prejuízos de R$ 654 milhões. Naquele ano, de janeiro a setembro, a receita líquida foi de R$ 55,1 milhões, mas a despesa financeira foi de R$ 59,1 milhões, deixando um prejuízo de R$ 64,4 milhões naqueles nove meses, de acordo com o jornal Valor Econômico.

Traçando um paralelo com a análise da base da pirâmide de Simanis e os imbróglios mercadológicos que geram esses mega-investimentos do tipo parque temático, é possível começar a compreender melhor a lógica de estimular os proprietários rurais e outros investidores nos municípios para que invistam em lazer para as classes de menor renda. É possível que essas classes venham a manter seu poder de compra para esse tipo de atrativo que, ao final e ao cabo, demandam investimentos infinitamente menores do que os grandes e complexos parques e hotéis temáticos. Além disso, deve interessar aos gestores públicos dos municípios toda a iniciativa que possa gerar receita e possibilidade de renda para as suas populações; que mantenha esses atores sociais em seu habitat e, sobretudo, que mantenha intocada a área verde e rural que ainda resta em seus municípios preservando o meio ambiente e evitando o desastre da conurbação.

Volto ao tema.

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 17h20
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Balzac II

 Victor Hugo                  Balzac

Balzac: a vida como ela foi – Dois

 

Já falei aqui do livro do alemão Johannes Wilmms que trata da biografia de Balzac. Também já falei sobre a estrutura familiar do escritor francês e de seus problemas com a sua mãe. Hoje falo da vida adulta de Balzac. Podemos resumir sua vida profissional como um conjunto de empreendimentos fracassados, uma dívida jamais liquidada e a ajuda de alguns amigos mecenas que o apoiavam em seus períodos sabáticos/produtivos. Sua inocência para investir em projetos pouco factíveis e suas boas idéias para os romances são a marca do que foi o seu viver. A biografia escrita por Wilmms se apóia, sobretudo em cartas que Balzac escreveu para familiares e amigos, uma amiga, em especial, Zulma Carraud. Nelas o francês falava de sua luta atravessando noites para escrever com penas de ganso e tinta e depois, revisar o que a tipografia entendia de sua caligrafia. Um trabalho extenuante para o qual ele vestia um velho hábito de monge para enfrentar as noites frias a luz de velas trêmulas que se lhe desgastaram a visão. O consumo de café por Balzac chegou a ser lendário. Ele fazia uma mistura de três diferentes qualidades de grãos: bourbon, martinique e mokka, cujo resultado ele sorvia muito forte, bem preto e quente, para varar suas noites de produção literária. Fico eu pensando o que ele teria produzido se tivesse uma simples máquina de escrever...

Baixote, atarracado, cabelos pretos de fios grossos, Honoré de Balzac estava longe de ser o francês galã de seus livros. Com o passar do tempo o mau estado de conservação de seus dentes ficou também conhecido em toda a sociedade parisiense. Mas nem por isso ele deixou de ser um sedutor de ter em seu rol de relações muitas mulheres francesas e com uma russa de sangue nobre com quem finalmente casou-se pouco antes de morrer, aos 51 anos. Sua grande amiga e confidente foi Zulma Carraud, cujas cartas reconstroem a vida do escritor, mas foi para Eveline, a russa que viria a ser sua mulher e a quem conheceu através das cartas que lhe enviavam suas leitoras, que Honoré mais escreveu: 414 longas cartas. O conteúdo delas gerou um texto que correspondia a quase um quarto de toda a obra da “Comédia Humana”. Foi tão forte a “criação daquela personagem”, que Eveline, então casada e com filhos na Rússia dos Czares, acabou se transformando na identidade que ele criara. Para Wilmms, “é surpreendente que Freud não tivesse se ocupado intensamente de Balzac”, tal foi a força de seus escritos que tornaram aquela mulher um ser de total parecença com o que ele imaginava ser o ideal da mulher, amante e mãe ao mesmo tempo, que lhe prometia o paraíso de uma infância infinita. Sua mania de gastança desbragada também era conhecida dos parisienses e nos burgos vizinhos. Por mais de uma vez ele se mudou para casas diferentes com nome falso para se proteger dos credores. Ele usava suas festas e sua opulência para autopromoção e garantia da própria importância. Para o pesquisador, a existência de Balzac se divide entre aparências e realidade. A aparência era a projeção de fama e conceito, encenada com muita avidez e que gerou muitas inimizades pela forma com que ele tentava, com essas atividades, ofuscar os seus contemporâneos. Por outro lado ele tinha espírito de corpo para defender os direitos da propriedade intelectual e nesse sentido por diversas vezes incitou seus pares a pressionar os deputados para criar leis contra isso. Em vão.

Fracassado em suas empreitadas editoriais e de papel, Balzac acabou por dever a vida toda quantias para a sua mãe e para amigos nobres que jamais lhe cobraram. Mas era glutão e vaidoso. Gostava de bons vinhos e gastava dinheiro desproporcional, sempre fiado, para vestir-se e mobiliar uma casa, a qual batizou de Les Jardies, e construiu com dinheiro da então pretendida russa e de outros amigos. Tudo isso sem liquidar velhas dívidas. Todas essas estripulias financeiras e afetivas aparecem nas histórias de seus personagens. Balzac foi contemporâneo de Victor Hugo e dele recebeu várias visitas, tanto na casa suntuosa como no seu leito de morte.

Volto depois falando sobre suas obras.

 

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 22h56
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Polanski, Allen e Araçatuba

     

Polanski, Allen e Araçatuba

 

Polanski não é um nome para ser esquecido facilmente. Desde que fez o filme “Faca na Água” (Nóz w wodzie, Polônia, 1962), já mostrou que o seu tema preferido era essa coisa do sexo transversal, o que quer que isso possa significar. Mas significou muito em sua vida, tanto profissional como pessoal. O bebe de Rosemary, Repulsa ao sexo, Lua de Fel, e outros dos quais não me recordo, tratam do sexo de uma forma pouco poética. Dos que vi apenas Tess (a beleza de Nastassja Kinski é desconcertante) foge do padrão, até porque é baseado em famoso romance inglês que aborda os costumes na revolução industrial. Na vida real teve como mulher oficial a  bela Sharon Tate, que foi assassinada de forma brutal por um fanático drogado nos Estados Unidos. Era o ano de 1969.

Hoje Polanski está detido na Suíça a pedido da justiça dos EUA por um crime que teria cometido em 1977 estuprando uma garota de 13 anos de idade, contra os seus então 44 anos. São decorridos 32 anos do fato e a mulher, que então era a menina, diz que não era virgem e que já esqueceu e perdoou o seu então agressor. Muitos famosos defendem o cineasta hoje. É algo como defender o tal do Batistini, um italiano que matou um monte de gente na Itália e que só os obscurantistas como o Tarso Genro e o Marco Aurélio Garcia conseguem defender.

Já o Wood Allen acabou conhecido por ter tratado mal sua então mulher Mia Farrow e depois, pior, ter se amancebado com a filha adotiva com quem vive até hoje. No caso do Wood Allen a polícia não foi atrás. Se fosse aqui no Brasil, onde os políticos passam ao largo da Lei e quem corta palmito para comer é preso sem direito à fiança e sem roupa pra vestir, (uma vez que não têm mesmo camisa por sua natureza pobre), é bem capaz que fossem atrás do Wood Allen porque por muito menos, prenderam um italiano que deu selinhos na filha numa praia nordestina.

Mas, o Wood Allen teve precursor de sua história lá em Araçatuba. Foi o Diaz. Vou chamá-lo Diaz porque ele tinha (tem ainda?) aquela cara de soldado do sargento Garcia: baixo, moreno, sobrancelhas cheias, olhos pretos meio oblongos e um jeito de falar acumulando saliva nos cantos dos lábios. Foi vendedor por muito tempo e dava treinamentos para vendedores. Falava lutando contra a saliva: a fala do vendedor tem que ser clara, precisa e concisa... Era bom de violão e cantava bem, no que era acompanhado por sua mulher, a Pilarita. Pilarita cantava e também era boa de violão. Melhor do que Diaz, diziam. Pois bem. Eles tinham dois filhos biológicos e uma menina adotiva que criavam desde os seus cinco anos de idade. Ela era a filha mais velha, à época com os seus 16/17 anos, contra uns 34 do Diaz. Sua casa vivia cheia de gente jovem e descolada. Sentavam-se em almofadas para ouvir Pink Floyd, dedilhar violão e tomar um chá de cogumelo. Coisa dos anos 1970. A família dormia em tatame com a cabeça virada para o Norte. Arroz integral, peixes e muito legume eram o cardápio do cotidiano na mesa de Pilarita e Diaz. Nas festas que dava ou às quais ia, Diaz não recusava um churrasco. Araçatubenses comem carne e tomam cerveja numa proporção 100 vezes maior do que o paulistano come pizza e toma cerveja. No dia-a-dia, Diaz voltava ao natureba.

Pois uma noite Pilarita apareceu aos prantos e desnorteada na casa de uma amiga. Foi uma noite de calmantes e espanto. Na verdade, foi o diabo. Pilarita perdeu o chão e os violões. Quebrou tudo na direção do Diaz e depois, quando se agüentou, saiu de casa.

O que ela contou aos amigos é que os dois, Diaz e a filha adotiva chegaram-se a ela, Pilarita, e confessaram, na lata, que vinham mantendo relações já há algum tempo. Diante dos tremores que sobrevieram à incredulidade de Pilarita, acrescentaram que eles não teriam problemas em viver daquele jeito, isto é, a três.

Pilarita teve um jorro estomacal comparável ao de Linda Blair em “O Exorcista” (1973) cuspindo a uns 50 centímetros de distância o que não tinha no estômago. E quando pode, saiu da casa.

Passada a tormenta, Diaz foi quem saiu de casa. Com a menina.

Em 1979, acho, estava com uns colegas de trabalho no Bar do Léo, ali na Rua Aurora, e ele apareceu. Em rápidas palavras, falou do que fazia, e fazia a mesma coisa, e disse que sua mulher, que havia sido a sua filha, estava grávida. E que tudo estava bem.

Nunca mais soube dele ou delas, Pilarita ou a filha/mulher.

Mas quando estourou o caso Wood Allen pensei: isso já tinha lá em Araçatuba...

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 23h41
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Balzac, a vida como ela foi...

         

Balzac: a vida como ela foi...

 

Na esteira de meu período balzaquiano fui procurar saber mais sobre aquele francês do século XIX que retratou a sociedade parisiense de sua época e que, no século XXI se mostra atual em tantos aspectos da vida urbana. Minha fonte foi Johannes Willms, alemão de 63 anos que é historiador e jornalista. Willms tem várias obras frutos de suas investigações histórias e a mais recente delas é a biografia de Napoleão. O historiador vive hoje em Paris e é correspondente de assuntos culturais do jornal Süddeutschen Zeitung e sua publicação no Brasil foi traduzida por Claudia Abeling e publicada pela editora Planeta (2009). É um belo trabalho e mexe com o imaginário dos leitores de Balzac fazendo-nos ora apiedados, ora enraivecidos pelo comportamento infantilizado e sem muitas perspectivas do francês que escreveu La comédie Humaine. Balzac nasceu em 20 de maio de 1799 e carregou os traços dos geminianos como a criatividade e a devoção aos seus amores. As pesquisas de Willms têm como ancora as cartas de Balzac para seus amigos e parentes, sobretudo para uma amiga, também especial, chamada Zulma Carraud. O escritor francês passou a vida com problemas com sua mãe, sem resolvê-los. A mãe Laure Sallambier, filha de uma família rica da indústria da tecelagem, casou-se aos dezoito anos (em 1797) com um homem de origem camponesa que ganhara um cargo lucrativo no exército depois da revolução francesa. O pai, Bernard-François Balzac, era trinta e dois anos mais velho do que sua mãe. Encantada com a vida que se lhe abriu pela frente a jovem mãe não tinha tempo para cuidar dos filhos e os entregou aos cuidados de uma mulher especialmente severa a quem ele e a irmã apelidaram de “un gendarme”. A mãe, além dos amantes que teve ao longo da vida, tinha predisposição histérica, com doenças imaginárias e doenças freqüentes. Balzac e a irmã só foram viver com os pais na residência oficial da família em 1803, quando ele já tinha quatro anos. A energia e vitalidade do menino Honoré incomodavam sobremaneira a mãe e os registros da infância dos irmãos marcam, por exemplo, o temor que tinham das inspeções da gendarme para despedirem-se dos pais na hora de dormir. As lembranças dos irmãos não eram boas sobre de como a mãe os rechaçava com maneiras bruscas nas suas buscas por carinho e o choque quando, em 1804, ela mandou o garoto com cinco anos incompletos para um colégio de semi-internato em Tours e três anos mais tarde, para outro colégio, dessa vez interno, em Vendôme. Para o historiador a rejeição da mãe, que atormentou Balzac por toda a vida, estava ligada ao fato de que os filhos, e não o marido, eram o obstáculo para as suas relações extraconjugais. Cartas de um jovem chamado Ferdinando Heredia, conde de Prado-Castellane, dão conta de que o jovem começou a cortejar a mãe de Balzac em 1805 e em 1818, quando já havia voltado de vez para a Espanha, continuava a escrever para Laure, longas cartas nas quais invocava a felicidade do período 1806/1817. O conde não passou despercebido na vida do escritor. Na novela La Grande Bretèche, escrita em 1832, o marido manda emparedar vivo o amante da mulher cujo nome era Féredia, uma junção dos nomes do amante da mãe. Mas ainda tem mais: a mãe manteve simultaneamente com o jovem conde outro romance com um homem chamado Jean-François-Alexandre de Margonne de quem engravidou na primavera de 1807 e deu a luz a um menino em dezembro do mesmo ano a quem deu o nome de Henri-François. A criança, endeusada por madame Balzac (para piorar a tristeza do filho mais velho) teve a sua presunção de paternidade incontestada quando o pai natural, Margonne, deixou-lhe em testamento 200 mil francos. Essa passagem de vida também foi registrada mais tarde no conto Le Doigt de Dieu no qual ele põe nas ruas de Paris uma mãe, acompanhada de um homem que não era o seu marido, uma filha e um filho mais novo que era muito parecido com o homem que os acompanhava. Num impulso de ciúme pela atenção da mãe ao menino, a irmã o empurra para o rio onde o menino se afoga. Mais didático, impossível. Mas com o meio irmão o escritor não viria a se preocupar muito. Ele se transformou num sujeito de poucos valores, preguiçoso e imaturo e sumiu naquelas ilhas do oceano Índico que pertenciam à França onde levou uma vida miserável, morrendo em 11 de março de 1858. Ironicamente o pai biológico do irmão faleceu dois meses depois e se o irmão estivesse vivo poderia ter gozado o legado que lhe coube.

Honoré Balzac era inteligente e teve boas idéias de negócios ainda que todos eles tenham naufragado. Foi combativo contra a pirataria da época e chegou a quebrar uma vitrine de livraria no exterior quando encontrou obras suas publicadas sem sua licença.

Falo de seus negócios e suas mulheres numa próxima blogada.

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 18h21
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Saul Galvão

SAUL GALVÃO

 

Conheci Saul Galvão em 1980. Ele me foi apresentado por Aristides Pacheco.

O bom português Aristides, que entrou para o SENAC para dar cursos de garçom e se aprofundou nos estudos de vinhos tornando-se um enólogo autodidata, me confidenciou: “o Saul ficou no lugar do Paulo Cotrim no jornal, mas é um experto em vinho. Ele não é de badalação e entende, de verdade, sobre comida.” E lá veio o Saul para uma palestra sobre varietais para executivos que queriam entender do assunto. O Aristides Pacheco não exagerava nas tintas ao falar sobre a enofilia de Galvão. Tampouco sobre sua seriedade quanto à análise dos restaurantes que visitava. Na primavera de 1981 eu estava na gerência de uma casa em art-noveau do SENAC, o “Engenho e Arte” um restaurante escola na Rua Bela Cintra, em São Paulo, enfiado numa rica e cara decoração de época, um luxo que era a marca de José Papa Júnior à frente da federação do Comércio do Estado de São Paulo. A decoração era supimpa e cara. Já a comida, depois de idas e vindas políticas onde palpitavam pessoas de todos os lados e calibres desde Ricardo Amaral (que dava o nome à escola) até as secretárias do Papa Júnior, deixava a desejar. E muito. Tínhamos um bom Chef, mas faltava uma brigada boa. Paulo Cotrim era um consultor da casa para os assuntos artísticos. Pelo Paulo Cotrim conheci gente importante como Eliane Elias, Guilherme Vergueiro, Paulo Moura e Clara Sverner, os irmãos Moacyr e Cauby Peixoto, o maestro Zezinho, o Wanderley do piano e muitos outros. De comida nunca conversamos. Então um dia Saul Galvão apareceu. Já havia estado numa das inaugurações (foram pelo menos umas cinco). Tomou apenas água e elogiou a decoração. Não me lembro se chegou a escrever sobre o “Engenho e Arte”. Em 1985 lá estávamos nós novamente frente a frente. Eu dirigindo uma ex-franquia do Rodeio no Shopping Eldorado. Era outra casa de decoração cara. Uma autêntica Barbecue Steak House que nós rebatizamos de Bon Beef. Galvão provou uns dois tipos de carne e andou pela casa vendo as prateleiras cheias de vinho que a decoravam dividindo os salões. Estávamos em plena inflação e a casa vendia, num domingo, por exemplo, novecentos almoços. Os vinhos eram escolhas da família Veríssimo e, portanto, os portugueses tinham espaço garantido. Saul elogiou o espaço e gostou de nossa Cave du Jour. Voltei a ver Galvão em muitos eventos e acompanhei seu Blog e suas matérias no Estadão. Nesses mais de vinte anos, muitos outros personagens entraram na cena gastronômica paulistana, mas peço licença para registrar que o charme de Saul Galvão era único. Sabia falar de vinhos, conhecia regiões demarcadas e vinícolas mundo afora e, sobretudo, sabia apreciar um bom prato. Sua partida guarda uma contradição: Saul Galvão não era de sair repentinamente dos eventos dos quais participava. Ele fará falta nesse universo ao qual deu tanta contribuição e sobre o qual tanta gente fala e escreve hoje sem ter o seu savoir faire. Au revoir, monsieur Galvão.

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 23h14
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MISCELÂNEA

     

                                                    Filas                                                                Dipak Jain                             Natalie Angier

 

MISCELÂNEA MENTAL DA ESTAÇÃO

 

  • Nem tudo está perdido no mundo dos serviços bancários. Atendendo às pesquisas e tendências o Banco HCBC (desde 1865) vai modificar o layout de suas agências visando um melhor atendimento ao seu cliente. Parece lógico. Mas não é. No Brasil os bancos não dão a mínima para os seus clientes e usuários de modo geral. Por outro lado cobram as maiores taxas do mundo exatamente aqui. E tem os maiores lucros também. Basta consultar o número de reclamações no Copom. Os bancos só perdem para as cias telefônicas. E olhem lá... Bem, arrumar o layout para atender o cliente está de bom tamanho. Resta saber quanto tempo vai levar para que esse cliente consiga sentar-se àquela baia discreta e ser atendido por uma simpática atendente, também ela vítima do sistema financeiro etecétera e tal, seu mingau.
  • Dipak Jain é um indiano que nasceu pobre, estudou pobre e ganhou espaço no primeiro mundo graças à sua visão de futuro e esforço pessoal para estudar e ser alguém. Em 1979, com muito sacrifício, foi aceito para estudar na Universidade de Gauhati, capital de Assam, seu Estado natal. Sentindo a precariedade da biblioteca local, passou a escrever para editoras e universidades estadunidenses pedindo material para estudar. Num desses contatos foi convidado por um professor da Universidade de Dallas para concluir seu PhD naquela instituição. Jain não tinha dinheiro nem para pagar o teste do TOEFL e conseguiu o lugar mandando as suas transcrições. Em 2001 foi indicado para ser o Dean (reitor) da Kellogg Business School da Northwestern University e teve o grande desafio de conseguir encaixar os egressos de seus cursos no mercado num clima de absoluta desconfiança (após 11/09/2001) e depois o de conseguir fundos para tocar a sua escola. Humilde de nascimento e espírito, Jain não relutou em pedir, publicamente, socorro aos ex-estudantes e empresas para darem uma chance aos seus estudantes e também para lhe arrumarem dinheiro. Obteve sucesso mesmo sob fortes críticas iniciais. Mas a moral da história é que, os estadunidenses, mesmo cheios de defeitos que são, sabem o valor da boa educação para fazer crescer o capital. Daí porque ajudam as boas escolas de negócios. Já a escola pública de educação de base lá, é quase como aqui...
  • Natalie Angier, 51 anos, jornalista do NYT e escritora alerta os  homens lúcidos em seu livro de 1999 Woman: An Intimate Geography.  Angier diz que os homens não entendem nada de clitóris e só conseguem vê-lo como uma protuberância a mais no corpo da mulher e diz claramente:

“In my view, the apparent fickleness and mulishness of the clitoris, its asynchronicity with male responsiveness, and the variability of its performance from one woman to the next can be explained by making a simple assumption: that the clitoris is designed to encourage its bearer to take control of her sexuality. Yes, this idea sounds like a rank political tract, and body tissue has no party affiliation. But it can vote with its behavior, working best when you treat it right, faltering when it's abused or misunderstood. In truth, the clitoris operates at peak performance when a woman feel athunder with life and strength, when she is bellowing on top, figuratively if not literally. The clitoris hates being scared or bullied. Some women who have been raped report their vaginas became lubricated even as they feared for their lives and a good thing too, for the lubrication prevented them from being ripped apart but women almost never have orgasms during rape, male fantasies notwithstanding. The clitoris will not be hurried or pushed. A woman who worries that she is taking too long for her partner will take that much longer. A woman who stops watching the pot sends a message to the clitoris -- I'm here! -- and within moments that pot boils over”.

E ela diz mais: Pare de pensar no clitóris como uma pequena protuberância e comece a pensar nele como um domo do prazer com uma complexa rede produtora de orgasmos, o Nirvana e o coração da sexualidade feminina. Com mais de oito mil fibras nervosas o clitóris tem mais deles do que qualquer outra parte do corpo humano e interage com as quinze mil fibras nervosas que servem toda a pelves: Nervos são como lobos ou passarinhos: se um começa a gritar toda a vizinhança segue.

·         Serviços, dinheiro, educação e teorias clitorianas. Não tem inspiração melhor para ao trabalho. No inverno, como no verão, como na primavera e também no outono. É a vida...

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 13h25
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PERDAS

                                                      

PERDAS

 

  • Foi-se Michael Jackson. Teria que ir um dia. Mas não precisa ser assim, às vésperas do início de uma turnê. Dizem que ele, nos últimos tempos, estava como o Elvis, também no seu final: todos mandavam menos ele. Estaria perdido e sem noção da realidade. Teria acertado por um milhão de dólares uma entrevista em Londres e acabou recebendo apenas duzentos mil. O resto teria sido rachado entre a antourrage. Foi um menino complicado, cheio de problemas que, parece, deixaria o Freud encabulado. E quem na verdade se aproximou dele para ajudá-lo? E os tratamentos feitos para perder a pigmentação preta da própria pele? Por que os médicos toparam fazer isso? Ninguém para propor seriamente um tratamento psicológico? E o pai? Vestido de malandro carioca dos anos 1950 divulgando seus produtos e serviços, às gargalhadas, nas entrevistas sobre a morte do filho? E as revelações de que os filhos não são seus filhos e sim filhos que não são filhos. E essas mulheres que se sujeitaram gerar essas pessoas sem pensar no seu amanhã? E a mídia? E os pais daquelas crianças que um dia dormiram na cama do Rei do Pop? (ele diz que dormia no chão, ao lado) Quanto dinheiro eles pegaram nos acordos feitos para livrá-lo das denúncias de pedofilia? E os advogados? E os empregados da mansão que acabaram fazendo (e retirando) denúncias logo negociadas por dinheiro de varejo? Ah, vida! O rapaz era problemático, como problemáticos são tantos famosos que vêm do nada e se transformam em celebridades. Lembremo-nos de nossos jogadores de futebol que de repente estão na Europa ganhando quase um milhão de Euros por mês e dois anos antes ainda moravam à beira da favela. Não estudaram e muito menos têm preparo emocional para enfrentar essa nova realidade. Michael, como Elvis e tantos outros, era frágil, pobre vítima do próprio sucesso e da ganância dos que o cercavam. Era inteligente e conseguiu ter por muitos anos os direitos autorais das músicas de Elvis Presley e dos Beattles. Agora ele é um outro ídolo morto. Já dizem que, a exemplo do herói de Memphis, no Tennessee, ele também não morreu. É bom que ele, como o Elvis, permaneça vivo. Vai gerar emprego e renda com o turismo, mas poderá, sobretudo, ficar presente na memória de alguns os males que podem causar o dinheiro àqueles que não têm preparo para conviver com o cinismo do mundo fake.
  • Foi-se Sarah Farrah Fawcet Majors. Ao morrer já não assinava mais Majors que era nome do marido lá nos anos 1970. Sara não pegou como boa atriz. Mas ficou na cabeça de uma geração como uma mulher linda, de olhos estonteantes e um corpo longelíneo. Parecida com ela só conheci, no começo dos anos 1980, a brasileira Regina Rocha Brito. Essa brasileira era um páreo duro até para a Sara. Mas ela se foi e deixou também um legado. Deixou gravadas suas falas sobre o enfrentamento de sua doença terminal, o câncer. Tudo bem que ela não foi a primeira estadunidense a fazer isso e não terá sido a última. Mas ela e o atual marido se reconciliaram e ele, também sofrendo desse mal, ficou ao seu lado até a sua partida. Uma solidariedade mineira de Otto Lara Rezende. É possível que aproveitem para relançar um DVD das Panteras daquela época. Ou que as TVs passem alguns episódios para mostrar quem era a Sara. Tudo bobagem. O fato triste é que ela deixou a vida terrena ainda jovem (62) para os padrões holliwoodianos. Com tanta beleza e sucesso, não conseguiu manter-se no estrelato, não manteve o casamento e ainda acabou vítima dessa terrível doença. Sarah Fawcet foi apenas uma mulher bela.   


Escrito por José Ruy Veloso Campos às 13h07
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Lembranças que incomodam

Lembranças que incomodam

 

Relembrando fases da vida profissional fico, às vezes, incomodado com textos, entrevistas e notícias que trazem como novidades assuntos que eu defendia a mais de dez anos passados. Em alguns casos as idéias que eu defendia lograram êxito porque encontrei quem as apoiassem. Em outros, eu as defendi e as registrei em eventos, artigos e outros tipos de trabalho. Quando vejo como “novas”, idéias que já considero, senão ultrapassadas, já envelhecidas, fico incomodado porque a memória das pessoas, corporações e até mesmo da imprensa, parece ser fraca. E então vem aquela vontade de começar a mandar e-mail, fazer telefonemas ou simplesmente gritar “eu já dizia isso em 1994”! Besteira. O mundo é mídia nessa sociedade do conhecimento. As idéias já não mais nos pertencem. Mas registramos sempre a necessidade do reconhecimento de nossa paternidade sobre elas. Sobretudo quando as idéias se transformam em sucessos atuais.

Mas não são somente essas lembranças que me incomodam. Vejo nos jornais e na Web notícias sobre políticos, empresários, artistas e executivos que também, às vezes ou quase sempre, já foram um dia discutidas, condenadas, elogiadas ou simplesmente esquecidas. Então, de repente, aparece (volta) ao noticiário um comportamento, uma frase, uma decisão ou uma lei que num passado recente foi apresentada por outro ou pelo mesmo personagem e que pode se configurar como uma incoerência se comparada a uma posição num período de cinco anos passados. Os políticos, principalmente, são mestres nesses comportamentos. Defendem hoje temas contra os quais digladiaram em passado recente. Vá lá. Mudar de idéia pode ser também uma manifestação de inteligência e até de coerência. Mas não é o que ocorre quase sempre. Recentemente o Lula defendeu o Sarney, o mais legítimo representante da argentinização das províncias (Estados) brasileiros. É sabido que Sarney (na verdade José Ribamar Ribeiro, neto do Ribamar que foi “imediato” de um engenheiro da Royal Rail conhecido por “Sir Neil”, de onde lhe saiu o apelido como uma espécie de título de posse: o Ribamar do Sir Ney) de há muitas décadas manda, desmanda e se enriquece no Maranhão enquanto a sua população tem que se contentar com um IDH dos mais baixos do país. Mais do que isso, Sarney foi o grande representante civil da ditadura militar, não porque acreditasse nos “propósitos saneadores” da direita militar, mas porque lhe convinha estar ao lado do poder, como sempre esteve até mesmo na cadeira do Presidente da República. Esse homem a quem o Partido dos Trabalhadores jamais respeitou quando era oposição, hoje é citado por Lula como não sendo “um homem qualquer”. Não o é. Mas não pelas razões que afirma Lula em junho de 2009, mas por aquelas que o PT afirmava em 1989, a vinte anos passados, portanto. E quem se lembra disso? Ou melhor, a quem interessa lembrar isso? É possível que se o delegado de polícia política Sérgio Paranhos Fleury estivesse vivo Lula talvez elogiasse a sua “tenacidade no cumprimento do dever” à época. São lembranças que incomodam a quem mantém alguma coerência. Pedir coerência a políticos em defesa da cadeira do poder parece ser uma exigência descabida.

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 11h50
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A ESCRITA E BALZAC

      

O Blog, a escrita e Balzac.

 

Disse-me uma amiga: e o Blog? Escreve a cada dois meses? Não, disse eu, escrevo quando inspirado. Parece óbvio. Não é. Estou lendo “Ilusões Perdidas” de Balzac, cujo personagem principal tenta sobreviver da escrita. Os problemas de inspiração ali colocados por Balzac, além de sua visão crítica sobre a imprensa da época, traduzem minhas dificuldades e a vontade de botar-me em letras. Para uma outra amiga eu disse uma vez que troco o bar e as bebidas pelo teclado do computador quando triste ou muito alegre. Nem tanto, mas bem verdadeiro. Comentar com amigos sobre nossos infortúnios, desde que não os afaste, é melhor do que simplesmente beber. Contar para os amigos e beber um bom vinho ou uma cerveja leve, entre um papo e outro é ainda melhor. Tem ainda a possibilidade de terceirizar nossas aflições contando tudo para um terapeuta cujo ouvido não é uma latrina, mas sim um filtro seletivo que ajuda a elaborar raciocínios sobre aflições e alegrias. Finalmente, escrever parece trazer um pouco de paz ao nosso espírito. Assim é. Honoré de Balzac sabia como ninguém tratar da criatividade e das relações nem sempre transparentes entre homens e mulheres. Era um tempo de muito “parecer” e pouco “ser”. Seus personagens (que se repetem em diferentes romances, às vezes fazendo “pontas” ou simplesmente citados) vivem conflitos entre aquilo que querem realmente e aquilo que a sociedade valoriza. Em geral a opção dos que almejam alguma posição de destaque ou alguma nobreza, passa por ser aquilo que a sociedade supostamente valoriza. Assim são as mulheres ricas ou decadentes de Balzac, assim são os homens que almejam um dia ser notados num foyer de óperas. A França do século XIX já tinha certa sofreguidão pela leitura e daí, muitos sôfregos pela escrita. Penetrar nesse universo balzaquiano me tem sido prazeroso. Tive que abandonar temporariamente “O livro Negro” de Pamuk. Pamuk é outro que trata de uma sociedade que nós, americanos do Sul, cristãos, espíritas, socialistas ou anarquistas, temos dificuldade de compreender. Suas mulheres corajosas e seus homens conflitados só podem existir na sociedade turca que vive entre o islamismo e a (para muitos) difícil idéia de um Estado laico. Mas volto ao Balzac. Suas descrições sobre os trajes, perfumes, perucas e aquilo que para nós hoje se traduz numa absoluta pobreza de espírito, nunca foi (vá lá, é contraditório) tão atual. Seus políticos, seus editores e suas mulheres navegam num oceano de hipocrisias e aparências. Os casais nem sempre se gostam entre si e tampouco de seus amantes. Tudo o que fazem tem um interesse mesquinho, material e de absoluta vaidade. Vaidade, aliás, é o que não faltava naquela Paris do século XIX. Nessa sopa balzaqueana vejo personagens que me foram próximos. Vejo personagens de nossa vida pública, vejo afinal que Balzac é muito atual. “A Comédia Humana” de Balzac continua viva, com alguns focos alterados, mas com os mesmos comportamentos de seus personagens. À época, Balzac tratava da perda da inocência numa sociedade pusilânime. Hoje, nossos personagens parecem já nascer sem inocência ou são tragados rapidamente pelos costumes modernos dessa sociedade pós-moderna que, na verdade, já eram modernos nos tempos de Balzac ou nos de Molière.

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 14h25
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DIA DA MULHER

                                                   

  

 

As mulheres são o que de mais especial o Criador colocou no universo. E nem poderia ser diferente vez que sem elas a humanidade não cresceria. Aliás, as fêmeas têm essa nobre missão, a de multiplicar seus iguais.

Tenho uma vida vivida entre e para as mulheres. Assim sempre foi desde que, nos meus seis anos, o Ruy pai se foi deixando-me com elas e para elas. Ele, lá de cima, não deve se arrepender de todo. Se eu senti, ao longo de minhas décadas, a falta dele, por outro lado, me aconcheguei às mulheres. E muito. Desde a mãe, as irmãs, tias, professoras, colegas de trabalho e terapeutas, passando pelas companheiras, as mulheres tiveram um peso grande na minha vida. As companheiras foram absolutamente especiais, em diferentes momentos da vida e com diferentes características e motivações de paixões e amizade. As colegas de trabalho ajudaram na leitura do masculino e feminino do mundo profissional. Eram como binóculos para se enxergar no escuro. As companheiras, modo geral, aderiram a parte de meu mundo e eu ao delas. E nos isolamos do mundo real. Sem outras mulheres e sem outros homens. Amizades poucas, como se nos bastássemos um ao outro. Não era bem verdade. Mas não reclamo. Da vida com as mulheres tive mais ganhos do que perdas. Estão aí três filhos que me mostram isso a cada instante e mais dois que, não sendo filhos, navegaram por minha vida e ganharam minha estima.

Nesse caldo feminino de minha vida aprendi a preferir as mulheres para me relacionar. Claro, tive grande dificuldade em separar a carne do profissional ou da amizade pura e simples. O amor sem carne. Sim, ele existe, dizem. E acredito. Busco até hoje entendê-lo. E sigo amando, ainda que platonicamente. Tento nas minhas leituras entender melhor essa força dominadora feminina e seu papel em nossas vidas. Nem sempre é possível ou fácil entender isso. Balzac, Pamuk, Touraine, Garcia Márquez, Saramago e Proust ainda não me deram a compreensão de que provavelmente necessito. Mas acompanhei a trajetória de algumas figuras que me deixaram ainda mais convencido da força feminina no universo: Benazir, Indira, Anita Garibaldi, Hannah Arendt, a senhora Carrar, do Brecht, e outras mais próximas como Ruth Cardoso ou Fernanda Monte Negro. No vai-e-vem da vida procurei sempre ser “politicamente correto” com as mulheres, salvo quando vítima de minhas fraquezas, concomitantemente transformadas em culpas e hoje purgadas ou em processo de. As mulheres sempre me pareceram mais honestas, claras e objetivas do que boa parte dos homens. Pode ser uma bobagem, porque quando as pessoas sofrem de maucaratísmo não é o sexo que faz a diferença. Mas o fato é que com as mulheres é mais fácil abordar questões aparentemente difíceis. Com os homens, parece-me, devemos ser mais inflexíveis e duros. Ou eles nos derrubam. Será? Não creio nisso de verdade. Homens são tão bons ou tão ruins quanto às mulheres. Já tive momentos na vida em que achei que o mundo poderia acabar nas mãos delas. No segundo seguinte me parecia que, ao contrário, no futuro grupos do crime organizado poderão deter o poder sobre rebanhos de mulheres nos países pobres determinando a procriação ou vendendo crias num cenário sombrio do ano de 2100. De todo jeito, as mulheres estarão, num futuro não muito remoto, escolhendo um “produto seminal” para a sua procriação independente numa clínica do tipo das locadoras de filmes. Ali ela vai saber tudo sobre um tipo de “pai” que queira para o seu filho: origens familiares, doenças eventuais, biotipo etc. Não está tão longe essa ficção.  Enfim, quero falar sobre a mulher no Dia da Mulher. O Dia da Mulher, como se sabe, é mais uma data de almanaque, comemorativa, como o Dia das Mães. Vá lá, que assim seja. Mas importa para mim é que gosto das mulheres e de saber que elas continuam fortes em seus objetivos mais louváveis, lutando contra as desigualdades, contra o crime, contra as injustiças e, sobretudo, contra a violência de que são vitimas. Gosto das mulheres e acho impossível dissociar a beleza da maioria dos pés femininos das boas profissionais, das boas amigas, das primas ou tias. Ah, as mãos, ora pequenas e delicadas (como os pés) ora mais ousadas, dedos longos e veias pronunciadas que mostram o caminho para as unhas simétricas e bem feitas. No peito dos pés, outras veias denunciam uma sensualidade estimulante que surge discreta, da curvatura plantar. Ah, “pelas barbas do profeta”, o que pode sair daquela curvatura? Mas não se pode deixar de perceber a leveza dos braços e a dobra das axilas, desde que absolutamente depiladas. Axilas estão ali, muito próximas das saboneteiras e embaixo dos ombros. Que outra visão mais pode querer o homem, depois de apreciar esse conjunto geográfico feminino? Claro, o pescoço, em direção à nuca. Cabelos despojadamente presos com um hashi podem deixar aparecendo os fios capilares da base da nuca e onde se pode visualizar uma suave depressão entre os músculos do pescoço. Essa visão deixou muitos personagens da literatura mundial dos séculos XVIII e XIX, completamente inebriados. Enfim, os joelhos. Tenho até hoje a lembrança dos joelhos da “irmã do Zé Paulo”, um colega de escola. A moça, de cabelos pretos ondulados, olhos negros e um batom vermelho, que me lembrava uma cigana, ia à missa do colégio dos padres aos domingos e sentada no banco duro da capela deixava a mostra seu par de joelhos amorenados cujas rótulas eram suavemente pronunciadas, anunciando o porvir. Ah, quantas vezes me senti pecando quando, ao voltar da comunhão, aproveitava para olhar aquelas rótulas maravilhosas. Mas os joelhos sem rótulas pronunciadas também podem ser bons e é regra que anunciem o porvir no imaginário masculino. Pelo menos no meu. Joelhos nos levam também às panturrilhas. Depois dos anos oitenta a moda é ter panturrilhas salientes e que dêem formato às pernas. O homem que nunca seguiu uma panturrilha que atire a primeira pedra. E as canelas? Já gostei de canelas grossas, daquelas que afinam suavemente em relação ao resto da perna, excluídas as panturrilhas salientes. É um tipo de perna sem malho ou malhada e com essa configuração discreta. Hoje aprendi a gostar de canelas de todo o tipo. Cabelos? Não importa como sejam desde que cheirosos. Penugem? Nas coxas e nos braços, descolorada. Não falo dos olhos e das bocas das mulheres, pois que cada uma tem a sua mensagem definida. Que sejam meigas e fortes ao mesmo tempo. Que sejam inteligentes para entender os homens e manter com eles uma relação de iguais, pois que assim somos: iguais. Que tenham humor para enfrentar os reveses da vida e que saiam deles de cabeça erguida. Ah, aprendi na vida que as mulheres têm essa capacidade, a de sair de cabeça erguida, muito maior do que a dos homens. Enfim, que os homens aprendam que o Dia da Mulher é todo o dia, são todos os momentos já que sem elas não estaríamos na terra e nem teríamos uma próxima geração. Todo dia é dia da mulher porque são elas que, não raro, suave e discretamente, articulam acertos familiares, contas, relacionamentos e até medicamentos que ajudam o homem a sobreviver vivendo melhor. Não falo das antigas donas de casa e de senhoras da Casa Grande. Falo mesmo é da mulher secretária, publicitária, jornalista, advogada, administradora, nutricionista, cobradora, policial, enfermeira, bilheteira, vendedora, médica, massagista, freira, professora, doméstica, corretora, sogra, motorista, mergulhadora, telefonista, cambista, guia de turismo, cabeleireira, manicure, pedicure, cozinheira, arrumadeira, governanta, assistente, cineasta, nutricionista, delegada, comissária de bordo, piloto de avião, parteira, rezadeira, carpideira, merendeira, desempregadas, mães, viúvas, amantes, cocumbinas, de programa, e todas enfim, merecedoras da admiração e agradecimento dos homens só pelo fato de existirem, nos trazerem à vida e nos fazerem a vida. Encerro trazendo um trecho de matéria que postei neste blog (http://jruyveloso.zip.net) em 16/12/2008 intitulada “Relações, Solidão e Egoísmo”, quando misturo Alain Touraine, Reich e Alvin Toffler. Acredita? Pois é. Vivam as Mulheres!

Em seu livro Le Monde des femmes, em português, "O mundo das mulheres", (Vozes) Touraine explica o que há de diferente no "olhar feminino" sobre a vida: A sociologia das mulheres é uma parte essencial de uma sociologia geral. Já agora, uma grande parte dos debates da filosofia política e social e da sociologia é construída sobre os problemas postos pela situação e a ação das mulheres. Nossas sociedades modernas são dominadas pelo recentramento sobre o indivíduo, considerado em todas as suas funções e em seus direitos. Pode-se, também, dizer que o tema da sexualidade ocupa aí o lugar central, que era antes o do trabalho na sociedade industrial e são as mulheres que escrevem as obras mais essenciais neste domínio. Não é preciso deixar-se limitar aos problemas da desigualdade. É preciso eliminar toda referência mais ou menos psicológica ao feminino. Em troca, é preciso compreender por que as mulheres estão na origem da nova sociedade e da nova cultura que se forma sob nossos olhos.

 

                           



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 21h42
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ABELARDO FIGUEIREDO

                                    

ABELARDO: UM HOMEM COM MUITA PRÁTICA

Eu conhecia o seu nome ligado ao Beco, uma casa de shows cuja entrada era por um corredor e onde mulatas rebolavam para os poucos turistas do exterior e do interior do país que aportavam em São Paulo. Mas foi nos anos 1980 que tive a oportunidade de conhecê-lo de perto ali no Shopping Eldorado onde dividia com o amigo “Pepe”, o espanhol/santista Jose Agra Blanco, a gestão do Palladium. Conheci Abelardo Figueiredo e no apressado convívio, pois que todos corríamos dezesseis horas por dia, aprendi alguns aforismos abelardianos e conheci cousas dos bastidores engraçadíssimas. Abelardo tinha humor, saber, talento e paciência. Sabia como transformar o simples em arte e melhor, sabia do que o povo gostava. Um dia fazendo referência ao meu gosto musical, eu comentava sobre alguns números do seu show “São Paulo by night” que inaugurou o Palladium e ele me confidenciou: “não pense que gosto de todas as músicas que ponho em meus shows. Quando o faço não é para mim e sim para o meu público”. Óbvio? Nem tanto. Não são poucos os diretores de cena que tendem a selecionar de acordo com o seu gosto. No show business desde os seus dezessete anos, Abelardo conheceu de perto todos os nomes da música e da cena brasileira. E era por todos respeitado e elogiado. Viajou a mundo com os seus shows e fez o Brasil conhecido. Ganhou dinheiro, reconhecimento e grande experiência. Era dele a expressão “pouca prática”. Assim se referia a alguém que não tinha talento, fosse uma dançarina, um político ou um garçom. Pepe, eu e Madia (Francisco Madia fazia o marketing da empresa Eldorado S.A.) pegamos a mania e usávamos a expressão sem pagar royalt. Sobre o Plano Cruzado do então presidente Sarney e seu, hoje falecido, ministro Dílson Funaro, ele dizia: “eles são um selecionado de poucas práticas”. Mas ele era um “muita prática” sempre de bom humor. Contou um dia sobre a mulatíssima Marina Montini que teria recusado um pato num restaurante parisiense: “não quero Abê. Não vou comer canário”. E Abelardo explicou pacientemente que “Canard” era pato e não canário. Foi com Abelardo que conheci de perto a beldade Vilma Dias que num programa da Globo aparecia na vinheta saindo de uma banana. Ela fazia um número pra lá de sensual com um chicote na mão domando garotões. À época eu conversava com Célia, a rainha da voz na noite paulistana e com um imenso elenco de dançarinos, músicos e técnicos. Um mundo da Broadway, reproduzido ali na pirâmide de vidro às margens do rio Pinheiros. Abelardo foi um “Rei da Noite” comedido e absolutamente família. Gostava de ir para sua casa em Monte Verde e de visitar amigos no Rio de Janeiro, cidade que amava e que temia entristecido pela constatação da violência. Era elogiado por gente elitista como Chico Buarque e venerado por Isadora Ribeiro, Norma Benguel, Marco Nanini e outros hoje globais. Manoel Poladiam e Peri Ribeiro o tinham como a um conselheiro. Pode não dar para acreditar. Mas assim ouvi à época. Enfim, ele se foi. Abelardo, com certeza, vai organizar shows na eternidade. É possível que o censurem um pouco. Menos peitos de fora e coxas mais cobertas. Mas não há de ser nada. Ele pode topar com a rainha Shabá (separada de Salomão?) e montar um espetáculo com autenticas negras do período a. C. Conversa e cintura não faltarão para que ele acerte os detalhes com São Pedro e, a propósito, vai sugerir ao porteiro do céu que mude aquela barba e o hábito já sem cor. Ele sabe como fazer isso. Tchau Abelardo, seu “muita prática!”

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 12h43
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