Blog do J Ruy Veloso


PERDAS

                                                      

PERDAS

 

  • Foi-se Michael Jackson. Teria que ir um dia. Mas não precisa ser assim, às vésperas do início de uma turnê. Dizem que ele, nos últimos tempos, estava como o Elvis, também no seu final: todos mandavam menos ele. Estaria perdido e sem noção da realidade. Teria acertado por um milhão de dólares uma entrevista em Londres e acabou recebendo apenas duzentos mil. O resto teria sido rachado entre a antourrage. Foi um menino complicado, cheio de problemas que, parece, deixaria o Freud encabulado. E quem na verdade se aproximou dele para ajudá-lo? E os tratamentos feitos para perder a pigmentação preta da própria pele? Por que os médicos toparam fazer isso? Ninguém para propor seriamente um tratamento psicológico? E o pai? Vestido de malandro carioca dos anos 1950 divulgando seus produtos e serviços, às gargalhadas, nas entrevistas sobre a morte do filho? E as revelações de que os filhos não são seus filhos e sim filhos que não são filhos. E essas mulheres que se sujeitaram gerar essas pessoas sem pensar no seu amanhã? E a mídia? E os pais daquelas crianças que um dia dormiram na cama do Rei do Pop? (ele diz que dormia no chão, ao lado) Quanto dinheiro eles pegaram nos acordos feitos para livrá-lo das denúncias de pedofilia? E os advogados? E os empregados da mansão que acabaram fazendo (e retirando) denúncias logo negociadas por dinheiro de varejo? Ah, vida! O rapaz era problemático, como problemáticos são tantos famosos que vêm do nada e se transformam em celebridades. Lembremo-nos de nossos jogadores de futebol que de repente estão na Europa ganhando quase um milhão de Euros por mês e dois anos antes ainda moravam à beira da favela. Não estudaram e muito menos têm preparo emocional para enfrentar essa nova realidade. Michael, como Elvis e tantos outros, era frágil, pobre vítima do próprio sucesso e da ganância dos que o cercavam. Era inteligente e conseguiu ter por muitos anos os direitos autorais das músicas de Elvis Presley e dos Beattles. Agora ele é um outro ídolo morto. Já dizem que, a exemplo do herói de Memphis, no Tennessee, ele também não morreu. É bom que ele, como o Elvis, permaneça vivo. Vai gerar emprego e renda com o turismo, mas poderá, sobretudo, ficar presente na memória de alguns os males que podem causar o dinheiro àqueles que não têm preparo para conviver com o cinismo do mundo fake.
  • Foi-se Sarah Farrah Fawcet Majors. Ao morrer já não assinava mais Majors que era nome do marido lá nos anos 1970. Sara não pegou como boa atriz. Mas ficou na cabeça de uma geração como uma mulher linda, de olhos estonteantes e um corpo longelíneo. Parecida com ela só conheci, no começo dos anos 1980, a brasileira Regina Rocha Brito. Essa brasileira era um páreo duro até para a Sara. Mas ela se foi e deixou também um legado. Deixou gravadas suas falas sobre o enfrentamento de sua doença terminal, o câncer. Tudo bem que ela não foi a primeira estadunidense a fazer isso e não terá sido a última. Mas ela e o atual marido se reconciliaram e ele, também sofrendo desse mal, ficou ao seu lado até a sua partida. Uma solidariedade mineira de Otto Lara Rezende. É possível que aproveitem para relançar um DVD das Panteras daquela época. Ou que as TVs passem alguns episódios para mostrar quem era a Sara. Tudo bobagem. O fato triste é que ela deixou a vida terrena ainda jovem (62) para os padrões holliwoodianos. Com tanta beleza e sucesso, não conseguiu manter-se no estrelato, não manteve o casamento e ainda acabou vítima dessa terrível doença. Sarah Fawcet foi apenas uma mulher bela.   


Escrito por José Ruy Veloso Campos às 13h07
[ ] [ envie esta mensagem ]


Lembranças que incomodam

Lembranças que incomodam

 

Relembrando fases da vida profissional fico, às vezes, incomodado com textos, entrevistas e notícias que trazem como novidades assuntos que eu defendia a mais de dez anos passados. Em alguns casos as idéias que eu defendia lograram êxito porque encontrei quem as apoiassem. Em outros, eu as defendi e as registrei em eventos, artigos e outros tipos de trabalho. Quando vejo como “novas”, idéias que já considero, senão ultrapassadas, já envelhecidas, fico incomodado porque a memória das pessoas, corporações e até mesmo da imprensa, parece ser fraca. E então vem aquela vontade de começar a mandar e-mail, fazer telefonemas ou simplesmente gritar “eu já dizia isso em 1994”! Besteira. O mundo é mídia nessa sociedade do conhecimento. As idéias já não mais nos pertencem. Mas registramos sempre a necessidade do reconhecimento de nossa paternidade sobre elas. Sobretudo quando as idéias se transformam em sucessos atuais.

Mas não são somente essas lembranças que me incomodam. Vejo nos jornais e na Web notícias sobre políticos, empresários, artistas e executivos que também, às vezes ou quase sempre, já foram um dia discutidas, condenadas, elogiadas ou simplesmente esquecidas. Então, de repente, aparece (volta) ao noticiário um comportamento, uma frase, uma decisão ou uma lei que num passado recente foi apresentada por outro ou pelo mesmo personagem e que pode se configurar como uma incoerência se comparada a uma posição num período de cinco anos passados. Os políticos, principalmente, são mestres nesses comportamentos. Defendem hoje temas contra os quais digladiaram em passado recente. Vá lá. Mudar de idéia pode ser também uma manifestação de inteligência e até de coerência. Mas não é o que ocorre quase sempre. Recentemente o Lula defendeu o Sarney, o mais legítimo representante da argentinização das províncias (Estados) brasileiros. É sabido que Sarney (na verdade José Ribamar Ribeiro, neto do Ribamar que foi “imediato” de um engenheiro da Royal Rail conhecido por “Sir Neil”, de onde lhe saiu o apelido como uma espécie de título de posse: o Ribamar do Sir Ney) de há muitas décadas manda, desmanda e se enriquece no Maranhão enquanto a sua população tem que se contentar com um IDH dos mais baixos do país. Mais do que isso, Sarney foi o grande representante civil da ditadura militar, não porque acreditasse nos “propósitos saneadores” da direita militar, mas porque lhe convinha estar ao lado do poder, como sempre esteve até mesmo na cadeira do Presidente da República. Esse homem a quem o Partido dos Trabalhadores jamais respeitou quando era oposição, hoje é citado por Lula como não sendo “um homem qualquer”. Não o é. Mas não pelas razões que afirma Lula em junho de 2009, mas por aquelas que o PT afirmava em 1989, a vinte anos passados, portanto. E quem se lembra disso? Ou melhor, a quem interessa lembrar isso? É possível que se o delegado de polícia política Sérgio Paranhos Fleury estivesse vivo Lula talvez elogiasse a sua “tenacidade no cumprimento do dever” à época. São lembranças que incomodam a quem mantém alguma coerência. Pedir coerência a políticos em defesa da cadeira do poder parece ser uma exigência descabida.

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 11h50
[ ] [ envie esta mensagem ]


A ESCRITA E BALZAC

      

O Blog, a escrita e Balzac.

 

Disse-me uma amiga: e o Blog? Escreve a cada dois meses? Não, disse eu, escrevo quando inspirado. Parece óbvio. Não é. Estou lendo “Ilusões Perdidas” de Balzac, cujo personagem principal tenta sobreviver da escrita. Os problemas de inspiração ali colocados por Balzac, além de sua visão crítica sobre a imprensa da época, traduzem minhas dificuldades e a vontade de botar-me em letras. Para uma outra amiga eu disse uma vez que troco o bar e as bebidas pelo teclado do computador quando triste ou muito alegre. Nem tanto, mas bem verdadeiro. Comentar com amigos sobre nossos infortúnios, desde que não os afaste, é melhor do que simplesmente beber. Contar para os amigos e beber um bom vinho ou uma cerveja leve, entre um papo e outro é ainda melhor. Tem ainda a possibilidade de terceirizar nossas aflições contando tudo para um terapeuta cujo ouvido não é uma latrina, mas sim um filtro seletivo que ajuda a elaborar raciocínios sobre aflições e alegrias. Finalmente, escrever parece trazer um pouco de paz ao nosso espírito. Assim é. Honoré de Balzac sabia como ninguém tratar da criatividade e das relações nem sempre transparentes entre homens e mulheres. Era um tempo de muito “parecer” e pouco “ser”. Seus personagens (que se repetem em diferentes romances, às vezes fazendo “pontas” ou simplesmente citados) vivem conflitos entre aquilo que querem realmente e aquilo que a sociedade valoriza. Em geral a opção dos que almejam alguma posição de destaque ou alguma nobreza, passa por ser aquilo que a sociedade supostamente valoriza. Assim são as mulheres ricas ou decadentes de Balzac, assim são os homens que almejam um dia ser notados num foyer de óperas. A França do século XIX já tinha certa sofreguidão pela leitura e daí, muitos sôfregos pela escrita. Penetrar nesse universo balzaquiano me tem sido prazeroso. Tive que abandonar temporariamente “O livro Negro” de Pamuk. Pamuk é outro que trata de uma sociedade que nós, americanos do Sul, cristãos, espíritas, socialistas ou anarquistas, temos dificuldade de compreender. Suas mulheres corajosas e seus homens conflitados só podem existir na sociedade turca que vive entre o islamismo e a (para muitos) difícil idéia de um Estado laico. Mas volto ao Balzac. Suas descrições sobre os trajes, perfumes, perucas e aquilo que para nós hoje se traduz numa absoluta pobreza de espírito, nunca foi (vá lá, é contraditório) tão atual. Seus políticos, seus editores e suas mulheres navegam num oceano de hipocrisias e aparências. Os casais nem sempre se gostam entre si e tampouco de seus amantes. Tudo o que fazem tem um interesse mesquinho, material e de absoluta vaidade. Vaidade, aliás, é o que não faltava naquela Paris do século XIX. Nessa sopa balzaqueana vejo personagens que me foram próximos. Vejo personagens de nossa vida pública, vejo afinal que Balzac é muito atual. “A Comédia Humana” de Balzac continua viva, com alguns focos alterados, mas com os mesmos comportamentos de seus personagens. À época, Balzac tratava da perda da inocência numa sociedade pusilânime. Hoje, nossos personagens parecem já nascer sem inocência ou são tragados rapidamente pelos costumes modernos dessa sociedade pós-moderna que, na verdade, já eram modernos nos tempos de Balzac ou nos de Molière.

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 14h25
[ ] [ envie esta mensagem ]


DIA DA MULHER

                                                   

  

 

As mulheres são o que de mais especial o Criador colocou no universo. E nem poderia ser diferente vez que sem elas a humanidade não cresceria. Aliás, as fêmeas têm essa nobre missão, a de multiplicar seus iguais.

Tenho uma vida vivida entre e para as mulheres. Assim sempre foi desde que, nos meus seis anos, o Ruy pai se foi deixando-me com elas e para elas. Ele, lá de cima, não deve se arrepender de todo. Se eu senti, ao longo de minhas décadas, a falta dele, por outro lado, me aconcheguei às mulheres. E muito. Desde a mãe, as irmãs, tias, professoras, colegas de trabalho e terapeutas, passando pelas companheiras, as mulheres tiveram um peso grande na minha vida. As companheiras foram absolutamente especiais, em diferentes momentos da vida e com diferentes características e motivações de paixões e amizade. As colegas de trabalho ajudaram na leitura do masculino e feminino do mundo profissional. Eram como binóculos para se enxergar no escuro. As companheiras, modo geral, aderiram a parte de meu mundo e eu ao delas. E nos isolamos do mundo real. Sem outras mulheres e sem outros homens. Amizades poucas, como se nos bastássemos um ao outro. Não era bem verdade. Mas não reclamo. Da vida com as mulheres tive mais ganhos do que perdas. Estão aí três filhos que me mostram isso a cada instante e mais dois que, não sendo filhos, navegaram por minha vida e ganharam minha estima.

Nesse caldo feminino de minha vida aprendi a preferir as mulheres para me relacionar. Claro, tive grande dificuldade em separar a carne do profissional ou da amizade pura e simples. O amor sem carne. Sim, ele existe, dizem. E acredito. Busco até hoje entendê-lo. E sigo amando, ainda que platonicamente. Tento nas minhas leituras entender melhor essa força dominadora feminina e seu papel em nossas vidas. Nem sempre é possível ou fácil entender isso. Balzac, Pamuk, Touraine, Garcia Márquez, Saramago e Proust ainda não me deram a compreensão de que provavelmente necessito. Mas acompanhei a trajetória de algumas figuras que me deixaram ainda mais convencido da força feminina no universo: Benazir, Indira, Anita Garibaldi, Hannah Arendt, a senhora Carrar, do Brecht, e outras mais próximas como Ruth Cardoso ou Fernanda Monte Negro. No vai-e-vem da vida procurei sempre ser “politicamente correto” com as mulheres, salvo quando vítima de minhas fraquezas, concomitantemente transformadas em culpas e hoje purgadas ou em processo de. As mulheres sempre me pareceram mais honestas, claras e objetivas do que boa parte dos homens. Pode ser uma bobagem, porque quando as pessoas sofrem de maucaratísmo não é o sexo que faz a diferença. Mas o fato é que com as mulheres é mais fácil abordar questões aparentemente difíceis. Com os homens, parece-me, devemos ser mais inflexíveis e duros. Ou eles nos derrubam. Será? Não creio nisso de verdade. Homens são tão bons ou tão ruins quanto às mulheres. Já tive momentos na vida em que achei que o mundo poderia acabar nas mãos delas. No segundo seguinte me parecia que, ao contrário, no futuro grupos do crime organizado poderão deter o poder sobre rebanhos de mulheres nos países pobres determinando a procriação ou vendendo crias num cenário sombrio do ano de 2100. De todo jeito, as mulheres estarão, num futuro não muito remoto, escolhendo um “produto seminal” para a sua procriação independente numa clínica do tipo das locadoras de filmes. Ali ela vai saber tudo sobre um tipo de “pai” que queira para o seu filho: origens familiares, doenças eventuais, biotipo etc. Não está tão longe essa ficção.  Enfim, quero falar sobre a mulher no Dia da Mulher. O Dia da Mulher, como se sabe, é mais uma data de almanaque, comemorativa, como o Dia das Mães. Vá lá, que assim seja. Mas importa para mim é que gosto das mulheres e de saber que elas continuam fortes em seus objetivos mais louváveis, lutando contra as desigualdades, contra o crime, contra as injustiças e, sobretudo, contra a violência de que são vitimas. Gosto das mulheres e acho impossível dissociar a beleza da maioria dos pés femininos das boas profissionais, das boas amigas, das primas ou tias. Ah, as mãos, ora pequenas e delicadas (como os pés) ora mais ousadas, dedos longos e veias pronunciadas que mostram o caminho para as unhas simétricas e bem feitas. No peito dos pés, outras veias denunciam uma sensualidade estimulante que surge discreta, da curvatura plantar. Ah, “pelas barbas do profeta”, o que pode sair daquela curvatura? Mas não se pode deixar de perceber a leveza dos braços e a dobra das axilas, desde que absolutamente depiladas. Axilas estão ali, muito próximas das saboneteiras e embaixo dos ombros. Que outra visão mais pode querer o homem, depois de apreciar esse conjunto geográfico feminino? Claro, o pescoço, em direção à nuca. Cabelos despojadamente presos com um hashi podem deixar aparecendo os fios capilares da base da nuca e onde se pode visualizar uma suave depressão entre os músculos do pescoço. Essa visão deixou muitos personagens da literatura mundial dos séculos XVIII e XIX, completamente inebriados. Enfim, os joelhos. Tenho até hoje a lembrança dos joelhos da “irmã do Zé Paulo”, um colega de escola. A moça, de cabelos pretos ondulados, olhos negros e um batom vermelho, que me lembrava uma cigana, ia à missa do colégio dos padres aos domingos e sentada no banco duro da capela deixava a mostra seu par de joelhos amorenados cujas rótulas eram suavemente pronunciadas, anunciando o porvir. Ah, quantas vezes me senti pecando quando, ao voltar da comunhão, aproveitava para olhar aquelas rótulas maravilhosas. Mas os joelhos sem rótulas pronunciadas também podem ser bons e é regra que anunciem o porvir no imaginário masculino. Pelo menos no meu. Joelhos nos levam também às panturrilhas. Depois dos anos oitenta a moda é ter panturrilhas salientes e que dêem formato às pernas. O homem que nunca seguiu uma panturrilha que atire a primeira pedra. E as canelas? Já gostei de canelas grossas, daquelas que afinam suavemente em relação ao resto da perna, excluídas as panturrilhas salientes. É um tipo de perna sem malho ou malhada e com essa configuração discreta. Hoje aprendi a gostar de canelas de todo o tipo. Cabelos? Não importa como sejam desde que cheirosos. Penugem? Nas coxas e nos braços, descolorada. Não falo dos olhos e das bocas das mulheres, pois que cada uma tem a sua mensagem definida. Que sejam meigas e fortes ao mesmo tempo. Que sejam inteligentes para entender os homens e manter com eles uma relação de iguais, pois que assim somos: iguais. Que tenham humor para enfrentar os reveses da vida e que saiam deles de cabeça erguida. Ah, aprendi na vida que as mulheres têm essa capacidade, a de sair de cabeça erguida, muito maior do que a dos homens. Enfim, que os homens aprendam que o Dia da Mulher é todo o dia, são todos os momentos já que sem elas não estaríamos na terra e nem teríamos uma próxima geração. Todo dia é dia da mulher porque são elas que, não raro, suave e discretamente, articulam acertos familiares, contas, relacionamentos e até medicamentos que ajudam o homem a sobreviver vivendo melhor. Não falo das antigas donas de casa e de senhoras da Casa Grande. Falo mesmo é da mulher secretária, publicitária, jornalista, advogada, administradora, nutricionista, cobradora, policial, enfermeira, bilheteira, vendedora, médica, massagista, freira, professora, doméstica, corretora, sogra, motorista, mergulhadora, telefonista, cambista, guia de turismo, cabeleireira, manicure, pedicure, cozinheira, arrumadeira, governanta, assistente, cineasta, nutricionista, delegada, comissária de bordo, piloto de avião, parteira, rezadeira, carpideira, merendeira, desempregadas, mães, viúvas, amantes, cocumbinas, de programa, e todas enfim, merecedoras da admiração e agradecimento dos homens só pelo fato de existirem, nos trazerem à vida e nos fazerem a vida. Encerro trazendo um trecho de matéria que postei neste blog (http://jruyveloso.zip.net) em 16/12/2008 intitulada “Relações, Solidão e Egoísmo”, quando misturo Alain Touraine, Reich e Alvin Toffler. Acredita? Pois é. Vivam as Mulheres!

Em seu livro Le Monde des femmes, em português, "O mundo das mulheres", (Vozes) Touraine explica o que há de diferente no "olhar feminino" sobre a vida: A sociologia das mulheres é uma parte essencial de uma sociologia geral. Já agora, uma grande parte dos debates da filosofia política e social e da sociologia é construída sobre os problemas postos pela situação e a ação das mulheres. Nossas sociedades modernas são dominadas pelo recentramento sobre o indivíduo, considerado em todas as suas funções e em seus direitos. Pode-se, também, dizer que o tema da sexualidade ocupa aí o lugar central, que era antes o do trabalho na sociedade industrial e são as mulheres que escrevem as obras mais essenciais neste domínio. Não é preciso deixar-se limitar aos problemas da desigualdade. É preciso eliminar toda referência mais ou menos psicológica ao feminino. Em troca, é preciso compreender por que as mulheres estão na origem da nova sociedade e da nova cultura que se forma sob nossos olhos.

 

                           



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 21h42
[ ] [ envie esta mensagem ]


ABELARDO FIGUEIREDO

                                    

ABELARDO: UM HOMEM COM MUITA PRÁTICA

Eu conhecia o seu nome ligado ao Beco, uma casa de shows cuja entrada era por um corredor e onde mulatas rebolavam para os poucos turistas do exterior e do interior do país que aportavam em São Paulo. Mas foi nos anos 1980 que tive a oportunidade de conhecê-lo de perto ali no Shopping Eldorado onde dividia com o amigo “Pepe”, o espanhol/santista Jose Agra Blanco, a gestão do Palladium. Conheci Abelardo Figueiredo e no apressado convívio, pois que todos corríamos dezesseis horas por dia, aprendi alguns aforismos abelardianos e conheci cousas dos bastidores engraçadíssimas. Abelardo tinha humor, saber, talento e paciência. Sabia como transformar o simples em arte e melhor, sabia do que o povo gostava. Um dia fazendo referência ao meu gosto musical, eu comentava sobre alguns números do seu show “São Paulo by night” que inaugurou o Palladium e ele me confidenciou: “não pense que gosto de todas as músicas que ponho em meus shows. Quando o faço não é para mim e sim para o meu público”. Óbvio? Nem tanto. Não são poucos os diretores de cena que tendem a selecionar de acordo com o seu gosto. No show business desde os seus dezessete anos, Abelardo conheceu de perto todos os nomes da música e da cena brasileira. E era por todos respeitado e elogiado. Viajou a mundo com os seus shows e fez o Brasil conhecido. Ganhou dinheiro, reconhecimento e grande experiência. Era dele a expressão “pouca prática”. Assim se referia a alguém que não tinha talento, fosse uma dançarina, um político ou um garçom. Pepe, eu e Madia (Francisco Madia fazia o marketing da empresa Eldorado S.A.) pegamos a mania e usávamos a expressão sem pagar royalt. Sobre o Plano Cruzado do então presidente Sarney e seu, hoje falecido, ministro Dílson Funaro, ele dizia: “eles são um selecionado de poucas práticas”. Mas ele era um “muita prática” sempre de bom humor. Contou um dia sobre a mulatíssima Marina Montini que teria recusado um pato num restaurante parisiense: “não quero Abê. Não vou comer canário”. E Abelardo explicou pacientemente que “Canard” era pato e não canário. Foi com Abelardo que conheci de perto a beldade Vilma Dias que num programa da Globo aparecia na vinheta saindo de uma banana. Ela fazia um número pra lá de sensual com um chicote na mão domando garotões. À época eu conversava com Célia, a rainha da voz na noite paulistana e com um imenso elenco de dançarinos, músicos e técnicos. Um mundo da Broadway, reproduzido ali na pirâmide de vidro às margens do rio Pinheiros. Abelardo foi um “Rei da Noite” comedido e absolutamente família. Gostava de ir para sua casa em Monte Verde e de visitar amigos no Rio de Janeiro, cidade que amava e que temia entristecido pela constatação da violência. Era elogiado por gente elitista como Chico Buarque e venerado por Isadora Ribeiro, Norma Benguel, Marco Nanini e outros hoje globais. Manoel Poladiam e Peri Ribeiro o tinham como a um conselheiro. Pode não dar para acreditar. Mas assim ouvi à época. Enfim, ele se foi. Abelardo, com certeza, vai organizar shows na eternidade. É possível que o censurem um pouco. Menos peitos de fora e coxas mais cobertas. Mas não há de ser nada. Ele pode topar com a rainha Shabá (separada de Salomão?) e montar um espetáculo com autenticas negras do período a. C. Conversa e cintura não faltarão para que ele acerte os detalhes com São Pedro e, a propósito, vai sugerir ao porteiro do céu que mude aquela barba e o hábito já sem cor. Ele sabe como fazer isso. Tchau Abelardo, seu “muita prática!”

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 12h43
[ ] [ envie esta mensagem ]


CRISE

                                                                                  

Crise

 

1.  Suzana Toledo me encontrou na porta da faculdade. Não era dia letivo. Ela me abraçou com força: prófe, eu tô saindo, ou melhor, tô trancando. Que foi? Ela, em lágrimas: perdi o emprego na fábrica. Dizem que a venda de celulares caiu mais de 35%. Sacanagem! Também acho. Caiu nada prófe, eles querem mesmo é se livrar da gente. E o marido? Ah, coitado, tá de corretor de casas de aluguel. Imagine prófe, logo ele que é demais em informática, formado lá na Cidade de Deus em Osasco, ainda no tempo do Amadeu Aguiar. Quantos anos tem seu marido? Cinqüenta e três. E você? Já fiz trinta e dois. Puta crise prófe, puta crise... No casamento? Isola! Que é isso prófe? O maridão não me deixa e nem eu a ele. Agora, se eu não me formar, vai ser difícil emprego. Lá na fábrica eles me davam vinte e cinco por cento da mensalidade. Mas e agora? Agora? Só agradeço a Deus que não fiquei grávida. O maridão tem um filho na faculdade, mas ainda bem que é na Unicamp. Mesmo assim ainda gasta muito em livros e outras coisas. É... E o senhor prófe, muita consultoria? Quase nada...O senhor acha que é crise mesmo? Acho que é pra valer. Sério?! É... Tem que ler jornal, o Valor, o Estadão etc. É verdade o senhor sempre fala isso... Que curso faz o seu enteado? Adivinha né? Ciência da Computação...

2.   Amadeu tirou os sapatos e pegou uma cerveja na geladeira. Ligou a TV, mudou de canal várias vezes, deixou no GNT e tirou o som. Eram horas. Foi levantando e sentando até a quarta cerveja. Sempre com a imagem, sem o som. Já estava bocejando quando a porta da sala se abriu e Cláudia entrou com sua bolsa a tiracolo e a pasta com notebook na mão esquerda. Ela olhou para ele no sofá enquanto tirava os sapatos. Ao pendurar a bolsa no mancebo que compraram lá nas cidades históricas percebeu as cervejas abertas e vazias sobre a mesa de centro. Disse automaticamente oi amor e foi indo para ao banheiro. Precisava lavar as mãos. Amadeu não se mexeu e nem mexeu na TV. Ela voltou sem a saia, com a meia calça, a blusa, o colar de bijuteria e os brincos delicados. Beijou-o suavemente na testa e sentiu o cheiro forte da cerveja: você tomou quase cinco litros de cerveja, Amadeu. Cada garrafa tem 900ml. Amadeu piscou e sorveu de uma vez o último copo. Depois depositou-o devagar sobre a mesa toda molhada pelo degelo das garrafas e voltou a olhar para a TV. O que houve? Ele continuou mudo. Diga homem, o que foi? Ele olhou-a com força, lá no fundo dos olhos, segurou seus braços e falou: é a crise. Como assim? Ganhamos hoje a ação contra o governo a favor do aumento do seguro da MedSalva. Ah, querido, que beleza! Você é o homem. E foi abraçá-lo. Ele se esquivou e levantou. Porra, sabe quanta gente com mais de setenta anos vai ficar sem o seguro saúde? O que é isso Amadeu, você é um advogado... Foda-se! Eu não gostei do que fiz! Calma Amadeu, o que é isso? Você vai ter três e meio por cento da causa, calma! Foda-se o dinheiro mulher. Eu ferrei aquela gente. Não gostei de mim. Calma Amadeu! Eu estou calmo, porra ! Você me põe nervoso! Não gostei do dia de hoje, mulher, não gostei! Ela saiu devagar e entrou no banheiro. Já no box, sob o jato de água morna e passando suavemente as mãos sobre os seios lembrou-se com um sorriso nos lábios nas horas que passara com Artaxerxes, o sócio do Amadeu, naquele fim de tarde. Ele sim, compreendia melhor muitos dos sentidos, inclusive os do Direito e os da crise. Cerrou os olhos e deixou a água escorrer...

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 00h39
[ ] [ envie esta mensagem ]


SOBRE LOBOS E CORDEIROS

                                                              

                Saviano                                                                  Novelas da Glória Perez

SOBRE LOBOS E CORDEIROS

 

  • Roberto Saviano, 28 anos, napolitano, infiltrou-se entre os bandidos do crime organizado e sobre o tema escreveu o livro GOMORRA, que virou filme premiado na Europa. Vi o filme e estou lendo o livro. O segundo é melhor do que o primeiro e não tem muita novidade para quem já viu tanta coisa no Brasil e cercanias. O interessante é que a polícia italiana agora acusa o escritor por ter feito parte da organização criminosa. Já os que aparecem no livro, continuam tranqüilos em seus caminhos...
  • No indulto de Natal muitos sentenciados não voltaram à prisão. Entre eles estão muitos que apenas roubaram margarina de supermercados. Já o policial que foi condenado por matar a namorada em Belo Horizonte teve autorização para "recorrer em liberdade". O jornalista que matou a ex-namorada com tiros nas costas, é réu confesso e foi condenado pelo júri, também está em casa, em Spas e praias, aguardando recurso que seus advogados impetraram.
  • Paulo Maluf, Celso Pita, Reinaldo de Barros, Delúbio Soares, "Aloprados", "Esquecidos", "Enganados" e "Companheiros", todos eles passaram a noite de 31 para 1º de 2009 em festas. Já os voluntários que foram pegos "separando para si" roupas e alimentos doados para os flagelados de Santa Catarina curtiram uma cana braba. É preciso exemplar...
  • A GLOBO insiste em colocar no ar aquelas novelas da Glória Peres que tratam de ponte aérea entre o Rio de Janeiro e países distantes. Novelas não são agradáveis normalmente. Agora, novela da Glória Peres é um insulto. Ô raça!

 

             

 

 

 

 

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 21h24
[ ] [ envie esta mensagem ]


                                                                          

 A CIGANA

Passou por nosso stand naquele evento, recendendo algo parecido com alfazema. Sua roupa era característica: saia comprida rodada vermelha, com babados; blusa vermelha e amarela com babados brancos e lenço vermelho arroxeado no pescoço. Nos braços muitas pulseiras e os dedos entupidos de anéis. Na cabeça, acho, um lenço. Batom vermelho e todas as unhas também absolutamente escarlates. Parou no stand vizinho e ficou olhando a nossa TV. Fui no impulso. Cheguei perto, abri a mão esquerda e mostrei-lhe a palma. Ela falou firme: se quer que eu leia a sorte vamos ao meu stand. Se você é participante do evento são vinte reais. Fechado o negócio, fui seguindo-a. Lá tinha de tudo: imagens de santos, almofadas no chão e uma mesinha redonda com duas cadeiras. Tudo coberto com aqueles tecidos de cortinas pesadas. Sem delongas ou um intróito qualquer pegou um lápis, abriu um bloquinho de notas e foi perguntando data de nascimento. Mal acabou de marcar os números que eu lhe passava e foi dizendo sem rodeios: 2+3 são cinco, 05 são cinco. Isso mostra o "Papa" no Tarô. Você é um sujeito que dá tudo de si e espera a retribuição. Besteira. Ela não vem necessariamente. Dê o que quer dar de si e se contenta com esse prazer. Não idealize as pessoas de acordo com seus sonhos, no amor e nem no trabalho. Elas são o que são e você vai gostar delas, ou não, assim como elas são. Essas pessoas que você desenha são na verdade a sua alma gêmea, seja masculina ou feminina. E o que você tem contra os homens? Eles podem ser amigos também. Em seguida virou a página e começou a somar atrás as datas e o ano de 2009. Depois somou os números do resultado, extraiu nove do resultado e foi categórica: o seu número é do louco (carta do tarô?) e o ano do louco vai acabar no dia 21 de março. Isso vai encerrar um ciclo. E aí vem o melhor: começa o ano da colheita. Se você estiver plantando bem vai colher muito e pode ser coisa boa. Se o plantio não está indo bem, ainda dá tempo de renovar. Sem tomar fôlego perguntou: quer que eu leia o baralho ou a mão? Escolhi a mão. E aí chega. Não conto mais. Pode ser, como sempre, uma grande coincidência, mas minha conversa de doze horas passadas veio à mesa. A cigana repetia, lendo a minha mão, tudo o que eu já ouvira há doze horas atrás. Não foi mole. Depois, só pra complicar, deu outro vaticínio. E não esse não foi agradável. Mas o que fazer? Se é tudo mesmo uma grande brincadeira, quem mandou eu brincar com histórias que podem dar medo à noite? Se não for brincadeira, quem me mandou perguntar e ainda por cima pagar, para escutar o que pode não ser bom? Aí eu lhe disse, pô pegou pesado! E ela disse: falei porque você é forte e precisa saber, senão não teria me chamado lá. Não me ofereci. Você é que veio. Era verdade. Paguei e fui saindo. O cheiro de alfazema aumentou. E o dia mudou.



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 22h51
[ ] [ envie esta mensagem ]


 

   

Amores impossíveis, semi-possíveis e até possíveis.

 

No primeiro ano da escola primária eu tinha seis anos. De longe curtia a paixão por Gilda. Pequena, cabelos pretos curtos, olhos redondos negros e um sorriso enigmático. Ela teria a minha idade, é claro. Depois foi a Hortência, a musa já explicada neste Blog. Era uma vizinha com os seus dezessete anos e três irmãs também bonitas. Amei-a com certo desespero. Depois foi a Maria Angélica. Falamos de namorar através de recados de outras meninas. Eu tinha então oito anos e andava o dia todo de bicicleta. Fui para o colégio, interno, e só pensava nela dia e noite. Tinha os cabelos queimados do cloro da piscina, pernas magras e um sorriso raso. Mas era meiga. Nunca peguei na sua mão. Depois do internato vieram mais duas vizinhas: Maria, morena de cabelos pretos e pele clara, tinha uma expressão um pouco triste e morava numa "casa de fundos" o que me dava uma certa pena e aumentava o meu querer para "salvá-la". Mas quem me dava bola mesmo era sua amiga que não saía de lá, a Sidnéia. O nome já complicava e o visual me afastava embora me enchesse de tesão: cabelos tingidos de loiro e penteados no estilo Brigitte Bardot. Saias bem curtas, batom deverasmente vermelho e unhas idem. No dia em que criei coragem e me aproximei dela, num domingo à noite na "Quadra Cinqüentenário", onde víamos jogos de basquete, o irmão (o Sidnei) chegou com uma tropa para me bater. Com vergonha e medo chamei-o para "ir lá pra fora". Quando me vi na rua corri até não mais poder e numa esquina me atirei na grama do Grupo Escolar Cristiano Olsen que tinha uma mureta baixa. Deitado na grama fiquei quase sem respiração aguardando que passassem os meus algozes. Nada aconteceu e uns quinze minutos depois corri para casa e nunca mais dei bola para nenhuma das duas. Aos quatorze anos foi a Keta, que aconteceu por acaso já que o alvo era a Rosa. Mas dela extrai o primeiro beijo de língua encostado no muro da casa da Rosa que ficava ao lado do pensionato japonês. Depois veio a Rosa. Ah, paixão conturbada que durou dos quatorze aos dezesseis, acho. Beijos e amassos com muita pureza, porque achava eu, não devíamos ir mais longe, ainda que oportunidades não faltassem. O pai repressivo me amedrontava. Mas foi o primeiro convívio com outra família e o primeiro ciúme de mulher bonita e provocante. Ela era perigosamente explosiva e jogava charme. Tinha a pele macia e duas marcas inconfundíveis, numa perna e num dos braços. A boca grande era o seu grande charme, sorrindo com os dentes separados. Ah, Rosa... Acabamos antes de ela mudar-se para o Rio, já levando uma vida adulta. Eu continuava criança. Num mês de julho, aos dezesseis, a paixão foi a prima Isis. Ah, como doeu aquele final de férias de inverno ao vê-la voltar para sua casa e dias depois perder o seu pai estupidamente em um acidente. O fetiche de seu nariz adunco, no entanto permaneceu em todas as futuras grandes paixões. No interregno da prima surge a Cristina, cujas pernas roliças e o accent morno das alterosas belorizontina, deixavam meia cidade eretiva. Sempre nos declaramos, mas tudo não passou de uma provocação dela que mexeu com minha testosterona. Algum rala-coxa sob mesas, apertos de mão sorrateiros e um beijo fugidio numa excursão a uma queda d´água. Depois foi muito fast track: a Margarida, de cabelos pretos longos e um rosto comprido. Ela se achava feia porque tinha uma prima loira de olhos azuis que fazia sucesso. Pois eu a gostei e foi tudo muito rápido, não passando de beijocas à socapa da tchurma. Mas antes dela houve a Sheilla. Ah, a menina que morava na Phillip Hill Road, San Bernardino, Califórnia  e veio para o Brasil pelo American Field Service. Seu pai era engenheiro de plataforma de lançamento de mísseis em silos e ela tinha uma impressionante consciência ambiental, lá nos anos 1960. Foram beijos trôpegos e apressados no jipe que eu tinha. Seu rosto era meigo e ela tinha vergonha da acne e da pele oleosa. Suas pernas eram magras e bem feitas e seus pés (andava muito descalça) eram semi-angelicais com os dedos um pouco afastados entre si. O cabelo loiro era escorrido e quando ela chegou fingiu não entender nada do português para saber o que falavam dela. Como falavam um monte de besteiras achando que ela não entendia e eu, politicamente correto, a defendia, saí ganhando com mais de um pescoço de vantagem. E ainda por cima, gaguejava o meu inglês. Essa é a fase 1,5. Volto com outras.

 

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 14h44
[ ] [ envie esta mensagem ]


      

   

Ode genérica

 

É grande o talento dos políticos na arte verborrágica procrastinativa.

É grande o talento dos atores na arte de interpretar realidades.

É grande o talento dos solitários em sorrir coletivamente.

É grande o talento dos falsários em vender sonhos desonestos.

É grande o talento da morte em se fingir distante!

 

É grande o amor quando não correspondido.

É grande a paixão porque não pensada.

É grande a dor do amor quando acabado.

É grande o valor do ouro quando perdido.

É grande o talento do homem para fingir-se forte.

 

É grande o prazer da vida para quem um dia morreu.

 

É grande a força das mulheres,

É grande a vontade feminina,

É grande a beleza das fêmeas,

É grande (e doce) o sorriso das balzaquianas,

É grande o domínio (inteligente) das frágeis sobre os fortes!

 

É grande a carência do macho em relação às fêmeas,

É grande o orgulho dos machos frente às fêmeas.

É grande a posse dos machos em relação às fêmeas,

É grande o medo dos machos de ser menor do que as fêmeas,

É grande a fraqueza dos machos diante das fêmeas!

 

É grande a jornada (uma vida) da busca pelo amor

 

É grande a maldade do dinheiro sobre os pobres

É grande a soberba dos médicos sobre as vidas

É grande a dor dos pais pela dor dos filhos

É grande a emoção do ator sob os aplausos

É grande o vazio da amizade fugidia

 

É grande a piedade dos culpados

É grande o remorso dos omissos,

É grande a culpa dos inocentes,

É grande a distância dos juízes

É grande a miséria da justiça

 

É grande a esperança do mundo!

 

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 12h59
[ ] [ envie esta mensagem ]


Sobre relações, solidão e egoísmo

     

 Touraine                                                                                 Reich                                                                           Toffler

  

Sobre relações, solidões e egoísmo.

 

Caio é um jovem de boa cabeça como tantos poucos outros que pouco encontro por aí. Gosto de falar com ele porque é possível trocar idéias sem ficar com aquela sensação de contas a receber. Falamos de coisas comuns como bundas das colegas, política e arte. E dia desses ele me falava da namorada que, psicóloga/culinarista, lhe falou de uma tendência que vai se consolidar nessa metade do século 21: as relações egoístas. Explico: as mulheres e os homens tendem (rão) a manter suas relações afetivas com uma prudente distância do outro. Trata-se mesmo de uma distância física, em moradias separadas e ao contrário dos anos 1970, quando havia uma propensão à promiscuidade, as relações manter-se-ão firmes e cercadas de fidelidade. Os pares serão solidários nas necessidades e nas dores e aí, nesses casos, dividindo o dinheiro e a presença. Passada a tormenta, tudo volta como dantes: à distância. Isso sinaliza um pressuposto de baixa natalidade e um novo perfil de família, diferentes das "famílias modernas" do final do século 20 quando os pais separados constituíam novas famílias e os filhos dos casamentos anteriores se misturavam aos meio irmãos. Intelectuais distantes em seus estudos de mundo como o sociólogo Alain Touraine e explorador de cenários Alvin Tofller, trataram, cada um a sua maneira, dessa tendência.

A visão de futuro de Alvin Toffler era muito diferente da dos principais pensadores dos anos 70, que previam um futuro de ócio, após décadas de criação de riqueza e de padrões de vida elevados. Toffler previu um futuro de insegurança e humildade, no qual a tecnologia iria transformar os métodos de trabalho, em vez de acabar com o trabalho humano. Isso mudaria o comportamento da sociedade (a composição das famílias, os clubes familiares) e suas necessidades de consumo. O foco de Toffler são os governos e as empresas.

Alain Touraine dá importância ao tema da alienação - esta, pautada pela participação dependente, ou seja, a integração dos indivíduos no jogo dos aparelhos dominantes que visam impor um modelo de desenvolvimento econômico sob um aspecto impessoal, de forma a aparecer como única alternativa possível no interesse de toda a sociedade. Os termos de que Touraine se utiliza para descrever esta alienação são a integração, a manipulação e a sedução. Para o sociólgo francês, as consequências sociais de uma mulher autônoma e independente do homem não são fruto do feminismo: As mudanças em curso, na família como na vida sexual, não são, provavelmente, efeitos antes de tudo do feminismo. Mais exatamente, observa-se a separação da sexualidade e da vida cultural em geral e a construção propriamente social de um modelo de família e também de menor dominação masculina. Estamos apenas no início de uma evolução rápida que separará condutas sexuais sempre mais diversificadas e a construção da vida familiar, tomando, ela própria, formas muito diversificadas. A relativa facilidade com a qual se avança para o reconhecimento do casamento homossexual indica que as barreiras tradicionais se enfraqueceram consideravelmente.

Em seu livro Le Monde des femmes, em português, "O mundo das mulheres", (Vozes) Touraine explica o que há de diferente no "olhar feminino" sobre a vida: A sociologia das mulheres é uma parte essencial de uma sociologia geral. Já agora, uma grande parte dos debates da filosofia política e social e da sociologia é construída sobre os problemas postos pela situação e a ação das mulheres. Nossas sociedades modernas são dominadas pelo recentramento sobre o indivíduo, considerado em todas as suas funções e em seus direitos. Pode-se, também, dizer que o tema da sexualidade ocupa aí o lugar central, que era antes o do trabalho na sociedade industrial e são as mulheres que escrevem as obras mais essenciais neste domínio. Não é preciso deixar-se limitar aos problemas da desigualdade. É preciso eliminar toda referência mais ou menos psicológica ao feminino. Em troca, é preciso compreender por que as mulheres estão na origem da nova sociedade e da nova cultura que se forma sob nossos olhos.

Pode parecer que a visão de um e de outro não explique o porquê dessa tendência de solidão e egoísmo. Todavia é preciso compreender que o mundo do século 21 é assombroso porque competitivo e devorador, tanto nas relações de trabalho quanto nas relações afetivas. As mulheres e os homens não se sentem seguros, antes, usados. Pelas empresas, pelo Estado e pelos parceiros eventuais. As empresas os usam tanto quanto os parceiros. As carreiras são fugazes e os namoros também. Tudo é fast track: a empresa quer resultados rápidos e os parceiros também. Não querem (precisam?) nem mesmo uma relação sexual duradoura como propunha Reich em seu livro "Casamento Indissolúvel ou Relação Sexual Duradoura". Reich analisa a questão de dois pontos de vista, o econômico e o sexual. Para ele o casamento do ponto de vista econômico baseia apenas na relação compulsória entre homem e mulher, em que a base é de interesses econômicos ressaltando o papel da mulher e dos filhos. Este é caracterizado como casamento indissolúvel. Do ponto de vista sexual, Reich trata o casamento com uma relação baseada em necessidades sexuais e que por isso tem a pretensão de ser mais plena e duradoura. Mas isso foi escrito na década de 1930. No século 21 o jovem não sabe se quer ser pai. Quando mais maduro, aos quarenta, acha que já está velho. E aí se vai a natalidade, aí se vai o conviver na divergência, aí se vai o casamento tradicional. Parece que as novas gerações não querem ter que enfrentar, juntos, as cólicas menstruais, TPMs, puns e eventuais roncos. Isso exclui também sogras, cunhados chatos e sobrinhos pentelhos. Na prática, o século 21 parece retomar a política dos haréns: mulheres (e agora os homens também) prontas para ao uso, sem sangue, dor de cabeça ou dor de barriga. E sem vida no ventre. Só prazer e lascívia. Exagerei. Mas dá o que pensar...

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 00h47
[ ] [ envie esta mensagem ]


Uma aula especial

 

UMA AULA ESPECIAL

 

O trabalho de professor sempre se constituiu um desafio dos grandes, sobretudo numa sociedade católica e de herança escravocrata como a brasileira. Ser professor no começo do século 21 é no entendimento de alguns um trabalho de bóia fria de luxo. De fato, num tempo em que estudantes das escolas superiores privadas, modo geral, não têm tempo/interesse pela leitura, qualquer uma delas, ou pela informação, ser um professor motivado exige mais do que talento. Exige mesmo é doação. Se considerarmos que em muitas dessas instituições nem mesmo o vínculo trabalhista existe mais, agora substituído pelas cooperativas (como já ocorre com os médicos nos hospitais) aí então, os professores terão que exigir ainda mais de si mesmos. Mas o que é gratificante nessa profissão é que se ouvem os discursos na sala dos professores, onde a adrenalina corre solta antes das aulas (e depois também) falando desde Obama, crise mundial e salários, até o calendário de feriados que, haja, às vezes oferece boas folgas e então, haja de novo, atrapalha o desenvolvimento das aulas. Professores se preparam para as aulas, ali na sala deles, como soldados que preparam suas armas ou aviões para a batalha nos filmes estadunidenses. Afiam seus notebook, carregam seus PowerPoint e perguntam sobre os territórios e lutas: como foram os TCC da Mônica e do Rodrigo Careca do 8º D? Quem está no 6º B na primeira aula? Putz, meu filme não quer rodar nesse computador! E vão decolando, um a um para suas missões onde são recebidos sempre com sorrisos, solicitações, justificativas e cansaço. Mas reconhecidos como bons guerreiros. Mas porque falo disso? Porque semana passada assisti a alguns minutos da aula da Tati. Simples assim. Tati. Lá estava ela, na sala 16, com uma turma de 6º semestre de Educação Física, absolutamente atenta, participativa, entusiasmada e motivada. Mais do que isso, os estudantes assistiam às suas explicações e faziam intervenções com amor. Isso mesmo. Amor. Tati estava lá, imóvel, numa cadeira de rodas, explicando sobre a diversidade, o preconceito e a interação dos futuros professores de educação física com pessoas portadoras de algum tipo de deficiência. Falava tranqüila, meiga, porém firme. E a sala ali, sem perder uma só palavra. Alguns estudantes tinham os olhos vendados e tentavam sentir o que se passava à sua volta. Os colegas tiveram que explicar a minha entrada na sala. E a professora seguia explicando e ouvindo a experiência de cada um deles, já no mercado de trabalho. Um era professor de natação de dois garotos, gêmeos e autistas. Outro era professor de natação de uma limítrofe com sexualidade acentuada e foi por aí. Mostrou um trecho de filme que trata da relação entre um sentenciado à pena alternativa e uma deficiente e já passava das vinte duas e trinta quando ela deu sua última mensagem remetendo-os à próxima aula. Foi aplaudida em pé por todos. Levantou-se da cadeira e esticou as pernas. Ela não é portadora de deficiência física. É uma mulher saudável, jovem e bonita. É uma professora que gosta do que faz. É uma pessoa feliz em sua profissão e querida pelos seus estudantes/clientes. Ela pode ser tema para um roteiro de filme estadunidense. Tati, em seu trabalho, traduz a essência do que é ser um facilitador do conhecimento. E nos faz orgulhosos de estarmos em sala de aula. Tatiana. Uma professora que não será esquecida. (Tatiana Passos Zylberberg é graduada, mestra e doutora pela Unicamp na área de Educação Física. Artista plástica e poetisa é professora na Metrocamp, Campinas).

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 23h07
[ ] [ envie esta mensagem ]


Sobre homens e suas escolhas

           

Sobre homens e suas escolhas

 

  1. Obama eleito, mundo satisfeito. Não quer dizer que tudo se resolva, mas quer dizer muito. Obama, cantado em prosa e verso, já tem cara de cansado (não foram fáceis as jornadas para vencer a senhora Clinton e depois os republicanos: 120 dias a primeira e 120 dias a segunda) depois de quase um ano numa maratona pra gente grande. Venceu e é o primeiro presidente filho da Era de Aquarius. Nascido em 1961, Obama é filho do fim da era Elvis misturada a Mamas & Papas, seguidos de Rolling Stones, Beatles e muitos “Easy rider”. Sua mãe amava o diferente. Fugia dos Wasp. Ele foi criado num mundo sem preconceitos onde todos são humanos, nem pretos, nem amarelos, vermelhos ou brancos. São homens e mulheres. Estudou, trabalhou pelos pobres, apaixonou-se por uma branca e teve o grande amor de sua vida em uma negra. Agora os dois e seus filhos vão rechear a Casa Branca e dirigir o mais rico país do mundo. Barack Obama soube fazer suas escolhas.
  2. Artêmio Molinari tem o cabelo tingido e já fez lipoaspiração. Usa anel de advogado e uma espécie de aliança de ouro, grossa e pesada. Pesado também é o seu carro blindado e pesado é o clima em seu escritório quando passam por lá os representantes de seus mais rendosos clientes. Mas ele anda reluzente, recendendo a uma colônia doce da Dulce Gabana, presente de uma de suas cinco ou mais protegidas. Artêmio não faz questão de se mostrar no meio dos figurões. Nesse aspecto é low profile absoluto. Sua secretária, que controla reuniões, encontros e presentes para as protegidas, é proibida de comentar em casa algumas ligações que eventualmente caem no telefone do escritório. Artêmio tem quatro celulares e doze chips diferentes. Seus sapatos são sempre brilhantes e suas camisas parecem aquelas que estão sendo usadas pela primeira vez, saídas da loja. Ele gasta bem, sobretudo quando o assunto são as suas protegidas. Tem bom humor e ri bastante, mas o olhar é sempre atento e jamais deixa um restaurante pegando o carro sozinho. Um segurança sempre faz isso para ele. Agora ele quer fazer um implante capilar preventivo e progressivo, inventado por um médico de Houston. Um cliente lhe sugeriu um implante peniano que pode lhe garantir vida mais do que ativa até mesmo depois dos 80. A invenção é de uma clínica na Ucrânia, financiada por confrarias russas. Artêmio não quis falar sobre o assunto. Ele já fez sua escolha.
  3. Waldir de Sá é o que se pode chamar de um engenheiro de sorte. Casou-se com uma moça casta e dedicada à família. Tem duas filhas e um apartamento bem acabado, com esmero. Trabalha para o Estado e para empreiteiras. Mede obras como consultor independente e faz vistorias para o BNDES. Com isso consegue ganhos, benefícios e amizades. A mulher não pergunta por sua renda e ele não pede nada do salário dela. Vão à missa todos os domingos e quando pegam praia, vão bem cedo para evitar o sol forte na frágil pele das meninas. Waldir é um marido exemplar, um genro adorado e um pai severo. Controla a TV e o computador, ambos no quarto das meninas. O mundo é um perigo, ele sabe. Vê o jornal da Globo, com o William Wac e Cristiane Pelagio, já de pijama e chinelo com almofada. Aliás, seu pijama, em cor azul clara, parece saído do pacote de presente. Tem até vinco na frente da camisa, com dois bolsos a altura da cintura. Faz a barba antes de dormir e ao levantar. Não quer que a mulher fique com o pescoço vermelho e irritado caso aconteça algo no meio da noite. Waldir de Sá não fala sobre o trabalho e se preocupou com a eleição de Obama. Acha que as exportações para os EUA vão diminuir. Waldir de Sá fez a sua escolha.


Escrito por José Ruy Veloso Campos às 23h46
[ ] [ envie esta mensagem ]


PODER

                  

PODER

Pete St. John é um marquetólogo que aprendeu o seu ofício no escritório de Wilfred Buckley. Cresceu profissionalmente e se deu bem no mercado separando-se do mestre. Virou um ícone no marketing político, é chamado por diferentes candidatos e os leva à vitória. O que o difere do mestre, mais velho e menos ortodoxo no consumo de uísque é que ele, o mestre, só trabalha para políticos nos quais deposita alguma confiança. Faz marketing dentro de sua ideologia e sua ética. Já Pete não tem lá esses princípios muito bem definidos. O negócio dele é dinheiro e sucesso. Os dois se cruzam em aeroportos tratando de políticos diferentes. Os dois sabem que poderiam fazer muito mais por seu país mas, um se deixa levar pelo álcool e o outro pelo dinheiro. E assim se constrói o poder político no país. A eleição é hoje e tudo já está definido na cabeça do eleitor, sabe-se lá como. Mas sempre vale a pena conhecer a história desses dois homens e relacioná-la aos cenários de hoje, no Brasil e nos EUA. E ainda se tem a vantagem do entretenimento com uma trama para passar o tempo. É um filme do Sidney Lumet de 1986 e o Madia já escreveu sobre ele na revista da TAM, há anos. Mas não devemos esquecê-lo. Basta procurar nas locadoras (ainda existem?) ou nos melhores sites de homevídeo e pedir por “Power” ou “Os donos do poder”. Além da competente direção do Sidney Lumet você verá a sempre magistral interpretação de Gene Hackeman como Buckley, o mestre e Richard Gere como o discípulo Pete e ainda Denzel Washington e Julie Christie. Uma curiosidade: você vai ouvir à beça a famosa “Canção da Índia” de Korsakov e Rimsky que foi ouvida no Brasil há mais de 30 anos em disco de Henry Jeromy e sua orquestra. Para relaxar, Gere coloca fones de ouvido e batuca, com baquetas, nos seus livros, a famosa música. Para professores de Marketing é um achado. Experimentem...

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 00h39
[ ] [ envie esta mensagem ]


SOBRE MUSAS

De acordo com o Michaelis, Musa é “suposta divindade ou gênio que inspira poesia; faculdade de fazer versos; tudo o que pode inspirar um poeta”. A lenda grega diz que quando os deuses do Olímpo tiveram vitória sobre os filhos de Urano, os titãs, eles pediram a Zeus que criasse divindades para cantar a vitória e perpetuar a glória dos Olímpicos. Zeus então copulou com Mnemósine, a deusa da memória, por nove noites consecutivas. Dessas relações, Mnemósine gerou nove filhas de uma vez em um lugar próximo ao monte Olimpo. Musa tem também um significado botânico: é o gênero das musáceas, ervas perenes, fortes, vivamente coloridas, com frutos carnosos. Enfim, musa quer dizer algo de bom para se ver, se inspirar, admirar. Musas se constituem em wishful thinking de algum tipo de competência, beleza, liderança ou mesmo de desejo e paixão. As musas inspiram e se tornam heroínas, marcas e razões para lutas, persistências, força e até obstinação, quando já beira o descontrole. Musas surgem nos momentos importantes da vida das pessoas e nos movimentos emblemáticos da sociedade. A sociedade brasileira já teve várias delas. A Fafá de Belém foi a Musa das Diretas, à época das “Diretas Já” e que resultou na eleição e morte de Tancredo Neves nos anos 80. Os maldosos de plantão diziam que se Fafá subisse num palanque o candidato poderia ficar feliz se apenas perdesse a eleição e ainda ficasse vivo. Mas ela empolgava as multidões com seus peitões de fora cantando, a todo peito, o hino nacional, coisa difícil na ditadura e hoje banalizada em qualquer formatura brega de faculdade particular. E Rita Camata. Ah, Rita! Quem tinha tesão por ela era um meu compadre estadunidense que dizia: “ele é um mulher linda e compotente”. Camata tratava das questões dos menores, da prostituição infantil e da defesa da mulher. Sabrina Sato, argh, coxuda às tantas, é brega e foi escolhida musa dos motoboys. Faz todo sentido... Heloisa Helena foi também uma musa, no Senado Federal. Sempre de calça jeans, camiseta branca, rabo de cavalo e óculos, ela surpreendeu aquela Casa de Leis quando apareceu “vestida de mulher” e mostrando um belo par de pernas. Ela justificou: tinha vindo direto de um casamento. Foi uma semana de fotos nos jornais e até uma montagem dela para a capa da Play Boy. Achei fora de propósito seu choro quando o Senado teve que sabatinar o candidato à presidência do Banco Central Henrique Meirelles. Ela chorou porque Meirelles “representava o sistema financeiro neoliberal”. Mas Musa mesmo foi (continua sendo) Catherine Deneuve. Musa do cinema francês, musa da alta costura e alta joelheria, ela sempre inspirou Yves Saint Laurent. Como outras famosas e lindas (Bardot e Jane Fonda) ela foi mulher de Roger Vadin, o diretor. Para mim Musa é alguém diferente, que se sobressai mesmo que no seu recato. Musa é coisa que vem de dentro. De repente a gente olha e poing é uma Musa. Não importa o alcance (uma vez que se trata de uma divindade), não importam as possibilidades, dane-se a realidade. É uma Musa e pronto. Em minha vida aconteceram algumas. Que me lembre a primeira foi a Hortência, uma vizinha da casa da frente, quando eu tinha uns sete ou oito anos e ela uns dezessete ou dezoito. Vá lá, fui um pouco precoce. Mas Hortência tinha outras irmãs: Maria, Sônia e Tereza. Nenhuma delas feia. Mas Hortência era morena e tinha olhos verdes. Os cabelos ondulados eram pretos. Quando saiam as irmãs, juntas, para ir ao cinema ou ao footing, uma ia limpando os cabelos das costas da outra com um leve passar de mão. Ah, inveja. Era a Hortência, e fosse loura e de olhos claros seria a minha Musa do mesmo jeito. Ela me lembrava as atrizes do cinema da época e pronto. Entre dez e onze anos a professora Clara, de francês, foi outra Musa. Clarinha na pele, como anunciava o seu nome, ela tinha cabelos muito pretos e cortados no tipo Chanell. Sua voz era doce e suas mãos grandes e delicadas. Nunca consegui ver seus pés, mas adorava a atenção que ela me dava e de como pronunciava macio: le cheval est le seul animal que nous ... Na vida adulta, a poesia das Musas misturou-se ao pragmatismo e no fast track das abordagens. Romances viraram casamentos, deram grandes alegrias, filhos, muitas frustrações e desenganos, mas, sobretudo, felicidade. Porque assim é a vida. Agora, na maturidade, solteiro, vivo a volta das Musas. E sinto-me bem assim. Prefiro minha Musa na minha visão herege do que os querubins que as substituíram na visão cristã. Os querubins foram representados pelos pintores Da Vince e Boticelli, como jovens de cabelos compridos de cor loura, avermelhada ou castanho clara, de olhos geralmente azuis e com traços andróginos, providos de asas eriçadas ou em repouso e predominavam nas telas como a representação daqueles seres seráficos que privavam com o mundo divino e o humano. Querubim é boiolagem das grandes e cheira pedofilia. Musa é vontade de ver, o prazer de estar e a curiosidade da distância. Musa não é flerte. Milan Kundera, que fez sucesso com o seu “A insustentável leveza do ser” diz em seu texto: “o que é flerte? Pode-se dizer que é um comportamento que deve dar a entender que uma aproximação sexual é possível sem que essa eventualidade possa ser entendida como uma certeza. Em outras palavras, flerte é uma promessa, mas uma promessa sem garantia” Uma Musa não é promessa e nem certeza de nada. Apenas nos faz bem, reanima nosso diálogo conosco mesmo, nos faz interessados e mexe com o amor, o que quer que isso possa significar. Ter uma Musa é perceber que se está vivo. Das Musas aqui lembradas, três diziam de perto do desejo de acertar a vida política nacional, uma outra mantinha a imagem do que foi um dia o cinema francês e aqueloutra roliça, faz a festa dos sofridos motoboys que a namoram nos outdoor nas ruas ou nos calendários dos banheiros. Todos percebem que estão vivos.

Uma Musa me faz sentir-me vivo. Uma Musa que tem inteligência e humor é mais do que Musa. É um sinal vital no fundo d´alma.

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 12h49
[ ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]
 
Meu perfil


BRASIL, Sudeste, Homem, de 56 a 65 anos, Portuguese, English
Outro -



Meu humor



Histórico
28/06/2009 a 04/07/2009
14/06/2009 a 20/06/2009
26/04/2009 a 02/05/2009
08/03/2009 a 14/03/2009
08/02/2009 a 14/02/2009
01/02/2009 a 07/02/2009
11/01/2009 a 17/01/2009
04/01/2009 a 10/01/2009
28/12/2008 a 03/01/2009
21/12/2008 a 27/12/2008
14/12/2008 a 20/12/2008
16/11/2008 a 22/11/2008
09/11/2008 a 15/11/2008
05/10/2008 a 11/10/2008
21/09/2008 a 27/09/2008
07/09/2008 a 13/09/2008
31/08/2008 a 06/09/2008
10/08/2008 a 16/08/2008
06/07/2008 a 12/07/2008
29/06/2008 a 05/07/2008
22/06/2008 a 28/06/2008
08/06/2008 a 14/06/2008
11/11/2007 a 17/11/2007
07/10/2007 a 13/10/2007
23/09/2007 a 29/09/2007
09/09/2007 a 15/09/2007
19/08/2007 a 25/08/2007
05/08/2007 a 11/08/2007
29/07/2007 a 04/08/2007
22/07/2007 a 28/07/2007
08/07/2007 a 14/07/2007
24/06/2007 a 30/06/2007
10/06/2007 a 16/06/2007
03/06/2007 a 09/06/2007
27/05/2007 a 02/06/2007
20/05/2007 a 26/05/2007
13/05/2007 a 19/05/2007
29/04/2007 a 05/05/2007
22/04/2007 a 28/04/2007
15/04/2007 a 21/04/2007
25/03/2007 a 31/03/2007
11/03/2007 a 17/03/2007
04/03/2007 a 10/03/2007
28/01/2007 a 03/02/2007
21/01/2007 a 27/01/2007
14/01/2007 a 20/01/2007
07/01/2007 a 13/01/2007
24/12/2006 a 30/12/2006
10/12/2006 a 16/12/2006
03/12/2006 a 09/12/2006
26/11/2006 a 02/12/2006
19/11/2006 a 25/11/2006
12/11/2006 a 18/11/2006
05/11/2006 a 11/11/2006
29/10/2006 a 04/11/2006
15/10/2006 a 21/10/2006
08/10/2006 a 14/10/2006
24/09/2006 a 30/09/2006
17/09/2006 a 23/09/2006
10/09/2006 a 16/09/2006
03/09/2006 a 09/09/2006
27/08/2006 a 02/09/2006
20/08/2006 a 26/08/2006
13/08/2006 a 19/08/2006
06/08/2006 a 12/08/2006
30/07/2006 a 05/08/2006
23/07/2006 a 29/07/2006
16/07/2006 a 22/07/2006
02/07/2006 a 08/07/2006
25/06/2006 a 01/07/2006
18/06/2006 a 24/06/2006
11/06/2006 a 17/06/2006
04/06/2006 a 10/06/2006
28/05/2006 a 03/06/2006
21/05/2006 a 27/05/2006
14/05/2006 a 20/05/2006
07/05/2006 a 13/05/2006
30/04/2006 a 06/05/2006
23/04/2006 a 29/04/2006
16/04/2006 a 22/04/2006
09/04/2006 a 15/04/2006
02/04/2006 a 08/04/2006
26/03/2006 a 01/04/2006
19/03/2006 a 25/03/2006
12/03/2006 a 18/03/2006
05/03/2006 a 11/03/2006
26/02/2006 a 04/03/2006
19/02/2006 a 25/02/2006
12/02/2006 a 18/02/2006
05/02/2006 a 11/02/2006
29/01/2006 a 04/02/2006




Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis
 Consultoria em hotelaria
 The Culinary Institute of America
 The Hocking College
 Madia Mundo Marketing
 Hospitality Organization
 Le Monde
 New York Times
 Hotelaria Senac de São Paulo
 Cornell University Hotel Business School
 Castelli Escola de Hotelaria
 The academy of Montion Picture Arts and Sciences
 Turista Acidental o BLOG
 American Management Association
 American Marketing Association
 Bill Marriott´s Blog