Blog do J Ruy Veloso


O Tempo 2

 

 

 

 

O Tempo 2

 

O envelhecer tem diferentes faces.

 Algumas delas não trazem para os humanos grandes alegrias no seu cotidiano.

 Um amigo me disse um dia que as novidades que a velhice nos traz são mais medicamentos, bengalas, fisioterapia etc.

 Nem tanto.

 O envelhecer nos aguça a libido, lato sensu.

 Ficamos mais observadores, mais sensíveis. Para tudo.

 A observação aguda nos faz sofrer com as certezas da experiência. Tendemos saber quando algo vai dar errado, debalde nossos esforços para colocá-lo nos trilhos. A sensibilidade nos faz melhores observadores de tudo. Observamos a beleza das mulheres maduras. Podemos sentir, ou imaginar, como foram e ainda do que serão capazes para tudo na vida. Sabemos de antemão das fraquezas das mulheres jovens, como são e do que serão capazes para tudo na vida. Mas, pior, sentimos e sabemos de antemão aquilo que familiares e amigos sentem e por quais caminhos se embrenham sem que nossas palavras possam dissuadi-los de suas decisões. Sentimos de antemão as misérias da política com base em nossa memória e tristemente vemos gerações equivocadas em suas intensões.

 Mas não há nada mais fascinante no envelhecer do que resgatar antigas relações, pessoas de nossa infância, adolescência ou de um momento específico de nossas vidas. É bom rever, ouvir e falar com pessoas que tenham tido algum significado para nós em alguma Era da Inocência de nossas vidas.

Nada mais fascinante do que reencontrar os amigos daqueles tempos, hoje realizados, pais, avós, ricos, simples aposentados, mas sempre os velhos amigos. É fascinante constatar que continuamos os mesmos, agora mais caricatos. Que aquele amigo continua falando mais do que todos nós, que o outro racionaliza sempre e que outros viveram vidas que caberiam numa obra de Vargas Llosa ou Doris Lessing.

 Fascinante.

 O envelhecer nos aguça a libido, lato sensu.

 Na vida profissional nem sempre a velhice é bem acolhida. A experiência sênior há de ser muito específica e com sucessos muito bem demarcados para que alguém na idade mais avançada seja valorizado. É do ciclo da vida.

 Mesmo assim ainda é prazeroso quando vemos que nossas ações ou nossas teses, de anos, estão hoje se consolidando. É um prazer meio solitário. Mas com o qual nos sentimos bem.

 O tempo, em nossa maturidade, apenas nos ensina que podemos compartir o muito de nossas experiências e ainda aprender. Temos muito que aprender. Por que sempre é tempo.

 É o uruguaio Mário Benedetti quem nos ensina:

 "De eso se trata, de coincidir con gente que te haga ver cosas que tú no ves. Que te ensiñen a mirar con otros ojos."

 Sejam Felizes!



 




Escrito por José Ruy Veloso Campos às 12h32
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O TEMPO

Foram três anos sem publicar neste Blog.

Longe de ter perdido a vontade de escrever, ocorreu que a forma de fazer chegar os escritos a possíveis leitores ficou mais ágil, prática, dinâmica e fugaz, nas redes sociais.

Sim, o uso das redes, em até cento e quarenta caracteres ou em espaços maiores deixou-me preguiçoso para escrever nos Blogs. Sim, Blogs, porque tenho mais de um. O outro é focado em temas de marketing, hospitalidade e turismo, áreas nas quais atuei em minha vida profissional.

Você pode ver o outro também: http://hospitalytour.blogspot.com.br/

Além dessas publicações, escrevo mensalmente para uma revista eletrônica voltada para a hotelaria: http://www.hoteliernews.com.br/artigos

Bom, não é que os três anos tenham sido uma sopa francesa. Entre bons momentos, muitos períodos que fizeram diminuir o gosto pelo escrever.

Mas é deverasmente temporário.

Escrever é terapêutico. Nos piores momentos se nos vêm estranhas e inspiradas ideias para o escrever. E escrevendo, parece, vão-se as perturbações e voltam os bons momentos da vida, da querência.

Nesse intervalo outro Blog surgiu.

Um Blog de micro contos.

Minha receita de micro contos está focada no leitor da segunda década do século vinte e um. Um leitor que tem pressa, que não fala mais ao telefone, simplesmente escreve telegraficamente até para dar pêsames.

Posto os micro contos nas redes sociais.

E vejam só, curiosamente, as pessoas desprezam o conteúdo quando posto apenas o link do Blog com o título do conto. Ah, elas não tem tempo de clicar para abrir outra página.

Então recorro à estratégia de postar o conto na íntegra, copiando do Blog e colando na linha do tempo. Então sim. Uma maioria lê. Alguns curtem, comentam. Mas sem essa de ter que abrir a página do Blog.

Escrever micro contos é minha porção Balzac.

E as redes sociais, os folhetins do século vinte e um.

O leitor de Balzac tinha pressa. E Balzac escrevia por episódios para os folhetins. Com o tempo foi dando sequencia as novelas e publicando os livros com alguma sequência dos personagens, apresentando-os em aparições rápidas ou pequenas entradas coadjuvantes.

Meus micro contos não podem passar de 470 caracteres. Foi um teto que estabeleci visando dar ao leitor a oportunidade de criar, ele mesmo, o antes e o depois das histórias.

Sim, você pode visita-lo também: http://microcontosdojruy.tumblr.com/

O tempo.

O tempo que passou me fez envelhecer, adoecer, enamorar, me cuidar.

Mas é o tempo.

Quem pode com ele?

E antes que o tempo se acabe ainda pretendo voltar a escrever neste espaço.

Os escritos não terão temática especial, mas provavelmente estarão focados no passado e no futuro.

Sim. O passado é raiz e referência. E de boas lembranças, uma vez que as más, eu apago.

E o futuro, qualquer que seja no tempo, é grande, esperançoso e belo.

Sempre belo.

Voltarei em breve.

Sejam felizes.



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 15h32
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Impunidade & Cia

A prisão dos criminosos do Mensalão trouxe para a sociedade brasileira um alento no que diz respeito à impunidade de gente graúda. Claro, por graúda entenda-se aqui a classe política que no Brasil, raras exceções, vêm se locupletando desde os tempos do império sob uma aceitação meio fatalista da nação, do tipo “ruim com eles, pior sem eles”. Esse, aliás, é o discurso dos lulopetistas após as manifestações nas ruas em junho de 2013 quando houve um claro repúdio aos partidos políticos: “sem política é ditadura”.

Não é uma verdade absoluta vez que o que as massas repudiam é o modelo político “que está aí”, perpetuando-se no poder e fazendo do Estado o seu banco e a sua casa de veraneio, enquanto políticas populistas garantem votos nas regiões menos esclarecidas e mais pobres.

Não há dúvida de que os mensaleiros merecem a punição que parece até branda pela arrogância da ação e o que ela embutiu. Sim, a arrogância pelo endosso que o esquema do Mensalão representou às palavras de seu líder máximo há mais de década sobre o Congresso Nacional: “Um bando de picaretas”. Sob tal raciocínio, o mentor do esquema entendeu que era mais fácil “dar ração àquela corja” do que trabalhar articulações políticas reais. Se são uns picaretas, nada como jogar algum dinheiro e conseguir deles a adesão cega aos seus propósitos. Assim foi feito. Mas o grau de insensatez foi tamanho que andou ferindo brios e gerou a denúncia.

Os que se tornam poderosos pela política e têm enriquecimento fácil têm menor noção de seu espectro de poder. Basta lembrar o assédio do grande líder do partido no poder a um dos ministros do STF tentando postergar o julgamento dos réus do Mensalão. Eles perdem aquele fio mínimo de conduta como o respeito, também mínimo, às instituições. Claro, o ministro abordado (que gravou a conversa, dizem) saiu ofendido da reunião e botou a boca no trombone. Eles não têm limites...

No campo da política, o conceito de ética passa longe.

Para os filósofos gregos do século VI a.C., a ética trata do comportamento do homem, da relação entre a sua vontade e a obrigação de seguir uma norma, do bem e do mal, do que é justo e injusto, da liberdade e da necessidade de respeitar o próximo.

Pelas reações dos políticos no poder executivo nesse ano de 2013, a Justiça é boa quando é para os outros. Quando é para eles, trata-se de golpismo, perseguição e inconformismo “das elites”. Eles se esquecem de que as elites são eles. Assim, através de movimentos de violência ocultados nos mascarados que quebram tudo nas passeatas, o governo conseguiu afastar das ruas os manifestantes pacíficos. E contra as decisões da Justiça aos criminosos do seu partido, fazem vigília dizendo que eles são “presos políticos”.

É uma triste constatação para quem um dia viu o partido dito “dos trabalhadores” como uma esperança de mudança no cenário político do país. Eles parecem piores porque, além de juntar-se aos coronéis corruptos e eternos políticos, tentam ainda forjar um socialismo latino com base no populismo que, através do voto, os manterá – ditadores - no poder por muito tempo. E enriquecendo individualmente a companheirada.

Mas quero voltar à Justiça e às prisões decretadas.

Como afirmei acima, a prisão dos primeiros políticos de expressão é um alento para a sociedade. Mas está longe de trazer para ela a sensação de segurança e de que a Justiça funciona para todos.

Nos tempos atuais, mais precisamente depois da Constituinte de 1988, nem para os menos validos a Justiça funciona.

É comum ler nos jornais ou ver na TV autoridades dizendo que é preciso soltar o criminoso (qualquer que seja o crime) porque a lei assim manda. E em seguida o depoimento e o sofrimento atroz     daqueles que perderam seus entes queridos atropelados ou assassinados friamente.

Há meses vi na TV um caso curioso. Câmeras de segurança mostraram quando um homem desceu da garupa de uma moto num ponto de ônibus e ali, na frente de duas dezenas de pessoas que aguardavam o transporte, atirou várias vezes numa mulher que caiu morta na hora. Calmamente ele voltou a montar na moto e sumiu. Corta para o repórter e delegado na delegacia onde o criminoso se apresentou dois dias depois. Disse o delegado que não ia deter o homem porque ele tinha emprego, residência fixa e se apresentou espontaneamente...

Como explicar isso para aquelas duas dezenas que presenciaram crime tão cruel e covarde? E para a família? E para nós todos?

E assim são milhares de casos.

Procrastinar, fazer chicanas e gastar com advogados empurrando a punição até a prescrição do crime parece normal diante de fatos como esse.

Como prender um corrupto se os menores de idade matam com a naturalidade de chupar um picolé e seguem livres para reincidir? Como prender um corrupto se o sujeito matou o próprio pai e sua madrasta, foi condenado a vinte e oito anos de cadeia e saiu pela porta da frente do tribunal? E o jornalista que matou, pelas costas e na frente de testemunhas, a ex-namorada e ficou por dez anos “recorrendo” da sentença sem ser preso?

Não que o crime de corrupção seja menor. Os corruptos matam também. Matam pacientes do SUS por falta de recursos, matam passageiros nas estradas mal conservadas, matam vítimas de ladrões por pouco policiamento, matam de fome por baixa geração de empregos. Matam. São assassinos.

A questão é que ninguém quer mudar a lei. Sobretudo aquela da maioridade penal. O ECA, Estatuto da Criança e do Adolescente, é uma aberração. A marginalidade entendeu a sua segurança com base no ECA e se vale disso. Há anos que as quadrilhas passaram a usar menores de idade para a frente de suas ações. Com isso, no caso de frustração do crime, os maiores de idade terão penas mais brandas e os menores passarão por curto período de “ressocialização”.

Quanto às possibilidades infinitas de recursos jurídicos, dizem alguns entendidos, a OAB é a primeira a defendê-las porque se trata de suas possibilidades de ganhar mais dinheiro. Parece-me muito linear e extremamente cruel e medíocre para os que estudam as ciências jurídicas.

Ano passado, numa reunião de família conheci um jovem texano da área de TI. Lá pelas tantas o assunto era a lei. Quando expliquei sobre o jornalista que matou a namorada e estava em liberdade, mesmo condenado, o sujeito ficou quieto e refletindo.

Depois disse simplesmente: Bem, no meu Estado ele estaria, no mínimo, no Corredor da Morte esperando por sua injeção letal. Só a sensação que isso provoca seria o suficiente para gerar nele, por exemplo, um câncer.

 

Desisti de explicar sobre Paulo Maluf...

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 09h56
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O tempo que não foi

Não é raro que na perda de alguém que amam, as pessoas se vejam tomadas por um sentimento misto de frustração e culpa. Sob a dor da perda elas avaliam que não deram o suficiente de si para aquele que se foi. Ah, poderiam ter convivido mais ou criticado menos. Ah, aquela viagem que não fizeram juntos ou o dinheiro que não emprestou ao outro...

Claro que podemos sempre sentir algo assim. Somos mortais, afinal.

Entre amigos e familiares são comuns as discussões e desentendimentos. Podemos ficar magoados ou gerar no outro, mágoas. Às vezes nos afastamos. E nesses momentos, os dos desentendimentos, não pensamos no outro (ou em nós mesmos) como figura central de um velório. Então, se isso ocorre e o outro nos é caro, certamente vamos enfrentar culpas e frustrações. Mas nada que, racionalizado depois da tormenta, não seja superado.

 

Mas nem sempre precisamos da morte para sentir tais sensações. Fatos históricos e pessoas públicas, por exemplo, despertam em mim uma sensação de vazio quando penso que não existe a possibilidade de, pelo menos, mandar-lhe um email e comentar sobre uma frase que seja que tenha ficado registrada na história.

Pamuk, Kundera, Machado, D.H. Lawrence, Proust, Llosa, Amado, Marquez, Mann, Balzac, Eco, Allen, Altman, Peckinpah, Coppola, Truffaut, Meirelles, Ford, De Sica, Fellini e quantos mais eu poderia escrever em muitas folhas...

Sim, são nomes que me trazem emoções e recordações. Alguns vivos, outros não. Como nos filmes de Woody Allen, gostaria de poder entrar numa roda do tempo e interagir com os autores que já se foram, dos livros ou do cinema.

Sim, eu gostaria de ter perguntado algumas poucas coisas a JK, o político. E não perguntei o suficiente ao Comandante Rolim, de quem sigo sendo tiete. Muitas vezes no avião, via lá na frente a careca de Ulisses Guimaraes. Tinha vontade de perguntar ou de simplesmente dizer. Mas, claro, seria absolutamente inconveniente. Por sorte hoje viajo quase nada. Não sei se me seguraria encontrando num espaço tão exíguo como um avião, um deputado desses, padrão mensalão.

Recentemente tive dois mea culpa com origem no Reino Unido. Uma delas foi a partida da Winehouse. Confesso que a ignorava e quando via aquelas imagens na mídia até evitava ler as notícias. Afinal ela tinha idade para ser minha filha e era uma abusada. Mas com o sucesso post mortem passei a ouvir melhor suas canções e prestar atenção àquela voz que parecia irmã do Elvis, mas muito mais próxima do Harlem. Por que não a ouvi antes?

A outra diz respeito a um grupo de irmãos irlandeses igualmente cantores e músicos, ainda que nem de longe possam ser comparados a Winehouse.

Quatro irmãos, três lindas moças e um rapaz, irlandeses e católicos com nomes duplos, batizados, fazendo trabalhos filantrópicos, em nada lembram a talentosa “branca de voz negra” e sua vida mundana.

Mas os filhos da família Corr impressionam bem. Todos são muito hábeis em diferentes instrumentos. Jim, o varão da família ataca de guitarra e baixo. Sharon mais velha das moças, além do vocal, faz o violino, presente em todos os arranjos do grupo. Caroline, a segunda, faz o piano, a bateria e a percussão com o bodhran (um instrumento de percussão que lembra um pandeiro, mas sem argolas e com som mais seco) e Andrea a terceira, canta, toca flauta e compõe boa parte das canções.

Lá por 2004 eu ouvia desinteressadamente um CD do grupo que apareceu em casa. E gostava do som de tradicional música irlandesa à base do violino, flauta e percussão com o bodhran.

Casualmente, ano passado, uma amiga mandou-me o grupo interpretando The Longing and Winding Road. E outra indicou o mesmo grupo em apresentação com Bono Vox. A partir de então vi vários concertos deles, o The Corrs.

Não, a música não é o que mais impressiona. Gosto mesmo é da beleza e simpatia deles. A alegria da moça na percussão e no piano é um balsamo. A doçura da outra ao violino e as expressões de todos nas interpretações são cativantes.

Mas cheguei tarde. O grupo já se desfez.

Busquei na Web e soube que a baterista se casou e que as outras duas fazem algo em carreiras solo além de muito trabalho filantrópico, origem de seu aprendizado musical com a família católica.

Mas a tecnologia nos oferece vantagens Assim como posso ler Balzac (ah, quando li sua biografia fiquei fissurado para mandar-lhe uns e-mails. Em vão) ou James Joyce, posso assistir aos concertos de Winehouse ou do The Corrs. Mas não é o mesmo sabendo que seus talentos não estão mais em ebulição. A menina Amy não falará mais da morte em novas canções e as meninas Corrs não darão mais (juntas) alegrias com sua singeleza e beleza. Resta curtir as imagens.

Em verdade ando me perguntando se ao longo dessas décadas fiz pelos outros tudo o que poderia fazer sem muito esforço. E como um personagem de Mastroianni num filme italiano, às vezes me bate a mesma aflição que ele manifestava com essa fala:

“Como posso saber qual é o exato limite de ar que suporta o balão (bexiga) que eu encho com a boca? Se eu assoprar um pouquinho a mais ele estoura. Se parar agora ainda sobrará espaço para mais ar. Como saber o ponto exato, sem estourá-lo?”

E você que leu esse texto pode perguntar como se ligam tantos assuntos em poucos parágrafos. Ligam-se? 

 

Seja feliz!



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 11h05
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Cinema russo

   Loznitsa

A Rússia por Sergei Loznitsa

Gosto do cinema russo atual. Acho que ele guarda semelhança com o cinema brasileiro. E que a situação dos dois países parece ter muitos aspectos parecidos.

Na 35ª Mostra Internacional de Cinema no ano passado vi o filme de Andrey Stempkovsky, seu primeiro longa intitulado “Movimento reverso” (Obrantnoe Dvizhenie). Trata-se da crua história de uma mãe solitária que tem uma barraca de bebidas e salgados à beira da ferrovia, no melhor estilo Baixada Fluminense e cujo filho é dado como morto numa ação militar no exterior. Então, como a personagem de “Central do Brasil”, ela assume a guarda de um menino que tenta fugir da escravidão do crime organizado local. Quando já está afeiçoada ao menino, seu filho reaparece.

O que tem de importante naquele filme de Stempkovsky, além da relação muda, tosca e de muito afeto entre mãe e filho, é o pano de fundo da vida na Rússia pós Glasnost\ Perestroika e no reinado de Vladimir Putin: a miséria humana.

Nessa semana, na 36ª Mostra, vi outro jovem diretor russo: Sergei Loznitsa. Nascido em 1964, Loznitsa estudou engenharia e matemática na capital Ucraniana e só foi estudar cinema em 1991, graduando-se em 1997 em produção e direção.  Depois de muitos curtas com temas sociais, o jovem engenheiro\diretor estreou na ficção com “Minha Felicidade” (Schastye Moye) sobre o qual ele mesmo diz que: “mostra de maneira muito simples como está estruturada a nossa sociedade e de como ela está condenada a desaparecer”.  Essa afirmação certamente é muito forte para o tema e história do filme. Nessa ficção um motorista com uma carga de farinha de trigo no distante interior rural da Rússia desvia da estrada principal em razão de um acidente e acaba por se perder vivendo insólitas situações. A câmera de Loznitsa registra as pessoas daquele meio rural como muitos diretores brasileiros fizeram com caras nordestinas, nortistas, cariocas ou paulistas. Alguns planos me lembraram, por exemplo, “Os fuzis”, (1964) de Rui Guerra ou “Vidas Secas”(1963) de Nelson Pereira dos Santos. Mas para além dos planos e (de novo) situações de miséria humana, onde as pessoas se despem de escrúpulos e convivem com a corrupção instituída e o medo de um regime de governo que parece absolutamente sem lei, o jovem engenheiro que virou cineasta mostra uma Rússia pobre, longe de Moscou, refém das fardas e de seus desmandos. Putin é essa farda.

Vladimir Putin está no poder desde 1999 em sistema de revezamento. Foi eleito novamente em março de 2012 para mais quatro anos no poder e não esconde que pretende revezar com outros de seu partido ficando um período como primeiro ministro e outro como presidente. É outra mistura daquilo que o Brasil teve no regime militar (o revezamento de generais no poder) com o sistema eletivo de hoje (lula, Dilma & cia). Lá Putin também é eleito, como aqui, sob uma grande enxurrada de dinheiro na propaganda e aniquilação das oposições por cooptação. No caso de jornalistas opositores, Putin opta pelo simples envenenamento ou atropelamento. É outra semelhança com os prefeitos petistas que perderam a vida aqui no Brasil.

E é assim que ficamos conhecendo uma Rússia onde a vida é bem pior do que a dos brasileiros. Aqui, nas regiões mais distantes, uma velha sandália de dedos, uma bermuda e uma camiseta de propaganda servem para cobrir as partes pudendas do pobre e permite que ele arranque a mandioca que planta e vá fazer escambo à beira dos rios na região Norte.

 Já a paisagem branca do inverno russo é desoladora. E nos tempos atuais, nem galhos secos são encontrados para afastar o frio. A fome, em 2010, aperta o estomago e a autoestima daquela gente que é também refém das ditaduras pós-modernas: a ditadura pelo voto e pelas alianças com os sindicatos e o capital. Eles sempre se entendem. Em prejuízo do povo.



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 23h58
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Meio século depois, sem Duília

 A Musa  

 

No mundo atual, de vida on line, de fotos instantâneas postadas para o mundo e de relações rápidas, frágeis ou inconsequentes, não é fácil explicar para um adolescente como é possível guardar na memória a imagem de uma menina por meio século, tendo-a como uma referência de beleza e poesia ao longo do tempo, não importa como a vida tenha caminhado. Não, o adolescente não entenderá. Pior, não se interessará por uma conversa tão distante de seu mundo rápido, de soluções rápidas, sintetizadas, superficiais.

No mundo atual, dizer ao adolescente que uma canção dos Beatles mexe com o emocional da gente desde os anos sessenta vai parecer-lhe algo estranho, senão piegas. Beatles? Ora...

Curiosamente foi graças a esse mundo de rapidez e amizades virtuais que reencontrei, em pessoa, ao vivo, a musa de minha adolescência. Sim, encontrei.

Em dezembro de 2011 escrevi neste blog (A Duília de Araçatuba) sobre sua figura e da dificuldade de identificá-la uma vez que não tinha dela nem o nome completo. Musas são assim, distantes, cheias de interrogação.

Mas a encontrei.

Nos anos sessenta, quando se iniciava minha adolescência, vivíamos, numa provinciana cidade a mais de quinhentos quilômetros de São Paulo, uma vida de inocência mesclada de muitos preconceitos e boas intenções ideológicas. Ainda adolescentes tínhamos uma visão do mundo político e social que nos cercava, ainda que vivêssemos numa região conservadora, focada no setor primário, como o resto do país, ainda rural e iniciando a sua era industrial.

Éramos virgens em nossa essência, como virgens deviam se casar as meninas. Namoro era algo “limpo”, limitado, como nos filmes de uma Hollywood moralista que começava a sair do macarthismo. Para os rapazes, o “alívio” para o sexo tinha que acontecer na zona, com as mulheres da vida, preservando assim “a pureza” daquelas meninas filhas de pecuaristas, de professores ou de funcionários públicos. Assim era na cidade que tinha pouco mais de cinquenta anos.

Foi uma época na qual eu me dividia entre o que queria fazer (teatro, cinema e estudar sociologia) e o que fazia de fato (gerenciar a propriedade rural da família), como muitos que conheci naquele tempo. Mas conseguia estabelecer um meio termo, recebendo sempre a crítica dos mais velhos, o que não incluía minha mãe que, ao contrário, me estimulava a conhecer o novo.

Foi nesse ambiente que conheci aquela musa. Não estudávamos na mesma escola. Eu a via de longe, linda e com um sorriso desconcertante. Seu andar era avassalador: decidido, porém leve e sedutor. Seus olhos ligeiramente amendoados eram esverdeados para cinza e sua pele morena ajudava a realçar um belo nariz vigiado pelos olhos atentos. Eu tinha certeza de que ela era uma figura poderosa. Mas era uma menina de minha idade provavelmente, o que a excluía das possibilidades de abordagem. Meninas de treze anos gostavam dos meninos de dezesseis ou dezoito anos. Eu estava fora daquele páreo. Mas isso não a fazia menos linda.

E a imagem ficou.

Na vida, muito falei e pouco escrevi sobre musas. No meu imaginário, porém, aquela menina diferente da Araçatuba pré 1964 esteve sempre presente. Era apaixonante lembrá-la.

A última grande tentativa de saber quem de fato era (foi) aquela beleza deu-se em 2010 quando, por boas razões afetivas, resgatei um pouco a cidade natal presencialmente. Mas as pessoas não sabiam dessa minha lembrança.

Mas eis que em 2012, do nada, uma amiga daqueles tempos citou o prenome mágico que eu procurava. Congelei a conversa no ato: “Diga-me, era uma menina linda, de olhos amendoados, morena, aquela boca carnuda e olhos cinza mel?” Bingo! Era ela. E então a amiga me deu o nome completo e de quebra contou sobre a sua admiração pela então colega de ginásio. Uma alegria! Na mesma noite numa busca no Google a encontrei na primeira linha, com seus títulos acadêmicos, seu trabalho e pasmem, seu telefone. Tudo ali a um clique de distância. Como poderia achá-la não fosse a Web?

Então, assim facilmente, liguei e me expliquei. Não foi algo tão fácil, convenhamos. Do nada, surgir um sujeito dizendo que há meio século era um admirador, é algo entre o cinematográfico e o bizarro. Ah, mas inteligente e cartesiana, a musa soube conduzir o processo e finalmente a conheci, apertei sua mão e dei-lhe um abraço. Parece pouco. Mas foi muito.

Não, não é romance ou paixão.

Trata-se de uma curiosidade de poder mexer com o nosso imaginário. É algo Woodyallenano, do tipo entrar no filme através da tela. Pois assim foi.

Fiquei feliz e curti a emoção dessa realização.

E eu estava certo quanto ao seu andar (que se mantém): ela se deu bem. É firme, proativa vencedora, independente, sabe o que quer e, sobretudo, tem um eclético bom gosto musical.

E a musa estava lá, viva, bela e madura.

Mas deixou de ser musa no momento em que a vi de perto, que a abracei.

Agora conheço a mulher, não mais a menina distante.

E diferente do desfecho de “Viagem aos seios de Duília”, a mulher, madura, é muito, muito melhor do que a musa menina.

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 10h45
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Cena do cotidiano

Pamela Anderson

Cotidiano: Numa padaria dessas chiques, eu a estou vendo bem agora. São 17:30. Ela entrou assombrando: alta, cabelos desfiados forçadamente loiros, o rosto bronzeado como as demais partes visíveis, não esconde as esticadas já sofridas. A traição maior está sob o queixo. Uma camiseta branca extremamente justa mostra os braços sarados e os seios arredondados e rijos no melhor estilo Pamela Anderson. O jeans, também justíssimo, deixa perceber coxas bem torneadas e permite visualizar uma ponta de tatoo à direita do sacro-ilíaco. Os sapatos em tom marrom couro de cobra têm saltos altos e uma fivela, mas a posição dos pés deixa a mostra um traiçoeiro band aid no calcanhar esquerdo. As mãos são grandes e bonitas. Têm veias salientes e unhas bem feitas com uma cor meio vinho. O relógio me lembra os anos 60: larga pulseira de couro vigiando os anéis em ouro, provavelmente.

Ela tem tudo em cima, pelo menos aparentemente. E deve ter meio século mais doze  por cento disso. Sentou-se soberana numa mesa e deu ordens à garçonete. Depois pegou seu Iphone e ficou se distraindo para não olhar o ambiente. Isso durou cerca de dez minutos. Então chegaram duas pré-adolescentes festivas: Vó! E ela recebeu agrados. Não foi possível perceber se os retribuiu. Uma terceira figura se junta à mesa. Cabelos com reflexos, é mais frágil e fina do que a primeira. Mas pode ser sua filha. Conversam animadas. A loira de meio século tem trejeitos de jogar os cabelos para trás e passar a mão neles com frequência. A menor das meninas a olha com interesse e um certo sorriso pregado no rosto. Seus olhos escaneam a avó e voltam-se para os olhos da mulher madura. A outra neta pega na corrente, que eu não registrei, e examina a medalha no pescoço da avó. A mais nova gesticula e sorri. A senhora loira destoa da mais nova que se veste discretamente. É curioso. Parece mesmo uma inversão de papéis. Mas não é. Isso é mesmo um retrato cotidiano dessa sociedade da pós-modernidade onde os avós estão longe de ser aqueles de cabelos brancos e cadeira de balanço. As pessoas vivem mais e melhor. E podem bem aproveitar sua longevidade.

Mas a personagem dessa cena do cotidiano pode ter exagerado um pouco. Ela pode ser tão ou mais poderosa quanto quer parecer sem recorrer a esse look tão juvenil.

Algumas mulheres desconhecem seu potencial.



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 18h22
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John Lennon e os jovens de 2012

      Scheinfeld

  Na semana que passou assisti ao documentário The US X John Lenon. Trata-se de um documentário produzido em 2006 com a direção de David Leaf e John Scheinfeld,. Não é uma obra qualquer. John Scheinfeld, que pesquisou, escreveu o roteiro e dirigiu o documentário, tem um currículo respeitável em produções sobre artistas e música em geral. O mesmo se dá com David Leaf. Ambos têm Ammy e Grammy em seus históricos e sabem como ninguém mapear a vida de famosos transformando-as em filmes.

O documentário sobre John Lennon vai além.

Trata-se de uma obra política que ao ser feita em 2006 já nos fazia pensar sobre a alienação que rondava as massas jovens ao redor do mundo. Mas depois de 2008 o filme ganha outro significado, outra leitura.

O documentário mostra o John Lennon que inicia um ativismo político contra a guerra e se estabelece nos EUA após a união com Yoko Ono. Os depoimentos de Lennon são emocionantes em conteúdo. Ele era claro. Dizia ter percebido que sua figura era midiática e que o que quer que fizesse chamava a atenção das pessoas. Então, por que não usar minha figura para pregar a paz, para lutar por ela? Dizia que tinha que aproveitar sua fácil exposição para fazer os outros pensarem e se mobilizarem contra a guerra. E foi o que fez.

O documentário mostra ex-combatentes no Vietnã e ex-agentes do FBI. Todos falam do “fazer aquilo sem saber exatamente porque”. Os ex-FBI sabiam que Hoover perseguia Lennon e que não gostava de suas manifestações contra o Estado. Hoover censurava a imprensa e perseguia aqueles que eram contra “a luta pela democracia”. E Lennon, para o FBI, era um subversivo. Entre os depoentes do documentário estão Ron Kovic, que é homem biografado no filme “Nascido em 4 de julho” e Angela Davis, que era ativista do movimento Panteras Negras.

Para fechar o tema do documentário, há que se registrar as cenas em que, na cama e rodeados por jornalistas, o casal canta Give Peace a Chance e depois Imagine e Revolution.

O fato é que nas décadas da contra cultura, 60 e 70 do século XX, havia muita coisa concreta contra as quais a juventude se manifestava. Era o establishment mundial naquele momento suprimindo liberdades contras as quais se insurgiam as massas jovens. Os países comunistas não permitiam a manifestação de opinião, a América Latina era formada por ditaduras brutais, o capitalismo europeu ocidental era poderoso e aliado dos americanos e a África começava a brigar por sua independência em vários países. Era também o momento da pílula anticoncepcional, do Woodstock e da televisão entrando quase em tempo real no mundo. Era o momento da “Aldeia Global” de Marshall McLuhan. Embora rolasse muita erva e muito LSD, o jovem urbano, estudante e centrado, tinha visão da importância de “enxergar os problemas do mundo”. Em 2012 isso parece distante.

Os jovens que têm se manifestado nesse período são aqueles oprimidos em suas próprias casas. São os filhos de africanos no Norte na França que saíram queimando carros em protesto contra a falta de emprego e de assistência social. Os de origem árabe no Reino Unido e na Alemanha que reclamam dos mesmos problemas que os seus iguais em França.

Em 2011, depois da grande quebradeira dos bancos e empresas em 2008, os jovens e desempregados estadunidenses tentaram fazer o movimento “Ocupem a Wall Street”. Em vão. A mesma polícia dos anos 1970 estava lá para desalojá-los e a imprensa pouca cobertura deu ao evento. E não se trata de um movimento de rebeldes sem causa. São milhões de desempregados no país mais poderoso do mundo. Por que a juventude não sai às ruas em protesto contra essa situação?

Sim, na Europa, em especial na Grécia, na Espanha e em Portugal eles têm ido às ruas. Protestaram e não elegeram os mesmos governantes. Mas isso tudo não parece mudar muito os cenários. Os russos, quem diria, foram às ruas contra a política de rotatividade de Putin e seus corruptos. Mas o movimento parece um fogo de álcool. E no Brasil, quando o assunto é corrupção e roubo, a juventude escreve algumas bobagens com palavrões nas redes sociais e fica nisso. Os mais céticos duvidam da imprensa.

Por que a juventude do ano 2000 parece estar acéfala? Não existem razões para que ela se movimente em protestos? Ou falta um mote para que os protestos sejam pensados? Ou, ainda, esses protestos eram fruto de uma bem engendrada campanha das imprensas para levar o jovem às ruas?

Não é uma leitura fácil.

As opressões em 2012 são sutis. É a pressão do Capital em espécie, traduzido em maus serviços prestados por empresas privadas sob o olhar complacente do Estado. Os governos, em especial os latino americanos, são descaradamente corruptos e cínicos. Lula, Chaves e Cristina, são um retrato dessa roubalheira populista. Mas quanto isso, de fato, incomoda a juventude? Melhor dizendo, o quanto essa juventude está informada sobre isso?

Bem, nas escolas, públicas ou privadas, enquanto damos aulas, estudantes ficam atentos aos seus tablets ou note books, não necessariamente para anotar o que falamos. Teoricamente eles vêem quase tudo em tempo real, têm informação sobre tudo. E então? Por que seguem apáticos?

Talvez não estejam apáticos. Pode ser que haja movimentos surdos nas redes sociais denunciando “tudo isso que está aí”. Pode ser que hoje não precisemos de um John Lennon para dizer o que devemos fazer ou contra o que protestar. Pode ser.

Mas por enquanto, sigo pensando que Lennon estava certo. E as letras de suas músicas eram bem mais consistentes do que as bobagens que gritam os roqueiros de hoje.           



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 22h13
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Trem de Veneza

                           

 

 

As viagens ferroviárias sempre povoaram o imaginário dos escritores e muito mais, de seus leitores. O trem a vapor foi uma revolução no transporte coletivo, de pessoas, animais e mercadorias. Foi também um instrumento militar, superado depois pelos veículos automotores e pelos aviões. As viagens mais longas nos trens geram cumplicidade entre os passageiros de um mesmo carro, muito mais do que nos aviões e nos ônibus. Os trens, dos mais luxuosos aos mais pobres, permitem maior trânsito, mais flexibilidade e algum exercício para os seus passageiros.

Foi nessa perspectiva que Frank Serpico, setenta e oito anos, morador na Suíça, utilizou o trem para conhecer Veneza e agora voltava rumo a Milano, embarcando naquele confortável e rápido comboio que vinha de Trieste rumo ao Oeste. Acomodou sua grande sacola de tecido no bagageiro e sentou-se à janela, procurando o folheto de instruções para ouvir música, assistir ao filme ou usar a Internet.

No mesmo vagão, Tadzio subiu os degraus rapidamente dando a mão para que Aschenbach fizesse o mesmo. Aschenbach, com seus 80 anos já não era lépido como à época em que se conheceram em Veneza. Tadzio reclamava alto para seu companheiro enquanto arrumava as malas no bagageiro, dois bancos à frente de Serpico, e dizia que aquele carro estava separado do carro restaurante por três outros carros. Aschenbach respondeu em voz baixa que a comida do restaurante era trash food e que ele trazia bons sanduíches italianos.

Sem que os demais percebessem uma moça de beleza exótica deslizou rapidamente e sentou-se na poltrona ao lado de Serpico. Depois se levantou e acomodou sua mochila no bagageiro, tendo o cuidado de retirar antes, o seu Ipad. Ela vinha de uma viagem longa pela via férrea: desde Zagreb, na Croácia, e tinha como destino Milano.

Serpico pediu licença e pegou sua sacola tirando dela um livro. Sua vizinha de banco observou a capa: Death in Venice.

Um grupo de umas oito senhoras, estadunidenses provavelmente, acabou por ocupar o fundo daquele vagão com muito ruído e risadas. Reclamavam alto que o ar condicionado estava ligado apenas na ventilação e que aquele começo de primavera já demandava  um pouco de ar frio.  Serpico comentou, em inglês, com sua vizinha que as senhoras entravam com muita carga térmica resultante de sua ansiedade e que em pouco tempo reclamariam do frio se a temperatura fosse mais baixa. A moça sorriu e concordou sem afastar os olhos do Ipad.

A moça vizinha de Serpico ouviu Aschenbach resmungar em alemão para Tadzio, que tinha saudades dos vagões com cabines separadas e que esses trens modernos mais se parecem com aviões mais confortáveis. É muita mistura e pouca privacidade, completou.

Ouviu-se um sinal na estação. O trem ia partir.

Então adentrou ao carro aquele sujeito alto e elegante, ainda jovem nos seus 43 anos, vestido em tom caqui entre calças, camisa e blazer estilo safári. Olhou para o banco na frente de Aschenbach, jogou sua mochila no bagageiro e deixou cair um livro cuja capa o olhar rápido do velho Aschenbach captou no ato: Millennium

Quando o trem começou o movimento, um homem que subia as escadas daquele vagão gritou algo em espanhol. O sujeito elegante que ainda não se acomodara no assento correu para a porta em socorro do homem. Era um idoso de barbas brancas e roupas também caqui que carregava nos ombros sua sacola de viagem. O sujeito elegante o trouxe até o seu banco amparando-o para evitar uma queda com o movimento inicial do trem. O homem, que falava alto e com a voz rouca, em espanhol, agradeceu e perguntou pelo nome do homem elegante. Com um leve sotaque anglo saxão o tal elegante respondeu que se chamava Ripley, Tom Ripley. O idoso agradeceu de novo e deu-lhe a mão em cumprimento dizendo chamar-se A. Buendia.

Serpico tirou do bolso um pacote de chicletes e ofereceu à sua vizinha de cadeira. Ela agradeceu. Ele puxou conversa dizendo que o vizinho alemão estava certo porque esse tipo de vagão não oferece privacidade. A moça olhou-o com firmeza, correu os olhos pelo seu corpo, o que para ele foi um pouco constrangedor, e respondeu que as cabines fechadas eram piores porque a invasão de privacidade era ainda mais próxima. Ele concordou e estendeu-lhe a mão, identificando-se como Frank Serpico. Ela o olhou novamente, fixou o olhar em sua mão e finalmente a apertou dizendo que era a senhorita Salander, Lisbeth Salander.  O velho Serpico sentiu-se melhor com a reação da vizinha e retornou perguntando se ela era suíça. A moça respondeu que não. Era sueca.

Então ouviram boas risadas do senhor A Buendia. Ele e o senhor Ripley, parecia, iam se dar bem naquela viagem.

Com as janelas grandes de vidro e persianas abertas a paisagem da periferia de Veneza foi ficando rapidamente para trás. Fosse ao tempo de trens com janelas abertas poderiam despedir-se do cheiro da maresia veneziana que era forte naquele cair da noite.

A viagem estava começando.

 

 

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 14h44
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LEITURAS:A tragédia do circo

Livro sobre o Circo    Livro do Hélio

Helio Higuchi é aquele amigo com quem a gente não se cansa de conversar. Lido e viajado, Hélio é um arquiteto que virou hoteleiro e está nessa estrada há mais de trinta anos. Além de crítico de serviços de hospitalidade, ele tem como hobby veículos militares, armas e aviões. Não para colecionar, mas para conhecer e escrever a respeito. Seu livro sobre  M4 Sherman, um carro de combate, é conhecido por quem entende do assunto. Para saber sobre o uso de armamentos e veículos importados dos EUA e da Europa, Hélio já andou um bocado pela América Latina, entrevistando militares reformados e na ativa. O Exército Brasileiro operou 83 exemplares do M4 Sherman, que começaram a chegar ao Brasil em meados de 1945 e entraram em serviço pelo 1º Batalhão de Carros de Combate, no Rio de Janeiro. Durante a sua trajetória, fatos pitorescos fundem-se com a própria história do país. Em diversas ocasiões os blindados foram empregados para conter possíveis manifestações populares e reações de outras alas políticas durante a Revolução de 1964 e, posteriormente, auxiliar para reprimir protestos contra o governo militar. Não resisti a postar no Blog o comentário que ele me enviou sobre recente leitura. Façam bom proveito!

Professor J Ruy, olha só a última obra que acabo de ler:

"O Espetáculo Mais Triste da Terra" do jornalista Mauro Ventura (Cia das Letras, 2011)  que versa sobre a maior catástrofe ocorrida no Brasil: o incêndio do Gran Circo Norte Americano em Niterói- RJ, em 1961, que matou nada menos que 500 pessoas! ( o incêndio do edifício Joelma vitimou perto de 200 pessoas)

Lembro-me desta catástrofe, apesar de ter na época apenas 6 anos. Meus pais várias vezes falaram sobre o caso que, segundo eles, teve momentos de desespero tal como elefantes pisoteando espectadores, feras soltas na cidade de Niterói, tudo isto causado por um incendiário.
O livro, quase inteiro, é composto de depoimentos de pessoas que sobreviveram ao incêndio, e/ou trabalhavam no circo.

Os depoimentos dos sobreviventes, que na sua grande maioria tem seqüelas até hoje, têm lances verdadeiramente emocionantes.
É o caso do sobrevivente apelidado de “Luis Churrasquinho” (um apelido obvio), que é o mais impactante: Após o incêndio, pela massa de vítimas, foram transportados de caminhão (as ambulâncias não davam conta) todos juntos: mortos, moribundos e machucados.
Chegando ao hospital, fizeram uma triagem, levando os mortos e os em coma para o necrotério( teve vitima que acordou no necrotério),e os que tinham maior chance de sobreviver foram tratados primeiros, e os mais graves para quando desse.

Quando os médicos terminaram de tratar a ultima vítima com chances de sobreviver trabalhando por horas a fio, foram ao refeitório para refazer as energias, e estavam conversando sobre os procedimentos, quando adentra o recinto uma senhora de 50 anos e pergunta se já que terminaram de tratar os que tinham chances de sobreviver, poderiam agora dedicar aos moribundos, pois seu filho era um deles. O filho dela era o Luis que depois de sobreviver por um tratamento que durou anos e virou Luis Churrasquinho.

Tem também os políticos e profissionais que aproveitaram da situação para aparecer. Um deles já famoso  à época, o Cirurgião plástico Ivo Pitanguy, que apesar de ter apenas 35 anos de idade, já tinha uma equipe que trabalhava para ele. Ele mesmo só ia para o hospital de Niterói uma vez por semana, para dar entrevistas enquanto a sua equipe de médicos trabalhava diuturnamente.
Ele já era muito rico, numa época em que, para ir do Rio para Niterói, só usando as barcas (a ponte Rio Niterói foi inaugurada em 1974), e os automóveis de ferry-boat, ele pegava seu Porsche e ia até o Iate Clube no Botafogo onde embarcava em sua lancha rumo a Niterói.

Recomendo o livro, mas como sou um chato, e sei distinguir um trabalho de jornalista e de pesquisador, percebi alguns erros, um deles grosseiro, logo no primeiro capítulo: o incêndio ocorreu no meio de um espetáculo numa tarde de domingo de calor escaldante, com uma platéia de três mil espectadores. Segundo o autor quem primeiro viu as chamas foi a trapezista. A música executada pela banda naquele momento era o “Tema de Lara" do filme Doutor Givago.  Detalhe: o filme é de 1964, ou seja, entrou em cartaz três anos depois da tragédia.
Alguns jornalistas são assim, sequer se preocupam em checar dados ainda que seja numa Wikipédia. E tem gente que idolatra jornalistas. Conheço pelo menos dois deles com os quais fiquei decepcionado: Fernando Morais em "Corações Sujos" e Domingos Meirelles em "A noite das Grandes Fogueiras"  
Quero acrescentar também que as vitimas não acionaram judicialmente o circo, pois a grande maioria até hoje pensa que por causa do nome "Gran Circo Norte-americano", tratava-se de um circo de procedência estadunidense, e sendo assim muito difícil de acionar.
O circo era brasileiro, os descendentes do proprietário trabalham no ramo circense até hoje.
É curioso também o caso da elefanta que no meio do incêndio saiu em disparada pisoteando quem estava a sua frente, abrindo um rombo na lona que possibilitou a fuga de inúmeras pessoas. A elefanta que virou heroína e vive até hoje...

Um abraço

Hélio



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 14h52
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A Duília de Araçatuba?

Melato Podesta lollô

No conto “Viagem aos seios de Duília”, de Aníbal Machado, publicado em 1959, o aposentado José Maria, solitário, volta à sua terra natal no interior das Minas Gerais na tentativa de encontrar Duília, a adolescente que ele amou quando menino e de quem viu rapidamente os seios numa completa heresia para os costumes da época. Não li o livro. Apenas vi o filme, ainda em P&B, em 1965, estrelado por Mário Lago e dirigido por Carlos Hugo Christensen. Achei triste. O aposentado, acomodado com a vida, empreende viagem de trem para a sua cidade natal pensando na menina de seus sonhos. Quando, depois de muito perguntar, bate à porta da casa da um dia amada, quem lhe abre a porta é exatamente a menina de seus sonhos. Quando pergunta por Duília a menina grita: Vó, é com a senhora! E então Duília aparece, gorda, de bigodes e nem de longe aquela menina da aparição rápida. José Maria volta para casa e vai viver sua solidão. Analistas literários tratam essa busca por amores da adolescência ou pela casa materna como uma tentativa de “volta ao ninho”, e comum tanto na literatura como na vida das pessoas.

Mas eu não tive Duília em Araçatuba ou qualquer outra parte do mundo. Melhor, tive uma  curiosidade, ainda insepulta.

Não consigo me lembrar do tempo exato em que via aquela musa. É provável que fosse entre 1963 e 1967. Ou em tempos depois disso, quando eu já estava casado. Era uma musa apenas.

Acredito que não morava na cidade. Aparecia sempre nas férias. Ficava hospedada por ali, perto da Praça Getúlio Vargas, perto de todos, enfim. Era morena dourada do sol, alta, magra, sempre de sandálias, com os pés absolutamente simétricos e delicados. Tinha os cabelos com mechas, acredito. Ou desbotados. Os olhos eram esverdeados e a boca, grande, costumava se abrir num sorriso generoso recheado de dentes brancos semi-encobertos por lábios perfeitos. E o nariz?  Ah, o nariz. Era fino e longo, vigiado pelos olhos levemente puxados. Uma mistura de Melina Mercuri com Mariangela Melato, Lollobrigida e Rosana Podestá. Haja, não?

No meu período de resgate de minha terra natal perguntei por essa musa do passado. Curiosidade. Quem seria ela que poderia chamar-se Rosangela ou nome parecido? Dos mais informados da época, nada apurei. Fico com aquela imagem sorridente de um andar meio arrastado, quase indolente, mas seguro do seu destino. Ela deve ter se dado bem.

A infância e a adolescência nos trazem sempre repentinas e passageiras paixões ou nos prendem a atenção para musas inexplicáveis. Tive muitas na minha terra natal.

Na Escola Tupi, na Araçatuba de 1954, todos os meninos tinham a Gilda Fenelon como musa da sala. No começo dos anos 1960, na piscina do Araçatuba Clube ou na porta do cine São Francisco a musa era a Sueli Nocera, com aquela cara de atriz italiana e sempre extremamente elegante. Quando a adolescência avançava a musa que passava em frente ao Nenê Sorvetes era a Sônia Duval Valcimardi, que mereceu neste Blog uma homenagem que passou pelo Robert Duval, o ator de quem sou tiete. Citar nomes pode ser um complicador. Mas essas referências, além de elogiosas, marcam uma época de absoluta inocência.

De uma coisa de há muito fui convencido: minha terra natal era pródiga em meninas bonitas.

E eu sempre tive facilidade para encontrar musas. Já registrei aqui também minha paixão por Hortência, quando eu tinha apenas uns sete ou oito anos. Era uma mulher de seus dezoito anos, por aí, e minha vizinha de frente. Era bela, morena, olhos verdes e cabelos negros ondulados: uma beleza cigana. Era real e soube dela também no meu resgate da cidade: falei com uma das suas irmãs e ex-vizinha. Hortência vive até hoje numa cidade próxima de Araçatuba.

E essa “musa Duília”, por que falo dela?

Porque a tal da rede social, embora às vezes canse, traz muitas imagens e recordações e, dizia a canção, recordar é viver...

E hoje é aniversário da cidade, lá na Araçatuba. Nos anos 1960, nas manhãs do dia 02 de dezembro, quando espocavam rojões, tocava a banda e gritavam as sirenes, o pai da menina dizia: acorda, é seu aniversário, olha a bagunça que fazem...



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 17h28
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Medos

     

Quando o assunto é medo, se ouve de tudo.

Quando criança, alguns têm medo de palhaços, outros de cachorros e muitos têm medo de defuntos. Esses últimos quando crescem, se arrepiam só de pensar em ter que ir a um velório. E têm dificuldade até no velório da própria mãe. Eu tive sorte. Tive um só medo e ele acabou logo.

Tive medo numa fase entre os dez e onze anos. Um pouco do chamado “terror noturno”, quando a criança pode ter medo de ficar sozinha no escuro. A causa do meu terror, acredito, foi eu ter ficado de sentinela ao lado do corpo de um colega do Colégio Salesiano Dom Henrique Mourão, na cidade de Lins. O menino, que não era do meu convívio, morreu afogado numa represa da fazenda da família. Teria comido melancia passada e tido uma congestão dentro d água, disseram. De qualquer forma, os padres colocaram meninos em turnos de duas horas para ficar ao lado do caixão. Éramos seis de cada vez. Três de cada lado. E era impossível não olhar para o jovem defunto que, acreditem, foi azulando com o passar das horas. Ou pelo menos eu o enxergava assim. No momento, o programa foi melhor do que ficar na rotina do colégio. Só depois, quando em férias, lá em Araçatuba, é que a imagem do menino me veio à cabeça. A crise deve ter durado uns dez dias ou mais. Eu acordava à noite com pesadelos e chamava por minhas irmãs. Tinha medo.

Convenhamos, a pedagogia salesiana foi meio macabra considerando que eu tinha dez anos de idade...

Fora isso, nunca tive medos estranhos. Temo os vivos. Principalmente os vivaldinos.

Mas, nos últimos dias, um medo se me tem assaltado. É o medo dos quatro por quatro. Explico. Estou com medo desses veículos grandões, quase sempre pretos e com os vidros cobertos com aqueles adesivos que não nos permitem ver quem este dentro. Estou com medo.

Claro, não se pode generalizar. Mas também não se pode ver lá dentro para saber se é o mesmo (a mesma) motorista que me aterrorizou no dia anterior. Quem vai saber?

Claro, de novo, pode ser uma baita duma coincidência. O trânsito paulistano é carregado e tem muita gente doida, ainda que a grande maioria respeite as regras do bem dirigir. Mas eles aparecem do nada. E me agridem.  Foram várias ocorrências em poucos dias, sempre com esses veículos metidos a troncudos, sarados, pneus robustos e muita petulância. Não vou enumerar, mas fui fechado na rua com alguma violência repetidas vezes por esses bichos. Andando a pé no estacionamento de um shopping quase fui atropelado por esse personagem spielbergniano. Senti-me o próprio David Mann, que no primeiro sucesso de Spielberg, era perseguido por um caminhão preto em “O encurralado” ( Duel, 1971). Eu deixara meu carro numa vaga e caminhava rumo à porta de acesso ao shopping quando o bicho avançou com velocidade numa curva da garagem. Tive que pular. Ele seguiu. Eu fui atrás. O veículo entrou numa vaga para idosos e ficou lá, inerte. Esperei. As portas se abriram e desceram, a motorista, uma senhora de cabelos tingidos cor gema de ovo de codorna, uns cinqüenta e poucos anos presumidos, bonitona, e duas adolescentes. Esperei um pouco. Ninguém mais. Nenhum idoso. E elas seguiram, passando por mim como se fora eu um cone daqueles do trânsito.

Dia desses eu descia pela Avenida Cidade Jardim, num lugar de trânsito intenso e faixa exclusiva de ônibus. Um aperto. Pois um desses veículos, preto, tal como descrevi, sai voando de um posto de gasolina e embica de vez na rua, sem a menor consideração com quem já está na faixa de rolamento. E foi entrando, assim, depressa e aos pulos, fechando o carro que estava à minha frente. No impulso (errei, admito) colei no carro da frente para evitar que ele, se não conseguisse furar o outro, furasse na minha vez. O bicho estancou nas suas freadas aos socos, buzinou e então (trilha com tema de “Psicose”) o vidro se abriu e apareceu um rosto feminino, branco, cabelo preto despenteado com uma piranha, provavelmente, segurando os fios lisos no alto da cabeça: Comprou a rua? Ela perguntou olhando para mim. Baixei o meu vidro e respondi: Você é meio espaçosa, hein amiguinha? Ela não vacilou: Seu velho de merda! E arrancou sobre a calçada entrando na ruazinha que esquinava com o posto. Fiquei chocado. Por que ela não me chamou de filho da puta, corno ou qualquer desses palavrões mais formais? Não. Chamou-me “velho de merda”.  Senti-me lesado. No dia anterior, meninas de vinte e poucos anos haviam me bajulado, dizendo que sou charmoso e que não pareço a idade que tenho. Claro, não se dá crédito a isso senão pela atenção e algum afeto que nos querem passar. Mas, mesmo assim, nunca haviam de chamado de velho. E muito menos como xingamento. Quem poderia ser essa insensata criatura senão a condutora desses bichos pretos agressivos sobre quatro rodas?

Não me esqueci do xingamento. Foi uma agressão gratuita. Como as demais que esses carrões e seus primos nos fazem no trânsito. Um parente daquele que quase me pegou no shopping fez um strike com dois garis em plena Marginal do Tietê, mandando-os para o além. Mais inverossímil, impossível. Mas assim tem sido. Eu tenho medo.



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 18h51
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A Classe média sob pressão

                                        

Dia  desses um promotor público de São Paulo ganhou manchetes por investir contra cidadãos que entraram com pedido de liminar contra a instalação de um albergue para pessoas sem teto perto de suas casas. O promotor os chamou de “higienistas” e os comparou aos partidários de Hitler na Alemanha dos anos 30/40 do século 20. Os cidadãos que foram em busca de seus supostos direitos viram o tiro sair pela culatra e hoje têm que se defender.

Já para os que invadem prédios vazios, instituições de pesquisas, pedágios, propriedades rurais produtivas, bancos e instalações de ministérios, para esses, a leniência do Estado é total. Sim, são pessoas que, supostamente, participam de “movimentos sociais” que, na verdade, apenas buscam manter esses movimentos em busca de recursos públicos que enriquecem seus líderes e os mantém a sombra do poder de nossa república sindicalista. Mas não só eles são favorecidos pelo descaso do poder público. Na semana que passou “estudantes” da USP, orientados pelos movimentos políticos dos funcionários administrativos daquela instituição, tomaram um prédio e se portam com a imprensa, pior do que os amotinados em presídios. Tudo para protestar contra o policiamento do campus feito pela Polícia Militar porque os oficiais tentaram deter alguns de seus pares que fumavam maconha no estacionamento. Contra esses, o Estado é lento e tolerante.

Mas o promotor que ganhou holofotes com o caso do albergue não está sozinho. Boa parte dos brasileiros pensa como ele quando se trata de alguma reação da classe média na luta por seus direitos. País de raízes escravocratas com governos corruptos e paternalistas, o Brasil foi de fato acordar para as questões sociais depois da ditadura de 1964/1985. Por conta de combater o modelo da ditadura, os políticos que assumiram o poder deixaram de lado questões sérias como a segurança e o enquadramento dos excessos dos chamados “movimentos sociais” que surgiram na esteira de movimentos sindicalistas e católicos. Para os novos governantes, desde os anos 1986 até hoje, a organização do aparato policial e a repressão à desordem e ao vandalismo é confundido com “repressão”. Como resultado, temos uma repressão às avessas: do crime organizado e dos movimentos sociais contra a sociedade.

Nessa perspectiva está também a negação dos direitos da classe média, como se essa não tivesse o direito de exercer o seu direito de reclamar uma vez que “é bem de vida”. Gente como esse promotor de Justiça se esquece de que é essa gente que mantém os cofres do Estado e que garante o funcionamento da máquina da qual os partidos políticos tomaram conta e roubam desbragadamente. A classe média tem o direito de não querer perto de suas casas um aparelho do Estado que venha a desvalorizar o seu imóvel por razões diversas. E o Estado tem o direito de instalar o que entende que deve instalar, desde que respeitando o direito do outro, sobretudo os vizinhos dessas instalações, seja uma delegacia de polícia ou uma estação de metrô. Mas a classe média tem esse direito e não pode ficar calada quando um promotor aparentemente exibicionista os compara a nazistas assassinos. Autoritários e de visão obscurantista são esses que, sob o manto de questões sociais, compactuam com ações ilegais, depredação e manutenção de “causas” que enriquecem poucos e mantém muitos iludidos com um partido político que está longe de se preocupar com a pobreza real do país.

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 00h46
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Educação

Andrés                                  Bolívar: milhões com o morto

Estou lendo um livro do jornalista argentino (que reside nos EUA há trinta anos) Andrés Oppenheimer, intitulado “Basta de histórias” (Objetiva, 2011). É uma leitura jornalística sobre o investimento em educação em diferentes países. Oppenheimer visitou a Índia, a China, Cingapura, Finlândia, Coréia e outras partes do mundo entrevistando os responsáveis pela educação nesses países com o objetivo de entender porque a América Latina tem tanta dificuldade no investimento e no desenvolvimento da educação. É instigante a leitura. Para começar o autor aborda a questão do “foco no passado” que predomina no populismo da América Latina. Ditadores como Chaves, Rafael Correa e o casal Kirchner, gastaram milhões de dólares exumando supostos restos de supostos heróis de suas terras e promoveram  o culto à memória, associando suas próprias imagens a daqueles heróis mortos. E a educação nesses países continua com baixos investimentos. Instigante o modus vivendi de famílias coreanas e chinesas que investem muito dinheiro na formação de seus filhos que estudam em média quatorze horas por dia. Instigante constatar que alguns países em desenvolvimento assumiram que seus jovens têm que aprender outro idioma (quase sempre o inglês) e estudar numa universidade reconhecida, para ter espaço num seleto mundo (por enquanto) de profissionais com boa formação e que formam os núcleos de pesquisa que têm impulsionado o mundo nas últimas décadas. Andrés Oppenheimer mostra a dificuldade que os países latino americanos  enfrentam com o viés ideológico de educadores em suas universidades públicas e nos ministérios da Educação, que não permitem o pleno exercício da educação, em seus países, por universidades estrangeiras. Os países latinos americanos são diferentes da China, de Israel e da Coréia onde selos como Harward, John Hopkins, Cornell, Yale ou Oxford funcionam com docentes de seus campi originais e docentes nativos daqueles países. Mas, o epicentro de toda a questão está mais embaixo do que a vinda das universidades para os países hermanos e Brasil. A questão está mesmo na educação de base. Muitos países trataram de fazer da carreira de professor uma oportunidade diferenciada. E começaram pela seleção deles. Selecionar os melhores (investir na meritocracia, portanto) e pagá-los bem foi a saída encontrada pelos países cujo PIB, há três décadas era quase um traço e hoje fazem inveja ao Brasil. Numa entrevista com Bill Gates o autor ouviu um dos bons raciocínios sobre a questão da educação e desenvolvimento dos países. Perguntado sobre o que poderiam fazer os países da AL para melhorar seus níveis educacionais, Gates respondeu: “A melhor maneira de começar é se sentir mal, com humildade”. E explicou: “ O melhor que podia acontecer aos Estados Unidos foi pensarmos que o Japão nos faria em pedacinhos (quando nos anos 1980 o Japão comprou várias empresas estadunidenses) “As pessoas diziam: ‘Meu Deus! Os japoneses têm um sistema educacional melhor, trabalham mais, pensam a longo prazo’. As grandes empresas norte americanas afirmavam: ‘Ui, os japoneses vão nos arrasar’. Foi isso o que levou os Estados Unidos a arregaçar as mangas, começar a trabalhar e criar o microprocessador, a internet, a Microsoft. A humildade  foi um fator que nos ajudou muito”, acrescentou Gates. Na Finlândia por exemplo, como na China comunista, nenhuma escola é gratuita. O estudantes vão pagar seus cursos depois de formados, como é no Brasil o FIES. O conceito de universidade pública gratuita não é bem visto por muitos países que vêem nisso uma ação patriarcal onde o estudante não dá o devido valor à educação. Leio e fico pensando no estrago material que estudantes e militantes ligados ao PT fazem na USP quando inventam uma greve...

Estou na metade do livro e posso sentir um misto de inveja e vergonha diante de cada um dos entrevistados pelo autor. Claro, nem tudo é tão cor de rosa. China, Singapura, Coréia, todos eles têm senões nos seus muitos métodos de ensino. Mas, uma coisa é certa: eles assumiram que seus países só poderiam decolar do atraso para uma melhor qualidade de vida, através da educação. E foram atrás disso. Do México à Patagônia, as universidades públicas vivem no isolamento, fugindo das empresas e de outras universidades. Já o anuário estatístico da China mostra que 1,3 milhão de universitários saíram para o exterior desde o início da abertura em 1978. Desse total, 400 mil retornaram à sua terra e estão no mercado de trabalho. Cingapura, que só ganhou sua independência da Inglaterra em 1963, é formado por um conjunto de ilhas que somam 710,2 Km2 (O bairro de Parelheiros, na cidade de São Paulo, tem 353,5 Km2), tem que importar água e terra de outros países e não tem nenhuma commodity para exportar, exportou em 2010 US$235 bilhões, contra US$200 bilhões do Brasil, US$103 bilhões da Venezuela, US$73 bilhões da Argentina e US$69 bilhões do Chile.  Ainda temos uma longa jornada pela frente na questão da educação. E não me parece que será sob a bandeira dessa  ditadura sindicalista hoje aboletada no poder que vamos ver o nosso desenvolvimento com seriedade. Basta lembrar que a primeira medida que o hoje ministro da Defesa  tomou quando assumiu o Itamaraty no primeiro mandato do PT, foi abolir a exigência do idioma inglês para o ingresso de pessoas nos quadros do serviço diplomático. Questionado, o seu segundo na hierarquia defendeu-se, dizendo que a exigência era elitista e impedia o ingresso de pessoas com boa qualificação naquele órgão. Preciso dizer mais?



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 18h27
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Lembranças de Araçatuba

cedrinhosSimca Chambord

Poucos vão se lembrar do nome Guerino Nucci. Por sua figura, ele poderia ser um ator coadjuvante na Los Angeles atual. Tinha charme para isso. Era careca como o Telly Savalas e vestia sempre roupas brancas de linho. Quando circulava a pé pelas ruas quentes da cidade, usava um chapéu do tipo Panamá. Seu carro, um Simca Chambord (sempre do ano) estava sempre brilhando. Celibatário, era gentil e risonho. A geração da década de 1960 o conheceu como o “Nenê Sorvetes”. Esse era o nome de sua sorveteria que tinha, à época, uma localização estratégica no universo jovem de classe média local: ficava próxima às três principais escolas secundárias (o que hoje chamam de ensino fundamental e médio) da cidade e das duas pracinhas onde essa juventude flanava, namorava e matava aulas. Nessas praças o cheiro dos cedrinhos, podados com esmero em arcos sobre as ruelas calçadas em petit pavet, parecia aliviar um pouco o calor sufocante nas noites sem nenhuma brisa, no alto verão. Aliados deles, os cedrinhos, eram os coqueiros anão cujo cheiro amargo também rescendia nas noites fazendo um contraponto com o doce azedinho dos sorvetes de limão saídos da velha máquina da sorveteria do Nenê. As cadeiras de madeira da sorveteria eram charmosas e confortáveis. Tinham um design anatomicamente repousante com assento e encosto forrados com madeira arredondada, sempre na cor creme, e com os braços em verde musgo. A figura número dois da sorveteria era conhecida apenas como Baiano. Certamente, 93,9% dos jovens freqüentadores do estabelecimento envelheceram sem saber o nome de batismo daquela figura simpática, sempre de jaleco amarelo e um gorro branco na cabeça. Mas nem tudo era perfeito. Os vasos que ornamentavam a sorveteria, a maior parte contendo a espécie “Comigo ninguém pode”, não eram bem cuidados e sempre continham pontas de cigarros, papéis e palitos de picolés. Localizada numa esquina, a sorveteria tinha, na quadra que fazia frente para a praça batizada de Getúlio Vargas, uma vizinhança conhecida na cidade e era algo como morar, hoje, de frente para a Praça Buenos Aires ou na Vilaboim, em São Paulo. O movimento das praças, e da sorveteria, obedecia à lógica escolar: demanda alta de segunda à sexta, com muita gente conversando, crianças correndo e alguns namorando, todos consumindo sorvetes, a única forma de enfrentar o calor sufocante do local. Nos finais de semana, os bancos de cimento daquelas praças (que mesmo a noite permaneciam quentes, reflexo do sol bravo do dia) serviam de ninho para o inocente namoro daqueles casais semi virgens. E o cenário era diferente, sem o alarido dos estudantes. A grama dos canteiros era bonita, cortada, adubada, bem cuidada enfim. Com o cheiro dos cedrinhos e dos coqueiros, eu atravessei duas fases importantes de minhas recordações: dos oito aos doze e dos doze aos dezessete. Ali conheci e convivi com jovens dos quais me fiz amigo, de outros que sempre foram conhecidos, outros com os quais apenas conversava e com meninas com as quais tive rápidos namoros, com outras com as quais sonhei e jamais falei e com outras com quem troquei muitas confidências e alguns toques de mão e lábios, ingênuos, absolutamente inocentes. Nos bancos daquelas praças ou nas confortáveis cadeiras da sorveteria, vimos desfilar jovens e belas pernas, inesquecíveis derrièrres, e também jovens professoras que permeavam as fantasias adolescentes daquela juventude. No oco de algumas árvores, escondíamos maços de Hollywood ou Luiz XV, aqueles cigarros sem filtro, mas ainda sem tantas drogas como os atuais. No espaço de nossas mentes jovens não havia lugar para se imaginar como seria aquilo tudo, nós incluídos, meio século depois. Na viagem para o futuro, as redes sociais começam a unir o impensável. Resta saber se o cheiro do cedrinho e dos coqueiros resistiu ao tempo.



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 01h36
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