Blog do J Ruy Veloso


Trem de Veneza

                           

 

 

As viagens ferroviárias sempre povoaram o imaginário dos escritores e muito mais, de seus leitores. O trem a vapor foi uma revolução no transporte coletivo, de pessoas, animais e mercadorias. Foi também um instrumento militar, superado depois pelos veículos automotores e pelos aviões. As viagens mais longas nos trens geram cumplicidade entre os passageiros de um mesmo carro, muito mais do que nos aviões e nos ônibus. Os trens, dos mais luxuosos aos mais pobres, permitem maior trânsito, mais flexibilidade e algum exercício para os seus passageiros.

Foi nessa perspectiva que Frank Serpico, setenta e oito anos, morador na Suíça, utilizou o trem para conhecer Veneza e agora voltava rumo a Milano, embarcando naquele confortável e rápido comboio que vinha de Trieste rumo ao Oeste. Acomodou sua grande sacola de tecido no bagageiro e sentou-se à janela, procurando o folheto de instruções para ouvir música, assistir ao filme ou usar a Internet.

No mesmo vagão, Tadzio subiu os degraus rapidamente dando a mão para que Aschenbach fizesse o mesmo. Aschenbach, com seus 80 anos já não era lépido como à época em que se conheceram em Veneza. Tadzio reclamava alto para seu companheiro enquanto arrumava as malas no bagageiro, dois bancos à frente de Serpico, e dizia que aquele carro estava separado do carro restaurante por três outros carros. Aschenbach respondeu em voz baixa que a comida do restaurante era trash food e que ele trazia bons sanduíches italianos.

Sem que os demais percebessem uma moça de beleza exótica deslizou rapidamente e sentou-se na poltrona ao lado de Serpico. Depois se levantou e acomodou sua mochila no bagageiro, tendo o cuidado de retirar antes, o seu Ipad. Ela vinha de uma viagem longa pela via férrea: desde Zagreb, na Croácia, e tinha como destino Milano.

Serpico pediu licença e pegou sua sacola tirando dela um livro. Sua vizinha de banco observou a capa: Death in Venice.

Um grupo de umas oito senhoras, estadunidenses provavelmente, acabou por ocupar o fundo daquele vagão com muito ruído e risadas. Reclamavam alto que o ar condicionado estava ligado apenas na ventilação e que aquele começo de primavera já demandava  um pouco de ar frio.  Serpico comentou, em inglês, com sua vizinha que as senhoras entravam com muita carga térmica resultante de sua ansiedade e que em pouco tempo reclamariam do frio se a temperatura fosse mais baixa. A moça sorriu e concordou sem afastar os olhos do Ipad.

A moça vizinha de Serpico ouviu Aschenbach resmungar em alemão para Tadzio, que tinha saudades dos vagões com cabines separadas e que esses trens modernos mais se parecem com aviões mais confortáveis. É muita mistura e pouca privacidade, completou.

Ouviu-se um sinal na estação. O trem ia partir.

Então adentrou ao carro aquele sujeito alto e elegante, ainda jovem nos seus 43 anos, vestido em tom caqui entre calças, camisa e blazer estilo safári. Olhou para o banco na frente de Aschenbach, jogou sua mochila no bagageiro e deixou cair um livro cuja capa o olhar rápido do velho Aschenbach captou no ato: Millennium

Quando o trem começou o movimento, um homem que subia as escadas daquele vagão gritou algo em espanhol. O sujeito elegante que ainda não se acomodara no assento correu para a porta em socorro do homem. Era um idoso de barbas brancas e roupas também caqui que carregava nos ombros sua sacola de viagem. O sujeito elegante o trouxe até o seu banco amparando-o para evitar uma queda com o movimento inicial do trem. O homem, que falava alto e com a voz rouca, em espanhol, agradeceu e perguntou pelo nome do homem elegante. Com um leve sotaque anglo saxão o tal elegante respondeu que se chamava Ripley, Tom Ripley. O idoso agradeceu de novo e deu-lhe a mão em cumprimento dizendo chamar-se A. Buendia.

Serpico tirou do bolso um pacote de chicletes e ofereceu à sua vizinha de cadeira. Ela agradeceu. Ele puxou conversa dizendo que o vizinho alemão estava certo porque esse tipo de vagão não oferece privacidade. A moça olhou-o com firmeza, correu os olhos pelo seu corpo, o que para ele foi um pouco constrangedor, e respondeu que as cabines fechadas eram piores porque a invasão de privacidade era ainda mais próxima. Ele concordou e estendeu-lhe a mão, identificando-se como Frank Serpico. Ela o olhou novamente, fixou o olhar em sua mão e finalmente a apertou dizendo que era a senhorita Salander, Lisbeth Salander.  O velho Serpico sentiu-se melhor com a reação da vizinha e retornou perguntando se ela era suíça. A moça respondeu que não. Era sueca.

Então ouviram boas risadas do senhor A Buendia. Ele e o senhor Ripley, parecia, iam se dar bem naquela viagem.

Com as janelas grandes de vidro e persianas abertas a paisagem da periferia de Veneza foi ficando rapidamente para trás. Fosse ao tempo de trens com janelas abertas poderiam despedir-se do cheiro da maresia veneziana que era forte naquele cair da noite.

A viagem estava começando.

 

 

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 14h44
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LEITURAS:A tragédia do circo

Livro sobre o Circo    Livro do Hélio

Helio Higuchi é aquele amigo com quem a gente não se cansa de conversar. Lido e viajado, Hélio é um arquiteto que virou hoteleiro e está nessa estrada há mais de trinta anos. Além de crítico de serviços de hospitalidade, ele tem como hobby veículos militares, armas e aviões. Não para colecionar, mas para conhecer e escrever a respeito. Seu livro sobre  M4 Sherman, um carro de combate, é conhecido por quem entende do assunto. Para saber sobre o uso de armamentos e veículos importados dos EUA e da Europa, Hélio já andou um bocado pela América Latina, entrevistando militares reformados e na ativa. O Exército Brasileiro operou 83 exemplares do M4 Sherman, que começaram a chegar ao Brasil em meados de 1945 e entraram em serviço pelo 1º Batalhão de Carros de Combate, no Rio de Janeiro. Durante a sua trajetória, fatos pitorescos fundem-se com a própria história do país. Em diversas ocasiões os blindados foram empregados para conter possíveis manifestações populares e reações de outras alas políticas durante a Revolução de 1964 e, posteriormente, auxiliar para reprimir protestos contra o governo militar. Não resisti a postar no Blog o comentário que ele me enviou sobre recente leitura. Façam bom proveito!

Professor J Ruy, olha só a última obra que acabo de ler:

"O Espetáculo Mais Triste da Terra" do jornalista Mauro Ventura (Cia das Letras, 2011)  que versa sobre a maior catástrofe ocorrida no Brasil: o incêndio do Gran Circo Norte Americano em Niterói- RJ, em 1961, que matou nada menos que 500 pessoas! ( o incêndio do edifício Joelma vitimou perto de 200 pessoas)

Lembro-me desta catástrofe, apesar de ter na época apenas 6 anos. Meus pais várias vezes falaram sobre o caso que, segundo eles, teve momentos de desespero tal como elefantes pisoteando espectadores, feras soltas na cidade de Niterói, tudo isto causado por um incendiário.
O livro, quase inteiro, é composto de depoimentos de pessoas que sobreviveram ao incêndio, e/ou trabalhavam no circo.

Os depoimentos dos sobreviventes, que na sua grande maioria tem seqüelas até hoje, têm lances verdadeiramente emocionantes.
É o caso do sobrevivente apelidado de “Luis Churrasquinho” (um apelido obvio), que é o mais impactante: Após o incêndio, pela massa de vítimas, foram transportados de caminhão (as ambulâncias não davam conta) todos juntos: mortos, moribundos e machucados.
Chegando ao hospital, fizeram uma triagem, levando os mortos e os em coma para o necrotério( teve vitima que acordou no necrotério),e os que tinham maior chance de sobreviver foram tratados primeiros, e os mais graves para quando desse.

Quando os médicos terminaram de tratar a ultima vítima com chances de sobreviver trabalhando por horas a fio, foram ao refeitório para refazer as energias, e estavam conversando sobre os procedimentos, quando adentra o recinto uma senhora de 50 anos e pergunta se já que terminaram de tratar os que tinham chances de sobreviver, poderiam agora dedicar aos moribundos, pois seu filho era um deles. O filho dela era o Luis que depois de sobreviver por um tratamento que durou anos e virou Luis Churrasquinho.

Tem também os políticos e profissionais que aproveitaram da situação para aparecer. Um deles já famoso  à época, o Cirurgião plástico Ivo Pitanguy, que apesar de ter apenas 35 anos de idade, já tinha uma equipe que trabalhava para ele. Ele mesmo só ia para o hospital de Niterói uma vez por semana, para dar entrevistas enquanto a sua equipe de médicos trabalhava diuturnamente.
Ele já era muito rico, numa época em que, para ir do Rio para Niterói, só usando as barcas (a ponte Rio Niterói foi inaugurada em 1974), e os automóveis de ferry-boat, ele pegava seu Porsche e ia até o Iate Clube no Botafogo onde embarcava em sua lancha rumo a Niterói.

Recomendo o livro, mas como sou um chato, e sei distinguir um trabalho de jornalista e de pesquisador, percebi alguns erros, um deles grosseiro, logo no primeiro capítulo: o incêndio ocorreu no meio de um espetáculo numa tarde de domingo de calor escaldante, com uma platéia de três mil espectadores. Segundo o autor quem primeiro viu as chamas foi a trapezista. A música executada pela banda naquele momento era o “Tema de Lara" do filme Doutor Givago.  Detalhe: o filme é de 1964, ou seja, entrou em cartaz três anos depois da tragédia.
Alguns jornalistas são assim, sequer se preocupam em checar dados ainda que seja numa Wikipédia. E tem gente que idolatra jornalistas. Conheço pelo menos dois deles com os quais fiquei decepcionado: Fernando Morais em "Corações Sujos" e Domingos Meirelles em "A noite das Grandes Fogueiras"  
Quero acrescentar também que as vitimas não acionaram judicialmente o circo, pois a grande maioria até hoje pensa que por causa do nome "Gran Circo Norte-americano", tratava-se de um circo de procedência estadunidense, e sendo assim muito difícil de acionar.
O circo era brasileiro, os descendentes do proprietário trabalham no ramo circense até hoje.
É curioso também o caso da elefanta que no meio do incêndio saiu em disparada pisoteando quem estava a sua frente, abrindo um rombo na lona que possibilitou a fuga de inúmeras pessoas. A elefanta que virou heroína e vive até hoje...

Um abraço

Hélio



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 14h52
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A Duília de Araçatuba?

Melato Podesta lollô

No conto “Viagem aos seios de Duília”, de Aníbal Machado, publicado em 1959, o aposentado José Maria, solitário, volta à sua terra natal no interior das Minas Gerais na tentativa de encontrar Duília, a adolescente que ele amou quando menino e de quem viu rapidamente os seios numa completa heresia para os costumes da época. Não li o livro. Apenas vi o filme, ainda em P&B, em 1965, estrelado por Mário Lago e dirigido por Carlos Hugo Christensen. Achei triste. O aposentado, acomodado com a vida, empreende viagem de trem para a sua cidade natal pensando na menina de seus sonhos. Quando, depois de muito perguntar, bate à porta da casa da um dia amada, quem lhe abre a porta é exatamente a menina de seus sonhos. Quando pergunta por Duília a menina grita: Vó, é com a senhora! E então Duília aparece, gorda, de bigodes e nem de longe aquela menina da aparição rápida. José Maria volta para casa e vai viver sua solidão. Analistas literários tratam essa busca por amores da adolescência ou pela casa materna como uma tentativa de “volta ao ninho”, e comum tanto na literatura como na vida das pessoas.

Mas eu não tive Duília em Araçatuba ou qualquer outra parte do mundo. Melhor, tive uma  curiosidade, ainda insepulta.

Não consigo me lembrar do tempo exato em que via aquela musa. É provável que fosse entre 1963 e 1967. Ou em tempos depois disso, quando eu já estava casado. Era uma musa apenas.

Acredito que não morava na cidade. Aparecia sempre nas férias. Ficava hospedada por ali, perto da Praça Getúlio Vargas, perto de todos, enfim. Era morena dourada do sol, alta, magra, sempre de sandálias, com os pés absolutamente simétricos e delicados. Tinha os cabelos com mechas, acredito. Ou desbotados. Os olhos eram esverdeados e a boca, grande, costumava se abrir num sorriso generoso recheado de dentes brancos semi-encobertos por lábios perfeitos. E o nariz?  Ah, o nariz. Era fino e longo, vigiado pelos olhos levemente puxados. Uma mistura de Melina Mercuri com Mariangela Melato, Lollobrigida e Rosana Podestá. Haja, não?

No meu período de resgate de minha terra natal perguntei por essa musa do passado. Curiosidade. Quem seria ela que poderia chamar-se Rosangela ou nome parecido? Dos mais informados da época, nada apurei. Fico com aquela imagem sorridente de um andar meio arrastado, quase indolente, mas seguro do seu destino. Ela deve ter se dado bem.

A infância e a adolescência nos trazem sempre repentinas e passageiras paixões ou nos prendem a atenção para musas inexplicáveis. Tive muitas na minha terra natal.

Na Escola Tupi, na Araçatuba de 1954, todos os meninos tinham a Gilda Fenelon como musa da sala. No começo dos anos 1960, na piscina do Araçatuba Clube ou na porta do cine São Francisco a musa era a Sueli Nocera, com aquela cara de atriz italiana e sempre extremamente elegante. Quando a adolescência avançava a musa que passava em frente ao Nenê Sorvetes era a Sônia Duval Valcimardi, que mereceu neste Blog uma homenagem que passou pelo Robert Duval, o ator de quem sou tiete. Citar nomes pode ser um complicador. Mas essas referências, além de elogiosas, marcam uma época de absoluta inocência.

De uma coisa de há muito fui convencido: minha terra natal era pródiga em meninas bonitas.

E eu sempre tive facilidade para encontrar musas. Já registrei aqui também minha paixão por Hortência, quando eu tinha apenas uns sete ou oito anos. Era uma mulher de seus dezoito anos, por aí, e minha vizinha de frente. Era bela, morena, olhos verdes e cabelos negros ondulados: uma beleza cigana. Era real e soube dela também no meu resgate da cidade: falei com uma das suas irmãs e ex-vizinha. Hortência vive até hoje numa cidade próxima de Araçatuba.

E essa “musa Duília”, por que falo dela?

Porque a tal da rede social, embora às vezes canse, traz muitas imagens e recordações e, dizia a canção, recordar é viver...

E hoje é aniversário da cidade, lá na Araçatuba. Nos anos 1960, nas manhãs do dia 02 de dezembro, quando espocavam rojões, tocava a banda e gritavam as sirenes, o pai da menina dizia: acorda, é seu aniversário, olha a bagunça que fazem...



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 17h28
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Medos

     

Quando o assunto é medo, se ouve de tudo.

Quando criança, alguns têm medo de palhaços, outros de cachorros e muitos têm medo de defuntos. Esses últimos quando crescem, se arrepiam só de pensar em ter que ir a um velório. E têm dificuldade até no velório da própria mãe. Eu tive sorte. Tive um só medo e ele acabou logo.

Tive medo numa fase entre os dez e onze anos. Um pouco do chamado “terror noturno”, quando a criança pode ter medo de ficar sozinha no escuro. A causa do meu terror, acredito, foi eu ter ficado de sentinela ao lado do corpo de um colega do Colégio Salesiano Dom Henrique Mourão, na cidade de Lins. O menino, que não era do meu convívio, morreu afogado numa represa da fazenda da família. Teria comido melancia passada e tido uma congestão dentro d água, disseram. De qualquer forma, os padres colocaram meninos em turnos de duas horas para ficar ao lado do caixão. Éramos seis de cada vez. Três de cada lado. E era impossível não olhar para o jovem defunto que, acreditem, foi azulando com o passar das horas. Ou pelo menos eu o enxergava assim. No momento, o programa foi melhor do que ficar na rotina do colégio. Só depois, quando em férias, lá em Araçatuba, é que a imagem do menino me veio à cabeça. A crise deve ter durado uns dez dias ou mais. Eu acordava à noite com pesadelos e chamava por minhas irmãs. Tinha medo.

Convenhamos, a pedagogia salesiana foi meio macabra considerando que eu tinha dez anos de idade...

Fora isso, nunca tive medos estranhos. Temo os vivos. Principalmente os vivaldinos.

Mas, nos últimos dias, um medo se me tem assaltado. É o medo dos quatro por quatro. Explico. Estou com medo desses veículos grandões, quase sempre pretos e com os vidros cobertos com aqueles adesivos que não nos permitem ver quem este dentro. Estou com medo.

Claro, não se pode generalizar. Mas também não se pode ver lá dentro para saber se é o mesmo (a mesma) motorista que me aterrorizou no dia anterior. Quem vai saber?

Claro, de novo, pode ser uma baita duma coincidência. O trânsito paulistano é carregado e tem muita gente doida, ainda que a grande maioria respeite as regras do bem dirigir. Mas eles aparecem do nada. E me agridem.  Foram várias ocorrências em poucos dias, sempre com esses veículos metidos a troncudos, sarados, pneus robustos e muita petulância. Não vou enumerar, mas fui fechado na rua com alguma violência repetidas vezes por esses bichos. Andando a pé no estacionamento de um shopping quase fui atropelado por esse personagem spielbergniano. Senti-me o próprio David Mann, que no primeiro sucesso de Spielberg, era perseguido por um caminhão preto em “O encurralado” ( Duel, 1971). Eu deixara meu carro numa vaga e caminhava rumo à porta de acesso ao shopping quando o bicho avançou com velocidade numa curva da garagem. Tive que pular. Ele seguiu. Eu fui atrás. O veículo entrou numa vaga para idosos e ficou lá, inerte. Esperei. As portas se abriram e desceram, a motorista, uma senhora de cabelos tingidos cor gema de ovo de codorna, uns cinqüenta e poucos anos presumidos, bonitona, e duas adolescentes. Esperei um pouco. Ninguém mais. Nenhum idoso. E elas seguiram, passando por mim como se fora eu um cone daqueles do trânsito.

Dia desses eu descia pela Avenida Cidade Jardim, num lugar de trânsito intenso e faixa exclusiva de ônibus. Um aperto. Pois um desses veículos, preto, tal como descrevi, sai voando de um posto de gasolina e embica de vez na rua, sem a menor consideração com quem já está na faixa de rolamento. E foi entrando, assim, depressa e aos pulos, fechando o carro que estava à minha frente. No impulso (errei, admito) colei no carro da frente para evitar que ele, se não conseguisse furar o outro, furasse na minha vez. O bicho estancou nas suas freadas aos socos, buzinou e então (trilha com tema de “Psicose”) o vidro se abriu e apareceu um rosto feminino, branco, cabelo preto despenteado com uma piranha, provavelmente, segurando os fios lisos no alto da cabeça: Comprou a rua? Ela perguntou olhando para mim. Baixei o meu vidro e respondi: Você é meio espaçosa, hein amiguinha? Ela não vacilou: Seu velho de merda! E arrancou sobre a calçada entrando na ruazinha que esquinava com o posto. Fiquei chocado. Por que ela não me chamou de filho da puta, corno ou qualquer desses palavrões mais formais? Não. Chamou-me “velho de merda”.  Senti-me lesado. No dia anterior, meninas de vinte e poucos anos haviam me bajulado, dizendo que sou charmoso e que não pareço a idade que tenho. Claro, não se dá crédito a isso senão pela atenção e algum afeto que nos querem passar. Mas, mesmo assim, nunca haviam de chamado de velho. E muito menos como xingamento. Quem poderia ser essa insensata criatura senão a condutora desses bichos pretos agressivos sobre quatro rodas?

Não me esqueci do xingamento. Foi uma agressão gratuita. Como as demais que esses carrões e seus primos nos fazem no trânsito. Um parente daquele que quase me pegou no shopping fez um strike com dois garis em plena Marginal do Tietê, mandando-os para o além. Mais inverossímil, impossível. Mas assim tem sido. Eu tenho medo.



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 18h51
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A Classe média sob pressão

                                        

Dia  desses um promotor público de São Paulo ganhou manchetes por investir contra cidadãos que entraram com pedido de liminar contra a instalação de um albergue para pessoas sem teto perto de suas casas. O promotor os chamou de “higienistas” e os comparou aos partidários de Hitler na Alemanha dos anos 30/40 do século 20. Os cidadãos que foram em busca de seus supostos direitos viram o tiro sair pela culatra e hoje têm que se defender.

Já para os que invadem prédios vazios, instituições de pesquisas, pedágios, propriedades rurais produtivas, bancos e instalações de ministérios, para esses, a leniência do Estado é total. Sim, são pessoas que, supostamente, participam de “movimentos sociais” que, na verdade, apenas buscam manter esses movimentos em busca de recursos públicos que enriquecem seus líderes e os mantém a sombra do poder de nossa república sindicalista. Mas não só eles são favorecidos pelo descaso do poder público. Na semana que passou “estudantes” da USP, orientados pelos movimentos políticos dos funcionários administrativos daquela instituição, tomaram um prédio e se portam com a imprensa, pior do que os amotinados em presídios. Tudo para protestar contra o policiamento do campus feito pela Polícia Militar porque os oficiais tentaram deter alguns de seus pares que fumavam maconha no estacionamento. Contra esses, o Estado é lento e tolerante.

Mas o promotor que ganhou holofotes com o caso do albergue não está sozinho. Boa parte dos brasileiros pensa como ele quando se trata de alguma reação da classe média na luta por seus direitos. País de raízes escravocratas com governos corruptos e paternalistas, o Brasil foi de fato acordar para as questões sociais depois da ditadura de 1964/1985. Por conta de combater o modelo da ditadura, os políticos que assumiram o poder deixaram de lado questões sérias como a segurança e o enquadramento dos excessos dos chamados “movimentos sociais” que surgiram na esteira de movimentos sindicalistas e católicos. Para os novos governantes, desde os anos 1986 até hoje, a organização do aparato policial e a repressão à desordem e ao vandalismo é confundido com “repressão”. Como resultado, temos uma repressão às avessas: do crime organizado e dos movimentos sociais contra a sociedade.

Nessa perspectiva está também a negação dos direitos da classe média, como se essa não tivesse o direito de exercer o seu direito de reclamar uma vez que “é bem de vida”. Gente como esse promotor de Justiça se esquece de que é essa gente que mantém os cofres do Estado e que garante o funcionamento da máquina da qual os partidos políticos tomaram conta e roubam desbragadamente. A classe média tem o direito de não querer perto de suas casas um aparelho do Estado que venha a desvalorizar o seu imóvel por razões diversas. E o Estado tem o direito de instalar o que entende que deve instalar, desde que respeitando o direito do outro, sobretudo os vizinhos dessas instalações, seja uma delegacia de polícia ou uma estação de metrô. Mas a classe média tem esse direito e não pode ficar calada quando um promotor aparentemente exibicionista os compara a nazistas assassinos. Autoritários e de visão obscurantista são esses que, sob o manto de questões sociais, compactuam com ações ilegais, depredação e manutenção de “causas” que enriquecem poucos e mantém muitos iludidos com um partido político que está longe de se preocupar com a pobreza real do país.

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 00h46
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Educação

Andrés                                  Bolívar: milhões com o morto

Estou lendo um livro do jornalista argentino (que reside nos EUA há trinta anos) Andrés Oppenheimer, intitulado “Basta de histórias” (Objetiva, 2011). É uma leitura jornalística sobre o investimento em educação em diferentes países. Oppenheimer visitou a Índia, a China, Cingapura, Finlândia, Coréia e outras partes do mundo entrevistando os responsáveis pela educação nesses países com o objetivo de entender porque a América Latina tem tanta dificuldade no investimento e no desenvolvimento da educação. É instigante a leitura. Para começar o autor aborda a questão do “foco no passado” que predomina no populismo da América Latina. Ditadores como Chaves, Rafael Correa e o casal Kirchner, gastaram milhões de dólares exumando supostos restos de supostos heróis de suas terras e promoveram  o culto à memória, associando suas próprias imagens a daqueles heróis mortos. E a educação nesses países continua com baixos investimentos. Instigante o modus vivendi de famílias coreanas e chinesas que investem muito dinheiro na formação de seus filhos que estudam em média quatorze horas por dia. Instigante constatar que alguns países em desenvolvimento assumiram que seus jovens têm que aprender outro idioma (quase sempre o inglês) e estudar numa universidade reconhecida, para ter espaço num seleto mundo (por enquanto) de profissionais com boa formação e que formam os núcleos de pesquisa que têm impulsionado o mundo nas últimas décadas. Andrés Oppenheimer mostra a dificuldade que os países latino americanos  enfrentam com o viés ideológico de educadores em suas universidades públicas e nos ministérios da Educação, que não permitem o pleno exercício da educação, em seus países, por universidades estrangeiras. Os países latinos americanos são diferentes da China, de Israel e da Coréia onde selos como Harward, John Hopkins, Cornell, Yale ou Oxford funcionam com docentes de seus campi originais e docentes nativos daqueles países. Mas, o epicentro de toda a questão está mais embaixo do que a vinda das universidades para os países hermanos e Brasil. A questão está mesmo na educação de base. Muitos países trataram de fazer da carreira de professor uma oportunidade diferenciada. E começaram pela seleção deles. Selecionar os melhores (investir na meritocracia, portanto) e pagá-los bem foi a saída encontrada pelos países cujo PIB, há três décadas era quase um traço e hoje fazem inveja ao Brasil. Numa entrevista com Bill Gates o autor ouviu um dos bons raciocínios sobre a questão da educação e desenvolvimento dos países. Perguntado sobre o que poderiam fazer os países da AL para melhorar seus níveis educacionais, Gates respondeu: “A melhor maneira de começar é se sentir mal, com humildade”. E explicou: “ O melhor que podia acontecer aos Estados Unidos foi pensarmos que o Japão nos faria em pedacinhos (quando nos anos 1980 o Japão comprou várias empresas estadunidenses) “As pessoas diziam: ‘Meu Deus! Os japoneses têm um sistema educacional melhor, trabalham mais, pensam a longo prazo’. As grandes empresas norte americanas afirmavam: ‘Ui, os japoneses vão nos arrasar’. Foi isso o que levou os Estados Unidos a arregaçar as mangas, começar a trabalhar e criar o microprocessador, a internet, a Microsoft. A humildade  foi um fator que nos ajudou muito”, acrescentou Gates. Na Finlândia por exemplo, como na China comunista, nenhuma escola é gratuita. O estudantes vão pagar seus cursos depois de formados, como é no Brasil o FIES. O conceito de universidade pública gratuita não é bem visto por muitos países que vêem nisso uma ação patriarcal onde o estudante não dá o devido valor à educação. Leio e fico pensando no estrago material que estudantes e militantes ligados ao PT fazem na USP quando inventam uma greve...

Estou na metade do livro e posso sentir um misto de inveja e vergonha diante de cada um dos entrevistados pelo autor. Claro, nem tudo é tão cor de rosa. China, Singapura, Coréia, todos eles têm senões nos seus muitos métodos de ensino. Mas, uma coisa é certa: eles assumiram que seus países só poderiam decolar do atraso para uma melhor qualidade de vida, através da educação. E foram atrás disso. Do México à Patagônia, as universidades públicas vivem no isolamento, fugindo das empresas e de outras universidades. Já o anuário estatístico da China mostra que 1,3 milhão de universitários saíram para o exterior desde o início da abertura em 1978. Desse total, 400 mil retornaram à sua terra e estão no mercado de trabalho. Cingapura, que só ganhou sua independência da Inglaterra em 1963, é formado por um conjunto de ilhas que somam 710,2 Km2 (O bairro de Parelheiros, na cidade de São Paulo, tem 353,5 Km2), tem que importar água e terra de outros países e não tem nenhuma commodity para exportar, exportou em 2010 US$235 bilhões, contra US$200 bilhões do Brasil, US$103 bilhões da Venezuela, US$73 bilhões da Argentina e US$69 bilhões do Chile.  Ainda temos uma longa jornada pela frente na questão da educação. E não me parece que será sob a bandeira dessa  ditadura sindicalista hoje aboletada no poder que vamos ver o nosso desenvolvimento com seriedade. Basta lembrar que a primeira medida que o hoje ministro da Defesa  tomou quando assumiu o Itamaraty no primeiro mandato do PT, foi abolir a exigência do idioma inglês para o ingresso de pessoas nos quadros do serviço diplomático. Questionado, o seu segundo na hierarquia defendeu-se, dizendo que a exigência era elitista e impedia o ingresso de pessoas com boa qualificação naquele órgão. Preciso dizer mais?



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 18h27
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Lembranças de Araçatuba

cedrinhosSimca Chambord

Poucos vão se lembrar do nome Guerino Nucci. Por sua figura, ele poderia ser um ator coadjuvante na Los Angeles atual. Tinha charme para isso. Era careca como o Telly Savalas e vestia sempre roupas brancas de linho. Quando circulava a pé pelas ruas quentes da cidade, usava um chapéu do tipo Panamá. Seu carro, um Simca Chambord (sempre do ano) estava sempre brilhando. Celibatário, era gentil e risonho. A geração da década de 1960 o conheceu como o “Nenê Sorvetes”. Esse era o nome de sua sorveteria que tinha, à época, uma localização estratégica no universo jovem de classe média local: ficava próxima às três principais escolas secundárias (o que hoje chamam de ensino fundamental e médio) da cidade e das duas pracinhas onde essa juventude flanava, namorava e matava aulas. Nessas praças o cheiro dos cedrinhos, podados com esmero em arcos sobre as ruelas calçadas em petit pavet, parecia aliviar um pouco o calor sufocante nas noites sem nenhuma brisa, no alto verão. Aliados deles, os cedrinhos, eram os coqueiros anão cujo cheiro amargo também rescendia nas noites fazendo um contraponto com o doce azedinho dos sorvetes de limão saídos da velha máquina da sorveteria do Nenê. As cadeiras de madeira da sorveteria eram charmosas e confortáveis. Tinham um design anatomicamente repousante com assento e encosto forrados com madeira arredondada, sempre na cor creme, e com os braços em verde musgo. A figura número dois da sorveteria era conhecida apenas como Baiano. Certamente, 93,9% dos jovens freqüentadores do estabelecimento envelheceram sem saber o nome de batismo daquela figura simpática, sempre de jaleco amarelo e um gorro branco na cabeça. Mas nem tudo era perfeito. Os vasos que ornamentavam a sorveteria, a maior parte contendo a espécie “Comigo ninguém pode”, não eram bem cuidados e sempre continham pontas de cigarros, papéis e palitos de picolés. Localizada numa esquina, a sorveteria tinha, na quadra que fazia frente para a praça batizada de Getúlio Vargas, uma vizinhança conhecida na cidade e era algo como morar, hoje, de frente para a Praça Buenos Aires ou na Vilaboim, em São Paulo. O movimento das praças, e da sorveteria, obedecia à lógica escolar: demanda alta de segunda à sexta, com muita gente conversando, crianças correndo e alguns namorando, todos consumindo sorvetes, a única forma de enfrentar o calor sufocante do local. Nos finais de semana, os bancos de cimento daquelas praças (que mesmo a noite permaneciam quentes, reflexo do sol bravo do dia) serviam de ninho para o inocente namoro daqueles casais semi virgens. E o cenário era diferente, sem o alarido dos estudantes. A grama dos canteiros era bonita, cortada, adubada, bem cuidada enfim. Com o cheiro dos cedrinhos e dos coqueiros, eu atravessei duas fases importantes de minhas recordações: dos oito aos doze e dos doze aos dezessete. Ali conheci e convivi com jovens dos quais me fiz amigo, de outros que sempre foram conhecidos, outros com os quais apenas conversava e com meninas com as quais tive rápidos namoros, com outras com as quais sonhei e jamais falei e com outras com quem troquei muitas confidências e alguns toques de mão e lábios, ingênuos, absolutamente inocentes. Nos bancos daquelas praças ou nas confortáveis cadeiras da sorveteria, vimos desfilar jovens e belas pernas, inesquecíveis derrièrres, e também jovens professoras que permeavam as fantasias adolescentes daquela juventude. No oco de algumas árvores, escondíamos maços de Hollywood ou Luiz XV, aqueles cigarros sem filtro, mas ainda sem tantas drogas como os atuais. No espaço de nossas mentes jovens não havia lugar para se imaginar como seria aquilo tudo, nós incluídos, meio século depois. Na viagem para o futuro, as redes sociais começam a unir o impensável. Resta saber se o cheiro do cedrinho e dos coqueiros resistiu ao tempo.



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 01h36
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Libido Profissional

Eisner   Katzemberg

Ao longo da vida profissional, em qualquer atividade laboral, sempre nos deparamos com momentos onde somos obrigados a deixar de lado sentimentos humanos que nos tocam a alma e deitar um olhar profissional sobre situações que demandam nossas decisões.

O senso profissional é importante e necessário. No mundo do trabalho não deve(ria) existir compadrio e tolerância paternalista, sobretudo quando tratamos de competências, habilidades, confidencialidade e, nem se fala, honestidade.

Em minha trajetória profissional, sempre em cargos de gerência ou direção, tive que tomar, em diversas ocasiões, medidas definitivas com relação a profissionais que se me falharam, debalde orientações, sugestões e aconselhamentos. Lembro-me também de ter ouvido frases como “ele tem filhos pequenos”, ou “ela está separada”, como uma advertência a uma decisão de demissão desse tipo de profissional. Infelizmente, respondia eu, ele (ela) mesmo não teve consciência dessa situação e tornou insustentável sua permanência na empresa. Trata-se de uma decisão profissional e devemos ter essa clareza em nosso íntimo.

Visão compadresca explicitou várias vezes o ex-presidente Lula da Silva ao se referir a “dor de cortar na carne os ex-companheiros”, quando teve que demitir ministros e outros auxiliares que claramente se locupletavam na farra petista do poder central. Mais grave ainda por se tratar de recursos do erário e não de uma empresa focada no lucro.

Nem tanto ao céu e nem tanto ao inferno.

O que é preciso para os gestores é a visão humana e profissional combinadas de forma a lograr produtividade e contentamento de seu grupo de trabalho.

E nas profissões liberais, onde não há, supostamente, uma equipe sob sua gestão, existem os riscos de momentos de difícil decisão? Acredito que sim.

A clássica decisão da notícia de um diagnóstico de uma doença terminal para o seu paciente pode tirar o sono de um médico em começo de carreira. Para outros, mais sensíveis, essa dor é partilhada até o final de sua vida profissional. Sofrem com os seus pacientes. E quando o médico sabe que o paciente não pode pagar por um tratamento que pode lhe assegurar uma boa sobrevida? Que decisão tomar?

Personagens da história e heróis de romances e filmes mostram sempre momentos de escolha, onde médicos, policiais, foras da lei, religiosos, advogados e professores, tomam decisões que aparentemente estão fora dos padrões sociais previamente definidos e se apóiam num senso de justiça que nem sempre é tão claro aos olhos da lei. Até porque, a justiça é cega.

É quase sempre no início das carreiras que os profissionais ficam vulneráveis ao que chamo de “libido profissional”, traduzido naquele afã de ganhar espaço, decisões que se traduzem em (suposta) maior lucratividade ou “atos de coragem” diante do topo da pirâmide. Sempre houve nos exércitos, Golias para todos os senhores. Assim é.

Nesse momento da libido profissional, as mulheres e os homens, perdem (ou não adquiriram ainda) a maturidade e o senso de humanidade que requer a vida profissional. Eles se esquecem de que a vida segue em moldes iguais para todos: família, casa, filhos, namorados, amantes, cachorros e cartões de crédito. Mais do que isso, tomados pela “lubricidade do mundo profissional”, avançam sem muita reflexão sobre causas que entendem boas para o seu crescimento profissional.

Lembro-me de dois filmes que mostram advogados que depois de episódios pessoais marcantes, revoltam-se contra aqueles que defendiam em outro momento. Num deles, Harrison Ford faz um advogado que defende um grupo de seguro de saúde contra um casal de aposentados diabéticos que careciam de tratamento que os contratados se negavam a oferecer. Depois de um acidente, o advogado reflete melhor sobre a vida e resolve orientar o casal que ganha a causa. Num outro, Keanu Reeves defende um tarado, rico e acusado de avançar sobre uma criança e ao final rejeita aquela defesa por questão de foro íntimo.

Essa libido profissional pode trazer, no primeiro momento das carreiras, visibilidade, mérito corporativo e, portanto, ascensão no mercado. Mas pode deixar marcas pelo caminho. Repito que não se trata de uma simples avaliação de desempenho de um colaborador ou de mudanças nas estratégias de venda. A libido costuma atiçar os novos profissionais pelas rebarbas de suas vaidades, pela inveja de concorrentes ou pela insegurança que permeia sempre o perfil dos valentões de mercado. Nada como a leitura do Disney War, uma biografia autorizada de Michael Eisner, o presidente da Disney entre 1984 e 2004, período em que a maior empresa de entretenimento do mundo teve o seu grande crescimento e um reposicionamento no mercado. O próprio Eisner teve atitudes e tomou decisões impensáveis para os estudiosos do comportamento dos profissionais de grandes corporações. O biógrafo ainda foi suave ao retratar os sentimentos de inveja que Eisner teria de Jeffrey Katzemberg, que foi o responsável pelos grandes lançamentos como o Rei Leão, Aladim e outros. À saída de Katzemberg, Eisner negou o pagamento de seus direitos em ações. Negou os US$ 90 milhões a que ele tinha direito e, apesar dos conselhos de seus auxiliares, só foi pagar na justiça, mas aí já eram US$170 milhões. Mas Eisner mostrou muito mais a sua libido na construção da Disney Paris cujo investimento trouxe sérios prejuízos para a companhia.

São decisões, atitudes, comportamentos que nem sempre levam em conta a empresa, colaboradores, clientes ou parceiros. Essas figuras costumam alimentar-se de forças que dizem respeito aos seus ganhos pessoais, através do manto profissional. Não se trata necessariamente de um ganho financeiro. Ele é emocional, como uma prova do “sim eu posso e conseguirei”. Muitos desses profissionais, independente de seu sexo, já estiveram à frente de empreendimentos que foram grandes, por exemplo, entre 1980 e 2000. Das empresas mundiais que foram ponta nesse período, mais de 22% já desapareceram. Aqueles CEOs que atropelaram o mundo com sua libido hoje estão mais maduros e, possivelmente mais contidos em seus arroubos. Se ainda no mercado, eles podem hoje, estar sendo vítimas de novatos com a libido efervescente, que se inspiram nos seus próprios modelos



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 17h45
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Leitura

Harvey          

HARVEY, David. Condição Pós-Moderna. Edições Loyola, São Paulo. 1989.

Dois fatos recentes me levaram a reler esse livro: a reação e contra reação de (alguns) moradores do bairro de Higienópolis, na cidade de São Paulo, sobre a possível construção de uma estação do Metrô no coração de seu bairro. O fato gerou um contra-movimento com manifestações irônicas de pessoas para as quais o transporte público é imprescindível. O bairro em questão é dominado por duas elites: supostos descendentes de famílias paulistas quatrocentonas, remanescentes do ciclo do café e a rica colônia judaica de origem européia, que migrou do bairro industrial do Bom Retiro para o Higienópolis nos últimos trinta anos, povoando-o com o velho dinheiro e uma nova paisagem, rodeada por, pelo menos, cinco Sinagogas. O outro fato é o de ter conhecido e estar interagindo com um grupo de jovens profissionais que batalha para colocar no ar uma TV por assinatura, multiplataforma, com três canais arrojados, focados em conteúdos brasileiros: música, cinema e turismo. Esses jovens têm força, talento e ideais. Têm um viés nacionalista expandido, aberto, e entendem que devem fazer o seu melhor para um empreendimento empresarial focado na venda de serviços. E isso gera invitáveis conflitos internos, intestinos, quase ideológicos.

Mas porque eu procurei David Harvey, esse geógrafo de orientação marxista num livro escrito a vinte anos? Porque entendo que a sua análise da Condição Pós-Moderna é atual em relação a essas duas realidades com as quais me deparei: a do convívio na urbis e sua concepção arquitetônica e na construção da arte e da comunicação, sobretudo quanto aos conflitos que isso gera nas gerações de orientação política consciente, aqui entendida como um posicionamento voltado para os direitos de manifestação, respeitadas as posições não convergentes, e a busca pela qualidade nas diferentes formas de expressão, combinadas com a insofismável necessidade de comercializá-las num mundo em que os “pós-mecenas” são as grandes corporações que pouco dão de seus cofres em troca de muita exposição de suas bandeiras e sempre fugindo de manifestações que se configurem polêmicas e que possam ser associadas às suas marcas.

Harvey trata no livro dos conceitos do modernismo e de tudo foi se transformando em pós-moderno. Sua análise parte daquilo que Lyotard (o filósofo francês Jean François Lyotard, falecido em 1998) escreveu ainda em 1979 (La Condicion Postmoderne) onde, afirmou

"Simplificando ao máximo, 'pós-moderno' é a incredulidade em relação às metanarrativas... não podemos mais recorrer à grande narrativa - não podemos nos apoiar na dialética do espírito nem mesmo na emancipação da humanidade para validar o discurso científico pós-moderno".

Lyotard utilizou o conceito de "jogos de linguagem”, que foi desenvolvido por Ludwig Wittgenstein, e refere-se a uma agonística entre esses jogos - característica da experiência da pós-modernidade, assim como a fragmentação e multiplicação de centros e a complexidade das relações sociais dos sujeitos. Harvey nos traz também uma tabela das diferenças esquemáticas entre modernismo e pós-modernismo elaborada por Hassan (Ihab Hassan) onde podemos constatar o que vemos nas manifestações artísticas das últimas décadas: o Romantismo foi substituído pela Parafísica/Dadaísmo, o Propósito pelo Jogo, a Hierarquia pela Anarquia, a Criação pela Descriação/Descontrução, o Genital/Fálico, pelo Mutante, a Raiz/Profundidade pelo Rizoma/Superfície e por aí vai.

Para Harvey, “a mudança de tom do modernismo decorreu também da necessidade de enfrentar diretamente o sentido da anarquia, de desordem e de desespero que Nietzsche semeara numa época de espantosa agitação, insatisfação e instabilidade na vida político-econômica – uma instabilidade que o movimento anarquista do final do século 19 teve de enfrentar, tendo contribuído para elas de maneiras importantes.”

Do ponto de vista do planejamento urbano Harvey aborda, didaticamente, o conceito de modernidade na urbis, desde Le Corbusier, que enfatizava que “a liberdade e a libertação na metrópole contemporânea dependiam de maneira vital da imposição da ordem racional.” Na arquitetura, as idéias de Le Corbusier e de Mies van der Rohe davam prioridade à luta para revitalizar cidades envelhecidas ou arrasadas pela guerra, reorganizar sistemas de transporte, construir fábricas, hospitais, escolas, obras públicas de todos os tipos e, por último (mas não menos importante) edificar habitações para uma classe trabalhadora “potencialmente inquieta”.

Na pós-modernidade, iniciada nos anos 1970, é norma procurar estratégias pluralistas e orgânicas para a abordagem do desenvolvimento urbano com a “colagem” de espaços e misturas altamente diferenciados, em vez de perseguir planos grandiosos baseados no zoneamento funcional de atividades diferentes. O tema agora é a “cidade colagem”.

As artes e a literatura se cruzam nos diversos conceitos do que se define pós-modernidade. Vejamos a observação sobre Michel Foucault:

“McHale, ao acentuar o pluralismo de mundos que coexistem na ficção pós-moderna, considera o conceito foucaultiano de heterotopia uma imagem perfeitamente apropriada para capturar o que a ficção se esforça por descrever. Por heterotopia, Foucault designa a coexistência, num espaço impossível, de um grande número de mundos possíveis fragmentários, ou, simplesmente, espaços incomensuráveis que são justapostos ou superpostos uns aos outros. As personagens já não contemplam como desvelar ou desmascarar um mistério central, sendo em vez disso forçadas a perguntar Que mundo é este? Que se deve fazer nele? Qual de meus eus deve fazê-lo?”

Parece algo que serve também para uma leitura de conceito urbano...

Harvey vê boa parte da arquitetura pós-moderna com os traços de uma “teatralidade, um realismo de fachada”, um “fragmento inserido num contexto novo e moderno.” Para ele, se a arquitetura é uma forma de comunicação e a cidade, um discurso, o que podem essas estruturas, sobretudo essas “reproduções” de modelos antigos, Art Déco ou romanos, significar nos tecidos urbanos onde são erigidas? Para ele há uma “alienação”, compreendida (ocamente) em termos de emigração e bairros pobres, que os arquitetos tentam recuperar por meio de construção de um lugar onde a identidade possa ser reclamada mesmo em meio ao comercialismo. Ele aponta o gosto pela fragmentação, o ecletismo de estilos, os tratamentos peculiares do espaço e do tempo ou “a história como um contínuo de acessórios portáteis” como marcas da pós-modernidade.

O autor mostra ainda a necessidade de o habitante da grande cidade ter um lugar para circular a pé e ter atendidas as suas diferentes necessidades nesse sitio único. Essa percepção vai na contra mão dos condomínios residenciais suburbanos que proliferaram nos Estados Unidos nas décadas de 50/60/70. No final do século vinte a idéia que se consolidou foi a de residir num espaço integrado à cidade, planejando e utilizando de forma racional e agradável os equipamentos existentes e, com isso, obrigando o poder público a reformá-los, melhorá-los e conservá-los. A crítica vai também aos conjuntos habitacionais destinados às classes de baixa renda que se reduzem, quase sempre, a “oficialização das favelas” tal o descaso que os planejadores têm para com essas populações, privando-os de qualquer paisagismo ou áreas de convívio. Isso tudo a gente vê nos conjuntos habitacionais brasileiros.

Enfim, ficção, fragmentação, colagem e ecletismo, “todos infundidos em um sentido de efemeridade e de caos” são os temas que dominam as atuais práticas da arquitetura e do projeto urbano.

Não sou entendido no assunto, mas pareceu-me ver na leitura dois cenários brasileiros bem conhecidos e que me pareciam tão fake: o Recreio dos Bandeirantes, RJ, e parte da Vila Olímpia, SP. O Higienópolis se defende como pode num quadrilátero que ainda sobrevive aos tantos avanços da especulação imobiliária voraz, cruel e demolidora do conforto e do futuro das cidades.

A arquitetura pareceu-me, adotou o “desconstrutivismo” da literatura. Nessa vertente, embora compartilhe com o modernismo a preocupação de explorar a forma e o espaço puros, “o faz de maneira que concebe o prédio não como um todo unificado, mas como “textos” e partes disparatadas que permanecem distintos e não alinhados, sem adquirir sentido de unidade”.   

Sobre o cinema Harvey escreveu mais de dez páginas comentando o que considera dois ícones da pós-modernidade na arte popular: Blade Runner (Ridley Scott) e Himmel über Berlin, ou Wings of Desire (Win Wenders). Para ele, ambos os filmes exemplificam muitas das características do pós-modernismo, além de darem uma atenção particular à conceituação e aos significados do tempo e do espaço. O filme Cidadão Kane (Orson Welles) é apontado como um clássico modernista enquanto Veludo Azul (David Lynch) é um cinema contemporâneo, um formato mais pós-moderno.

Enfim, defender o seu bairro é um direito dos cidadãos contribuintes. De acordo com Erminia Maricato, arquiteta e professora da USP, que foi secretária de habitação de São Paulo, a rejeição ao transporte de massa em determinados bairros acontece em outras metrópoles do mundo e cita Vancouver como exemplo. Diz ainda que embora, mundialmente, a presença do metrô valorize os imóveis, quando tráz essa "vizinhança diferenciada", causa um efeito contrário(OESP 19/0611). O fato é que o público politizado com um viés de justiça social, não aceita a manifestação da classe média por entender que reivindicar é coisa de necessitados. O mesmo pensamento da suposta esquerda hoje encastelada no poder no Brasil, cujo enriquecimento rápido dispensa comentários.

David Harvey não é um marxista desses chatos e chegados a patrulhar e destruir tudo o que seja “capitalista”. É, antes de tudo, um geógrafo erudito. É analisando Marx, Foucault, Calvino, Bordieu, Baudrillard, Taylor, Toffler e outros tantos que ele nos dá uma grande luz sobre as artes, a arquitetura, a economia e todas as formas de manifestações culturais e artísticas no final do século vinte. Só lendo



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 15h44
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Comparações e aflições

Comparações e aflições

  • Bernard Lawrence "Bernie" Madoff fez o que fez com os investidores que nele confiaram e está bem preso no Federal Correctional Institution, Otisville, situado a uns cinqüenta quilômetros de Manhattan, NYC, condenado que foi a 150 anos de prisão. Não teve esse monte de apelações e chicanas que acontecem no Brasil com os ricos. Está preso e pronto. Além disso, a Justiça trata de ir rastreando e tomando seus bens para leiloar e fazer algum dinheiro visando restituir os prejudicados. Já aqui no Brasil, advogados insistem na “não solução” pelas “Cortes Menores”. O sujeito, mesmo condenado, ainda é presumidamente inocente porque pode recorrer até mesmo ao STF. Assim, um sujeito que matou a namorada a tiros, na frente de testemunhas, confessou, foi condenado e está livre porque ainda pode recorrer. Na prática, julgar o réu numa Comarca o interior, por exemplo, não vale nada. Ele tem direito a ficar livre enquanto recorre.
  •  O diretor-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), Dominique Strauss-Kahn, foi detido pela polícia de NYC acusado por uma camareira do hotel onde se hospedava de tentar estuprá-la. Claro, vários advogados capitaneados pelo doutor que um dia defendeu Michael Jackson estão ali para defendê-lo. Mas a camareira foi ouvida e o homem recebeu um “teje preso” já dentro do avião. Cheios de defeitos, os estadunidenses não são escravocratas...
  • Enquanto a Globo copia TV do hemisfério Norte e promove concurso de estudantes do ensino médio soletrando palavras, o MEC autoriza a adoção, pelas escolas públicas de livro de português que justifica e valoriza a língua inculta. De acordo com os autores do livro, dizer “Os menino pega os peixe” está correto e pode ser dito. É a esquerda obscurantista que acha que a norma culta é coisa de rico. Os autores é que são atrasados e têm uma visão equivocada, de senzala, num preconceito às avessas. Com isso, estimulam menos os estudantes a aprender a falar e escrever e, portanto, a serem menos competitivos no mercado num futuro próximo. Quer dizer, a menos que acreditem mesmo que o PT vá ficar (e parece que vai) mais trinta anos no poder implantando um regime semi-bolivarista onde o idioma inglês será proibido e as escolas privadas serão fechadas. Duvidam? Comecem a pesquisar e fazer link entre medidas e fatos políticos dos últimos anos, sobretudo dos últimos meses...


Escrito por José Ruy Veloso Campos às 17h33
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Empreendedores Vs. Futuros de morte

   

Não é preciso viver muito ou viajar bastante para se conhecer pessoas empreendedoras e que enriquecem ao mesmo tempo em que trazem riqueza para o seu país. Um jovem de quinze anos pode conhecer muitos novos empreendedores apenas clicando no Google nos temas de seu interesse.

Mas eu, com mais de meio século de existência, posso falar de empreendedores que vi e conheci. Não, não são necessariamente esses empreendedores da Web ou do cinema como Bill Gates ou Spielberg. Falo mesmo é de fazendeiros, plantadores de algodão, criadores de gado e hoteleiros. Pessoas reais que fazem dinheiro, vivem bem, correm riscos, geram empregos e pagam, no caso do Brasil, muito, mas muito imposto mesmo.

Criado na provinciana e pecuarista Araçatuba, conheci nos anos 1960 muitos desses empreendedores, uns mais sofridos, outros bem sucedidos. O traço comum a todos era o incansável ritmo de trabalho. E nessa perspectiva de empreender no setor primário eu me lembro de compradores de bois para os grandes frigoríficos que acabaram virando, também eles, criadores de gado; de lavradores modernos como o Walter Lippe e o João Pedro que tratavam suas plantações de algodão com os mais avançados recursos ou como os irmãos Aguiar que, ao contrário do estereótipo dos “Reis do Gado”, vieram de Minas para aquela cidade com uma visão empresarial do assunto, todos eles devidamente “estudados” e com a mesma orientação para aos seus sucessores, hoje na terceira geração, que trataram de passar pela Fundação Getúlio Vargas visando o preparo para a gestão de seus negócios.

No setor terciário conheci muitos, dos ousados aos moderados, dos estudados aos “desplanejados” e no saldo final, muita gente batalhadora. Restaurantes na cidade de São Paulo, hotéis na Região Sul, faculdades e universidades no Centro-Oeste e no Nordeste, conheci muita gente incansável como um José Alves Filho em Goiânia, engarrafando refrigerantes e investindo na educação superior privada ou como Paulo de Paula em Natal, que de piloto da FAB transformou-se em comerciante e hoje é dono de uma grande universidade privada. Conheci gente ousada na antiga Alemanha Oriental, lá em Chemnitz, Baixa Saxonia, que juntou dinheiro como garçom e partiu para um enorme empreendimento de bar, restaurante, eventos e danceteria. Um luxo lá, no começo da década de 2000. E o que dizer dos ex-garçons do Vale do Paraíba que hoje têm churrascarias esparramadas pelos Estados Unidos?

E por que falo dessa gente toda e seus negócios?

Porque me arrepio com alguns tipos de investimentos pós-modernos que rolam mundo afora. Sentados em suas salas refrigeradas, cidadãos, eles e elas, fazem investimentos que podem lhes proporcionar bons lucros sem grandes riscos e sem ter que por a mão na massa. Não, não sou um conservador do Meio Oeste que acho que só o suor da terra faz crescer uma nação. Não é assim. Sei dos bons investimentos em papéis, dos que se arriscam em commodities e em derivativos. É lícito e é assim que funcionam as economias. Sem investidores o setor produtivo não anda.

Mas me arrepia quando leio sobre os chamados Traded Life Policy Funds (TLPs), também conhecidos como Death Futures ou Futuros da Morte. Trata-se de uma modalidade que, apesar de gerar muita polêmica, vem atraindo muitos investidores e ameaça chegar ao Brasil.

Do que se trata esse tipo de investimento? Numa explicação rasa e objetiva é o seguinte: são fundos que arriscam dinheiro aplicando em apólices de seguro, quase sempre milionárias, de idosos ou pessoas com doença terminal. O risco nesse “derivativo” consiste em tentar calcular em quanto tempo cada um dos segurados vai morrer. O quanto antes isso ocorrer, maior o lucro. Simples?

A origem desse tipo de investimento, de acordo com Patrícia Eloy, apud Valor Investe, se situa nos Estados Unidos no final da década de 1980, quando pacientes portadores do HIV passaram a vender suas apólices para fazer frente ao alto custo de seus tratamentos. Alguns anos depois a moda chegou à Inglaterra e teria ganho força a partir de meados de 2000. Os fundos que trabalham com esses investimentos são aqueles que focam em fundos de pensão, hedge funds e investidores de altíssima renda que, no Brasil, são chamados de superqualificados.

A coisa é quase simples. O lastro de carteiras é formado assim: a pessoa que tem o seguro aceita vender sua apólice e os administradores dos fundos, que passam a ser os únicos beneficiários, se comprometem a pagar os prêmios até o falecimento do segurado, quando então recebem o valor de face, distribuído como renda aos cotistas. A informação é de que os ganhos ficam na faixa de 8% a 10%, líquidos ao ano.

Para aqueles que esconjuram esse macabro investimento (é ético?) esses investidores têm uma resposta pronta: o dinheiro que o vendedor da apólice pega vai ajudá-lo nos gastos com sua saúde ou até para que viva melhor, com lazer, seus últimos dias. Sobre eventuais herdeiros, ninguém fala.

Acho que foi isso que me trouxe a nostalgia da volta às terras araçatubenses e andanças outras, conhecendo tanta gente labutadora mundo afora. Sem medo de ser conservador, prefiro me lembrar daqueles “marreteiros” de gado e de automóveis que circulavam na Praça Rui Barbosa numa Araçatuba que também não existe mais. Hoje suas pastagens viraram um grande canavial, sem árvores, sem pássaros e sem aquela gente batalhadora que podia crescer. De longe, prefiro aquelas lembranças.

Quer saber mais sobre isso? Divirta-se nos links abaixo.

http://news.bbc.co.uk/2/hi/business/2991287.stm

http://illusionofprosperity.blogspot.com/2009/02/danger-of-gold-silver-death-futures.html

http://www.forbes.com/2007/07/19/life-insurance-settlement-pf-estates-in_pk_0719money_inl.html

http://tips.blogs.cnn.com/2010/01/22/death-futures-contracts/   

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 13h48
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Trânsito ideológico

 

Pela terceira vez acionou o botão do ar condicionado. Nada. Nem um barulho diferente. Só um ar quente. Horrível. Desistiu. O tráfego seguia lento pela avenida paulistana. O rádio ligado na Eldorado, “a rádio dos melhores ouvintes”, falava do calor que afligia os paulistanos e das possibilidades de chuvas fortes no final da tarde. Não mudava. Era sempre assim em todos os meses de janeiro.

Olhou o painel do carro, só para alguma segurança. Vai que o sistema tá dando pau em tudo e o carro começa a ferver. Merda de carro! Comprara aquele veículo zero, há quase dois anos atrás, quando Lula foi a TV dizer que todos deveriam comprar para a economia não cair e ficarmos igual aos Estados Unidos. Claro, fizera a opção por um carro europeu. Nada desse negócio de Ford e GM, coisas de americanos, estadunidenses. Vá lá, o filho deu risada e disse que o carro era feito na Argentina e nada tinha de francês. Melhor ainda, ele respondera. Assim os franceses geram emprego na Argentina, um país que já sofreu muito nas mãos dos americanos, do Brasil e dos ingleses (que lhe tomaram as Malvinas) e finalmente encontrava alguma Justiça Social pelas mãos do casal kirchner que, com a ajuda de Chaves, deu um cano nos ladrões do FMI. Comprara o carro com o orgulho de estar ajudando também o MERCOSUL.

O trânsito parecia piorar a cada pequeno deslocamento do carro. Nenhuma sombra e muitos vendedores de água e refrigerantes. Pelo menos tinha esse lado bom, o tal do congestionamento: oferecia oportunidade de renda para os menos favorecidos. O rádio falava do socorro às vítimas da tragédia no Estado do Rio e da presença quase imediata da presidente Dilma no local. O locutor comentava que ela teve reação rápida e se mostrava diferente de Lula, que nunca reagiu rapidamente diante das tragédias, nem mesmo para fazer declarações... Merda! Ele se esquecia de que a Rádio Eldorado, embora de boa programação elitista, pertencia ao Estadão, o algoz da esquerda na Grande Mídia. Um nojo aquelas publicações golpistas! O Estadão e a Veja, argh, eram a mais pura imprensa golpista que sacudiu o Lula e a esquerda toda naquela história do mensalão. Até a Globo, que todo mundo diz que deve favores abissais ao Lula, meteu o pau e mostrava todas as noites, em rede nacional, aquelas imagens da mulher do deputado indo buscar grana no banco e as imagens do Marcos Valério. Foi um período duro no qual Lula se mostrou um grande estadista: jogou o Zé Dirceu pras piranhas, deixou rodar o Palocci e se manteve firme. O homem é foda! E ainda por cima conseguiu eleger a Dilma, saindo da presidência com mais de 87% de popularidade!

Passou de novo os olhos pelo painel e ficou meio esperto com aquele vai e vem de vendedores na avenida. Vai que um resolve lhe encostar um cano e tomar a carteira, o celular etc.? Bom, o jeito é entregar... Nessas horas ele sentia certo sentimento de culpa por “estar bem de vida” diante de tantos excluídos. Mas tinha certeza de que merecia. Sempre trabalhou duro para viver. Moleque ainda, foi empacotador em supermercado, foi caixa e depois entrou num banco. Sempre estudando em escola pública, pegou umas aulas numa escola estadual quando estava fazendo ainda o “Científico”, como era chamada uma das opções do ensino médio nos anos 1970. Tomou gosto pela coisa e fez faculdade particular para ensinar matemática e ciências. Em 1980 entrou, concursado, na carreira de professor e no ano seguinte já estava no sindicato. E foi entre alguns períodos bissextos de aulas e muita militância sindical que chegara a aposentadoria. Mesmo assim, ainda dava aulas numa escola técnica do governo, onde prestou outro concurso, já no final dos anos 1990. Tinha uma boa renda para os padrões da família. E agora, no carro europeu dos kirchner, estava ali, sem ar condicionado, naquele trânsito horrível. Mas, como tudo o mais, aquilo iria mudar. Tinha certeza.

A conversa na sede social do sindicato era a de que Lula, ele em pessoa, ia se candidatar a governador para derrubar o reinado dos tucanos no Estado de São Paulo. Ah, essa ele queria ver! Quem poderia derrotar o próprio Cristo, assim, sem intermediação, como aquele negócio de mandar o Papa ou os cardeais? Essa seria uma boa! Mas será que o Lula toparia mesmo? Depois de fazer mudar decisões do Bush, do Obama, do Chaves e daquele cara complicado lá no Irã, o Lula vai topar ficar aí cuidando do Metrô e dos presídios do PCC? Meio duvidoso esse negócio... Mas o Mercadante quase que empata com o Alckmin na última eleição. Se o Lula entrar batendo e falar de tirar de vez os carros particulares das grandes avenidas, priorizando o transporte público, aí sim, o povão vai votar adoidado, a gente elege o Mercadante e derruba esses neoliberais tucanos, ladrões e protetores dos ricos, dos Cacciolas da vida...

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 15h57
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Diálogos

   

Diálogos

Faculdades Veris, Campinas:

- Ela ta com vergonha de descer pro intervalo prófe. É que é o primeiro dia com os peitos novos...

- Não é isso. É que estou com uma sandália horrível. Pareço um travéco.

- Você está bonita e é charmosa. Ademais, a sandália é retrô. Tá legal assim, disse eu.

- Isso mesmo menina. Vai mostrar os peitos novos! Incentivou a colega.

- Vá em frente menina, insisti. Operou prá que, então?

- É mesmo, não professor? Esses peitos são muito meus. Paguei seis mil em dez parcelas e ninguém tem nada com isso.

E desceram rindo. É a estética corporal pós-moderna.

Aeroporto Santos Dumont, Rio de Janeiro:

- Pára com isso Laura! Você ta me chantageando e to com o saco cheio disso. Você sabe que eu trabalho, porra. Não viajo a passeio. E depois, ouça por eu to falando, Laura, eu to falando, cacête! Não, não mudo. E você também não, Laura, foram sete anos assim. É sempre assim. Agora escuta Laura, to falando. A menina pode muito bem ficar com a avó nesse final de semana. Eu não vou poder voltar de Maceió, Laura, não tenho essa grana, pô. Você sabe disso. A empresa só paga a volta quando o trabalho termina, Laura. Deixa a Gisele com a avó, tá? Ah! Tá bom, tá, tá. Mas escuta, Laura, ah... Escuta, e você vai aonde? Se não vai para Sorocaba, vai aonde Laura? Não, eu não tenho nada a ver com sua vida, mas também você não pode me obrigar a ficar com a menina prá você ir fazer Lua de Mel, porra! Laura, escuta, Laura, olha, Num to nervoso, porra, to no aeroporto e cansado, Laura, eu trabalho e pago pensão, não to no mole, Laura (intervalo) Laura (intervalo) Sei, Laura, sei, mas não é isso. (intervalo) Escuta Laura, eu sempre a respeitei (intervalo) Porra, Laura, chega com isso. Ela é sua prima e não uma vadia. Escuta Laura, escuta, olha só, (intervalo) foco, Laura, foco. Laura eu (fecha o celular) Filha da puta...

Aeroporto Santa Genoveva, Goiânia:

- Carla? Ah, a Carla está? Pois não... Carla? Thiago (seria com agá?). Sim, estou bem, e você aí? Muito trabalho? Sim... Não, nada, liguei só prá saber de você... É...(riso fraco) verdade. Pois é, naquele dia a gente quase não pode conversar, não? Então... Não, estou em Goiânia, aliás, estou indo para São Paulo e depois volto prá aí (onde?). É isso, aquele pessoal fala demais...É... Então...foi (riso fraco), mas é isso. Eu liguei mesmo prá saber de você e lhe dar um abraço... É, um abraço via Embratel (riso melhorado) Não sei, mas sei que queria lhe falar ou melhor, queria ouvir sua voz e... (intervalo) Desculpe Carla, só acho que somos adultos... É, foi um happy hour de negócios e...(intervalo) é... Mas então, não retiro o meu prá saber de você e olha, já estão chamando o meu vôo, desculpa de novo e vamos mantendo contato! Grande abraço.

Desligou, ficou olhando pela porta de vidro e caminhou para o banheiro. Se ele estava no meu vôo, mentira, pois estávamos com atraso e, ademais, não ouvi chamado nenhum na sala.

Praça de Alimentação, Shopping Higienópolis:

- Daniella (seria com dois eles?), você tem que entender o ponto de vista do pai, caramba!

- Eu entendo, claro que entendo. Mas se fosse para ir para Israel ele topava no ato!

- Bom, aí já é discutir as tradições familiares. Foca no seu objetivo Dani.

- Vou estudar também, ué?

- O forte lá é mesmo caminhadas, esse negócio de esportes radicais. A mãe tem medo disso, você sabe...

- A mãe tem medo de tudo!

- Pega leve... (pausa nas duas que engolem montes de sorvete) Vai dar algum diploma esse tal de curso?

- Dá um certificado. Com ele, se eu for fazer faculdade na Austrália, por exemplo, posso eliminar quase um semestre inteiro do meu curso.

- (tomando água) Que curso é esse, Dani? Cê não falou de faculdade, e ainda por cima, na Austrália?!

- Deborah (o agá é por minha conta), deixa de ser songa menina! A Austrália é ligada ali, meia hora de avião!

- Mas é outro país, menina, e songa é a mãe!

- Mas a empresa tem convênio com a faculdade de lá...

- Faculdade ou universidade?

- É tudo igual, pessoa, igual. Curso superior e pronto.

- Curso do que, Dani?

- (boca cheia de sorvete) de Meio Ambiente, pô, eu já falei, Meio Ambiente

- Gestão Ambiental?

- Não é de administração. É de manejo de trilhas, cachoeiras, vulcões, rios...

- Nem tem vulcão no Brasil, cara...

Era hora do meu encontro. Levantei-me e fui.

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 13h09
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Especialistas demais

Ontem um amigo me mandou um email dando conta de que temos, na cidade de São Paulo, um “Hospital do Homem”.  A nota explica que foram investidos 2,0 milhões de reais em 1,1 mil metros quadrados no antigo Hospital Brigadeiro, à Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, na região central da Capital. Lá é possível fazer vários exames específicos dos males que atingem os homens, desde problemas renais até diferentes tipos de câncer. Na mesma região, o Hospital Pérola Byington é também focado na “saúde da mulher”. Nada tenho contra centros de excelência ou especializações que concentrem atendimento público em qualquer das áreas em que o Estado tenha o dever de atuar atendendo o contribuinte. Na área de saúde isso é importante. Suponha uma simples observação clínica de um paciente por dois ou mais especialistas que podem, nos casos de dúvida, ser convocados estando a metros de distância daquele doente. É um ganho.

Mas o que me faz comentar o caso da especialização é o fato de que os governos, no Brasil, sempre tratam de criar um órgão especializado para com isso mostrar à sociedade uma suposta solução para os problemas naquela área. Vejamos os ministérios: o da Pesca, por exemplo, é mesmo necessário? Não é possível trabalhar essa questão a partir de um departamento, uma secretaria, por exemplo, dentro do Ministério da Agricultura ou no do Comércio e da Indústria? E porque precisamos de um ministério da “Integração Racial”? Essa não é uma questão dos Direitos Humanos? Já não temos um órgão voltado para esse assunto? Ministério da mulher? O que faz mesmo um ministério para isso? Nessa linha de raciocínio (a de criar ministérios para cuidar de assuntos “delicados”) teremos ministério da criança (Estatuto já temos. É preciso que a Justiça exija o seu cumprimento), do idoso, dos gays e lésbicas, e vai por aí. Quando acreditamos nas nossas instituições não precisamos apelar para essas “especialidades” de forma tão centralizada. O que a sociedade precisa é de um Estado presente que atenda a todos igualmente, com respeito e dignidade. Criar ministérios e secretarias para assuntos que devem, obrigatoriamente, fazer parte do cotidiano de outros ministérios ou secretarias é uma solução absolutamente político/oportunista. Se duvidar, entre nos sites desses ministérios para ver o que, de fato, foi feito nesses últimos oito anos, quando foram criados.

Uma dessas criações que me parece pertinente é a Delegacia da Mulher. Não que ela não pudesse ser um departamento em todas as delegacias de polícia do país. De qualquer forma valeu porque, em tese, presta um melhor atendimento, de momento, àquelas mulheres mais humildes que precisam de auxílio e orientação e podem falar mais à vontade com alguém do mesmo sexo. Mas não vai muito além disso. Os noticiários estão cheios de casos de mulheres que deram queixa de violência, por exemplo, e como nada foi feito em termos de investigação ou coibição aos seus agressores, eles voltaram a agir matando as queixosas. Um deles o fez sob as câmaras que uma cabeleireira havia colocado para denunciar possíveis agressões...

Voltando às instituições. A questão é vê-las funcionando, enxutas e de maneira eficaz. Um time de especialistas é um procedimento normal em qualquer organização, sobretudo no Estado. Assim, socorristas atuando no resgate, médicos, biólogos e bioquímicos atuando no atendimento de determinadas doenças devem compor as Secretarias de Saúde em qualquer nível do Estado brasileiro. Da mesma forma, na área da Justiça, do ministério público, da educação e da segurança. Criar ministérios e secretarias com nomes pomposos e cheios de discursos não se traduz em efetiva atenção para aquelas questões. Nos últimos oito anos o governo, ao invés de promover a integração efetiva desses tantos assuntos importantes, tenta fazê-lo pela caneta: cria cotas preconceituosas, quer obrigar a crianças a encararem peixe na merenda escolar e enche as faculdades e universidades particulares de bolsistas sem base educacional para cursos (em grande número) sem qualidade e deixa a educação de base solta e pobre, tomando dos municípios o dinheiro que lhes é devido para depois repassá-los à base de negociações políticas, muita festa e pouca eficácia.

Se a União não ficasse com a grande massa dos impostos arrecadados pelos Estados e municípios, seria bem mais fácil participação da sociedade no processo de gestão dos recursos públicos para todas as áreas. Já quando a mistura dos recursos e sua má gestão acontecem lá em cima, tudo fica mais difícil...

A propósito: Dá para acreditar nas decisões imparciais do STF contra o lulismo quando a grande maioria dos magistrados foi indicada pelo cultuado ex-presidente?

Eis porque é difícil acreditar em nossas instituições.

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 12h59
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LEITURAS

                

Ganhei de minha filha Camila o livro “Conversas com Woody Allen” no ano passado. Claro, eu já conhecia Woody antes de conhecer a mãe dela. Só que hoje, a cineasta é ela e entende mais desse diretor do que eu. O livro é um condensado de entrevistas que o autor, Eric Lax, conseguiu com Allen desde 1971 e absolutamente revelador de como o diretor, de pouco público e muitos críticos, tornou-se um dos grandes nomes deveras consumados no cinema do século 20 e segue sendo no século 21. Com as entrevistas gravadas, Lax vai reproduzindo diálogos e acrescentando comentários à trajetória de Woody Allen. Nas primeiras páginas ficamos sabendo, por exemplo, como foi a infância do diretor no Brooklyn no tempo da Segunda Guerra, quando os pais ouviam rádio jogando cartas ou tricotando. Foi daí que surgiu “A Era do rádio” (1987).  Eu cheguei a pensar que havia algo de real quando ele mostra uma família judia que morava sob uma montanha russa, num parque de diversões, em outro filme. Bom mesmo é se a gente puder assistir aos filmes na medida em que lê o livro. Não o fiz. Assistir aos filmes do diretor Allen é sempre bom, mesmo aqueles nos quais ele não estava nos seus melhores dias. Eric Lax trata também dos romances da vida real vividos pelo cineasta. Meu interesse maior, é claro, era por saber sobre Diane Keaton com quem Allen viveu e ganhou Oscar de melhor direção e roteiro em 1977 com “Noivo neurótico, noiva nervosa” (Annie Hall). A relação com Mia Farrow é abordada superficialmente e, claro, não se fala da escolha de Allen pela filha adotiva com quem se casou e com quem vive até hoje. Farrow ficou piradíssima com aquela história... Uma de suas novas musas é Scarlett Johansson que contracena com Penélope Cruz e Javier Barden em “Vic, Cristina e Barcelona” (2008) . Allen explica que sua primeira opção para o papel que viria a ser de Johansson era a inglesa Kate Winslet que acabou desistindo do trabalho em razão da maternidade. O diretor é famoso no mundo do cinema por rodar muitas cenas que não são aproveitadas ou por repetir com detalhes algumas tomadas à exaustão. Ele explica que, sobretudo nos anos 80, suas obras careciam dessa criatividade e alguma obsessão pelo perfeito. Não fala se hoje ele mudou mas, com certeza, seus financiadores sim. Sua opção por filmar na Europa, explica, é que lá os acordos financeiros são melhores do que nos EUA e porque gosta do sotaque dos ingleses e da paisagem dos muitos países europeus. Quando descreve seu encantamento ao filmar, em Londres, “Match Point”, Allen se empolga com a diferença entre Londres e NYC: “É um presente de fato. E como não têm as mesmas limitações sindicais que nós temos, trabalham de um jeito muito mais livre...um stand in de iluminação pode pegar um megafone e orientar o trânsito por um momento. É que nem filmar com estudantes, no melhor sentido. Todo mundo faz tudo. Eles simplesmente não trabalham de modo regimental com que trabalhamos aqui (EUA). Por exemplo, quando saímos na rua em NYC, temos um milhão de assistentes de direção controlando a multidão. Lá não tem nenhum controle de multidão. Às vezes alguém olha para a câmera e eles fazem outra tomada. É uma coisa muito solta, muito relax...” Sobre escrever livros, Woody Allen é enfático:  Parei de escrever textos eventuais e escrevi um romance, mas não gostei do resultado. Então voltei a escrever textos eventuais. Pelo menos aprendi que escrever um bom romance não é tão fácil quanto se pensa, não importam o tempo e a energia que você coloque naquilo. Mas fui sincero comigo mesmo ao tentar. Não quer dizer que não venha a tentar de novo, em algum momento.” Para quem gosta de cinema, do humor e das abordagens de Woody Allen, o livro é interessante e não carece de uma leitura interrupta.

LAX, Eric. Conversas com Woody Allen: seus filmes, o cinema e a filmagem. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

Muito bom mesmo!

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 13h26
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