MARKETING DA SANDY
O CICLO DE VIDA DO ARTISTA: Não é a primeira vez que abordo o tema e os personagens. Tenho uma grande curiosidade mercadológica por dois personagens da música pop brasileira. Falo de Sandy e seu irmão Júnior, que o Brasil conhece de sobra. Crianças bonitinhas, eles começaram aos seis e cinco anos, respectivamente, na TV, impulsionados pelos pais (o pai é o também cantor sertanejo Xororó) com o sucesso da regravação de “Maria Chiquinha”. Daí para frente foi um sucesso só e a dupla bateu grandes recordes no mercado fonográfico brasileiro. Desde 2004, no entanto, os dois estão numa grande gangorra entre a continuação da dupla ou a carreira solo. Ambos são talentosos e têm o CPF gordo. Dá até mesmo para se aposentar. Mas não é isso o que querem, dá para perceber. Ela fez um balão de ensaio com uma apresentação no Bourbon Street, em São Paulo,onde cantou clássicos do Jazz e da Bossa Nova, ritmos que, segundo ela declarou à época, canta no chuveiro. Para o lançamento do novo CD da dupla agora em 2006, (que a imprensa dizia que não sairia mais) eles fizeram várias tentativas de mudança. Ela pintou os cabelos de vermelho e se disse “nada certinha”, respondendo às críticas de que tem a imagem de eterna virgem. Ele abordou um tema espinhoso com tranqüilidade. Disse que o chamam de gay porque têm inveja de seu sucesso, o que é bem possível. Mas a ousadia ficou aí. As músicas, dizem, são um pouco requentadas e uma delas faz referência às questões pessoais como essa dos “certinhos”. Também inovam no instrumental mais clean. Mas o ritmo está lá. O ponto é que ela já é moça feita, deve ter vida própria e o seu público cresceu. Esse público está mais para vê-la sensual e cantando temas e ritmos mais adultos. Com ele também se dá o mesmo. Ela tem voz boa para o Jazz e para a Bossa Nova. Está ali na linha pela qual se enveredou Maria Rita. E ele, um instrumentista, arranjador e até cantor. Mais importante, os dois tem dinheiro para fazerem a arte que quiserem. Como será então a virada? A tibieza nesse sentido é clara. A moça pinta os cabelos para ser ousada e tira fotos mais adultas. Mas tudo é o mesmo e o termômetro não chega a se alterar. Ele é mais ousado e fala que quer músicas e arranjos avançados. Um bom discurso, o deles. Falta mesmo é a prática. Não é só de voz que vive o artista. As pessoas compram discos e vão aos shows porque têm simpatia e alguma atração pelo seu ídolo. La Sangalo, por exemplo, sabe o valor de suas pernas, embora tenha um vozeirão e uma ginga capaz de incendiar um estádio inteiro. Daniela Mercury turbinou-se já quarentona na mesma linha. Bono Vox sabe que, além das músicas, sua ação política tem peso na carreira. Do ponto de vista da reciclagem do produto, a dupla continua na quebra da curva. Uma carreira solo, eles e seus agentes sabem, é fundamental para cada um deles. A vida útil da dupla infantil e adolescente já deu tudo e está respirando com ajuda de aparelhos. Esfriar é que não pode.
Curiosamente, a saudosa Cely Campello, que foi um sucesso de música jovem nos anos 1960 com seu irmão Tony, casou-se e foi morar em Campinas onde viveu até 2003 quando foi vencida por um câncer. Sandy não tem cara de quem vá se dedicar apenas ao lar. Pelo menos tão cedo. Mas mora em Campinas. E então?
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 14h42
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CAMPO POBRE E TURISMO
PEQUENOS AGRICULTORES E O TURISMO: Na semana que passou visitei uma zona rural na região que fica entre Igarata e São José dos Campos. Os morros que são contrafortes da Serra da Mantiqueira cercam o altar da natureza onde ficam Campos do Jordão, Monte Verde e Maria da Fé e formam as pequenas propriedades rurais cujos donos lutam com dificuldade para se manter e continuar a tradição de suas famílias. A cultura local é a do gado leiteiro cujo produto é vendido para uma cooperativa. Vacas leiteiras com aquela expressão de enfado ruminam junto às cercas à beira das estreitas estradas de terra cheias de curvas. As cercas estão em mal estado e as instalações são precárias. Fazem o que podem.Terreno plano não existe. Ou se está na várzea ou no morro. O proprietário de um dos sítios brincou: “não é muito grande, mas se esticar o morro, dobram os alqueires”. Ali quem tem trinta alqueires tem um fazendão dos bons. Mas a maioria delas não é bem tratada, nem têm boa aparência. Têm, isso sim, sinais de muita luta para sobreviver. Poucos empregados e a dedicação integral das famílias. Um deles, de uma sinceridade tocante e menos de quarenta anos de idade com aparência de quarenta e cinco para cima, contava a sua trajetória nos últimos anos. Estava para perder a propriedade que tem menos de três alqueires (menos de 72.600 M2) porque foi se endividando com a cooperativa de leite da qual fazia parte. Precisou de um dinheiro aqui e outro acolá e recorreu à cooperativa (“quando fundamos era a nossa salvação”) e se viu enroscado na dívida. Quando achava que tudo estava perdido, apareceu um bom conselheiro que o convenceu a tomar o rumo da iniciativa própria. Começou então a desviar parte do leite para fazer queijos e doces e vender de porta em porta e mercados e quitandas nas cidades. Quando a cooperativa desconfiou, chamou-o às falas. Então ele criou coragem. Deixou de vender o leite para eles e aumentou a sua produção “natureba”. Então, explicou ele, eu passei de uma renda de setecentos Reais mensais na minha propriedade para dois mil e trezentos. As aspirações desse tipo de homem do campo são pequenas. Sobreviver da terra e mantê-la para o sustento dos filhos e, quem sabe, dos netos. Planos de saúde, faculdade dos filhos, estética bucal e Internet não fazem parte do seu cotidiano. Mas são informados sobre o seu metier. Lêem suplementos agrícolas, assistem aos jornais da TV (questionam o gasoduto que passa por várias propriedades da região e que o Evo Morales quer tomar: sai pra lá, dizem) e têm um interesse distante em saber o que esse negócio de turismo rural pode fazer para melhorar a sua renda. A maior proximidade que eles têm com um equipamento de turismo é aquela de vender alguns produtos para hotéis da região. Mas poucos fazem isso. Na verdade, nem sabem o que vem a ser turismo. Não importa. Se puder trazer mais renda, existe a curiosidade. Juntar o pessoal para saber sobre o tal do turismo é outra história. O dia começa às quatro e meia da manhã para entregar o leite às sete horas. Depois têm que cuidar da limpeza. Depois o capim: cortá-lo para dar ração ali pelo meio dia. As dez e trinta ou onze horas, têm que parar para o almoço, que é rápido. Mais algumas obrigações e já é hora da segunda ordenha. Depois, toca separar os bezerros e guardar o leite no refrigerador para entregar amanhã cedo junto com o recém tirado. E a hora para ouvir sobre turismo? Bem, a gente acha uma hora à noite, mas depois das sete e meia, o pessoal não agüenta de sono. Só mesmo se for festa. Corta a cena. Black-out.
Abre a cena para o acampamento do MST e veja se tem alguém capaz de fazer isso tudo com amor pela terra que um dia o avô ou o pai, deixou para ele. Pequeno proprietário rural tem vida difícil. No Brasil, nos EUA, no México e, pasme, na França, muitos completam a renda com trabalho duro para terceiros. Meninas como domésticas, rapazes como mecânicos e os genros e noras, acabam morando lá também. Onde comem três, comem seis. E a mão-de-obra custa menos. Pergunte a esses pequenos proprietários se um sujeito que vem da periferia da grande cidade invadindo terras de criação de gado, vai fazer essa vida de criar, pastorear, produzir e vender na cidade os seus frutos. Pergunte.
Bom seria se os deputados e senadores, juízes e policiais saíssem um dia a conversar com esses verdadeiros homens do campo que estão ali, dando duro e quietos, fazendo por si e pelo país. Enquanto isso, bandos de desordeiros, aprendizes de criminosos, liderados por JP Stédile, invadem, destroem, seqüestram, extorquem e ficam impunes. Vivemos mesmo numa terra de contrastes ou do faz de conta, como bem disse aquele juiz do STF que, aliás, nos últimos tempos tem soltado os suspeitos de crimes ligados ao governo do PT.
Se duvidar, visite a região. Eu posso dar o mapa.
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 22h24
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