COMPORTAMENTO
BRICOLAGEM SOCIAL:
No aeroporto: Aeroporto Santos Dumont, Rio. Paletó na cadeira ao lado, gravata afrouxada e botão do colarinho desabotoado. Palm top na perna cruzada sobre a outra, assim, igual às mulheres, e o celular no ouvido, suportado pelo ombro encolhido. Uma posição para fisioterapeuta nenhum botar defeito. É o que eles querem para consertar depois. O diálogo de um lado só: “você sabe que não é assim. Eu tenho feito o que posso, eu não... (silêncio) eu sei pô, é que... (silêncio de novo) Não é assim. Trabalhamos muito pra pouco dinheiro. Você sabe. E depois eu (silêncio) Porra! (falando mais alto) Não é que eu não seja paciente e compreensivo, mulher! Sei que o filho é meu também, Agora você vai me ouvir! Eu tô falando, e você vai ouvir, é isso mesmo. Eu sei das minhas obrigações (pessoas nas cadeiras próximas dão uma olhada discreta para o briguento). Você é que quer transferir para mim obrigações que são suas, de mãe! Conversa!!” (os mais próximos olham de novo, já não tão discretamente) Os dedos da mão direita do nervoso trabalhavam no palm top, empurrando aquele minúsculo lápis para cima e para baixo. “Tô te ouvindo, claro que to. Eu devia era desligar. Já te ouvi muito tempo Mariana, muito tempo. Criança passa por isso mesmo. Você tá é me enchendo o saco, só pra se vingar, olha (silêncio. A mão e os olhos, concentrados no palm top) Olha (silêncio) Olha só (silêncio)”. Mariana escuta, Mariana, Tão chamando o Vôo, tchau. Fechou o celular e olhou de lado, com um suspiro. Por sorte não olhou para mim, bem em frente. Ou teria olhado? Pegou o paletó, a maleta e caminhou lentamente para o sanitário. Acho que foi lavar o rosto...
No ônibus:
Trecho da rodovia Fernão Dias, entre Bragança Paulista e São Paulo. Duração do trajeto, oitenta minutos. Nos bancos da direita, à minha direita, duas mulheres conversam. Não se lhes vejo os rostos. A da janela, com aquele sotaque caipira que, aos menos avisados, pode parecer um texano falando português: “num entro nôtra robada dessa nunca, meu. Era tudo modelo, gente cumprida e que fala inglêis. Na bolsa duma delas, eu vi, minina, eu vi, tinha mais de oito par de sapato. Era uma robada, eu vi de cara e nem chegada, caralho, já queria voltá. Pior que nem grana eu tinha. Por sorte, que Deus ajudo, fiz um trabalho. Foi o único e com uma pessoa que me entendeu, senão até pra voltá ia sê barra. Uma robada, uma robada” A outra: “Diz que de ônibus pra lá é doze hora”. A da janela: “Mas o Carlão falo que de avião fica em duzentos e oitenta e cinco e dá uma hora. Vô de avião, meu”.A do corredor: “Sei não. Deixei grana pra minha mãe comprá os remédio da (incompreendido) porque, porra, é uma grana que esse médico passou, é merda atrás de merda. A da janela:”Festa de peão ta ficando fria. Essas mulhé vêm de carro e falano inglêis. Manequim, meu, manequim que até eu encarava”. A do corredor: “ O Odilon (presumido) disse que se souber que to num trabalho barra pesada ele me mata e carrega a minina”. Foi demais. Tratei de cochilar.
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 14h10
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