TRÉPLICA DO FRANCÊS
Meu Cher Amigo Veloso,
Ai ! Cher Ami Veloso, você botou o seu dedão na minha ferida de mestiço mal assumido, no entanto gostar do Brasil é a parte assumida do meu ser divido. Todas essas mazelas paulistanas, não são a árvore que me esconda a floresta... Sei da mazelas da minha fresca pátria a mais visitada do mundo. Morando aqui, naturalmente o foco das minhas observações é tupiniquim... Não deixo de concordar com a sua reação rebelde, com os rechaços do mau colonizador culpado de todas as calamidades do nosso querido país do futuro, protegido por um Deus, proclamado Brasileiro, o que torne a critica delicada. Ao ler seu texto parece que foi a França que colonizou o Brasil... E parece também que a sua fonte inspiradora tem como credo o neoliberalismo... Isso dá a sua curta e saborosa analise um tom um pouco maniqueísta!
Mas sejamos serio você é um dos poucos que me inspira respeito, carinho e amizade.
Um forte abraço,
Claude Coja
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 11h44
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Resposta do Blogueiro
Monsieur Coja
Concordo parcialmente com algumas de suas observações. Por outro lado, tendo em conta o seu conhecimento pátrio e sua larga visão de mundo, peço licença para sugerir um texto de semelhante análise com a cidade de Paris.
Temo que o senhor encontre por lá muitos representantes daquela geração que foi, não é mais e pensa ainda ser. Temo que o senhor encontre aqueles que, escudados por um regime semi-social insustentável, busquem cobrar do Estado, aquilo que o Estado não mais lhes pode dar. Temo que o senhor encontre por lá, intelectuais que, escudados na ambição desmedida e na balbúrdia política dos republicanos estadunidenses, culpem a América e a Inglaterra pelos desmandos do mundo enquanto geram nas entranhas parisienses uma geração de mulçumanos que um dia foram colonizados e hoje são fetos do terror. Temo que o senhor encontre uma corrupção endêmica acobertada pelo discurso social e antiglobalizante que serve de cortina de fumaça para as mazelas sociais, sobretudo com os imigrantes cidadãos.
São Paulo é resultado de um período de dominação extrativista, não de colonização. A verdadeira colonização chegou de fato no século 19 com a indústria na visão dos imigrantes europeus. As elites paulistas e paulistanas foram beber do saber na fonte parisiense e foi de lá que copiaram o bem viver e as lutas pela igualdade desde, claro, que essa igualdade não lhes abocanhe o patrimônio. Mas essas elites paulistanas que copiaram o modelo intelectual francês, não tinham em suas origens a ética protestante que, de acordo com Werber, impulsionou o lado Norte do continente Americano. Além disso, as tribos paulistanas a que o senhor se refere refletem ainda o modelo francês de viver bem e esquecer o que se fazem nas colônias, aqui traduzidas nos bolsões de pobreza de nosso país.
Curioso é que o senhor parece amar esse paraíso de contrastes.
C´est la vie...
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 11h38
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texto do francês
Claude Coja
Nos meus dias sem sol concordo com os meus compatriotas antropólogos franceses achando que São-Paulo é uma terra que passou da barbaria à decadência sem conhecer a civilização... Cidade do Novo Mundo indo do viço à decrepitude sem para na idade madura. Cidade reduzida a sua estrita função urbana esvaziando os espaços de memórias e de reflexões; uma cidade que não olha a sua identidade no espelho da sua historia. Aqui, ao contrário da Europa, as marcas do tempo inscritos na pedra são os sinais da decadência. O foco obsessivo é o novo, vemos bairros nobres onde surgem prédios tão brilhantes, tão alegres, parece uma feira internacional, construída para poucos meses. Após do prazo a festa termina, e os prédios viram bibelôs e fenecem, as fachadas descascas, e o estilo sai da moda, e o bairro perde o seu estatuto de nobreza...
Protegido nessa fauna de concreto, na selva dos condomínios de luxo encontramos a elite paulista. Uma sociedade restrita, fechada, tribal, distribuindo os papéis entre si, desfrutando de todas as delicias da civilização, venerando de joelho o Tio Sam, a cultura Européia, e virando as costas ao povo faminto. Os nossos amigos paulistanos novos ricos, não são propriamente pessoas, são funções. Menos que a nossa disponibilidade, o que determina a lista dos eleitos na tribo é a hierarquia da importância das funções. Pouco vale o que você é realmente, mas vale o que você representa, e em cima de todo, o que você tem. Assim temos nos moldes de Mussolini, e de Salazar, com os requintes de Vargas (aqui não é um fascista, é o pai da nação...) uma classe media adestrada aos modos behavioristas. Classe petrificada nos seus reflexos pavloviano corporativista, com uma visão social reduzida à zero, e com uma ética a duas mãos; uma atrelada ao porte moeda, outra mergulhada na água benta. Nessa selva relacional, quando dois indivíduos, após uma manobra em falso, por ciúmes, o por uma palavra a mais, vejam que ocupa o mesmo terreno; o terreno demasiado próximo; vemos surgir uma idéia obsessiva; destruíram-se mutuamente, demonstrando nessa tarefa uma tenacidade, uma ferocidade antropofágica. Em compensação, entre feudos vizinhos há uma troca requintada de reverencias, cada um altamente interessado em defender o seu papel, e buscando aperfeiçoar esse samba antropológico do crioulo doido no qual a boa sociedade paulista encontre um prazer sem fim. Aqui, o meu Moliére poderia reescrever "Tartuffe", e "Le Bourgeois Gentilhomme", com todos os requintes de uma sociedade fechada atrás das grades dos seus Guetos intelectuais e Provincianos. Reconheço que o desempenho dos papéis tem brilho; cada um é aplicado a representar o melhor possível o seu papel, reconstituindo assim nesse microcosmo o grande jogo da civilização, tal como foi aprendida em curtas viagens turísticas, para mostrar na volta essas lições aprendidas para Inglês ver... Espetáculo um pouco deprimente de ver nessas mãos a cultura reduzida a um brinquedo para ricos.
Felizmente, podemos acreditar na sabedoria do I Ching, essa pequena sociedade atrofiada culturalmente terá destino de todas as classes sócias decadentes através da historia; será derrubada pela sua própria obsolescência.
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 11h36
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