Blog do J Ruy Veloso


A VISITA DE GOLBERY

DESÂNIMO POLÍTICO: Golbery passou, nessa semana que se finda, pelo Brasil, depois de quase vinte anos descansando no além. AchOU que o tempo havia parado. Mesmo vendo celulares e Internet. Ele olhou diretamente para as casas legislativas e para o Palácio do Planalto. Espantou-se com a farra de perdões que ocorreu na Câmara, com os deputados acusados de corrupção. Espantou-se ainda mais com o Sarney atuando nos bastidores para manter um comunista fichado na presidência da Câmara e aquele advogado sem expressão, lá de Alagoas, na presidência do Senado. Ele perguntou ao Sarney, qual o segredo para continuar aqui na terra e ainda por cima cada vez mais rico. Sarney  respondeu que está no fim da vida. Até a eleição no seu Estado (“seu” aqui está corretamente colocado, no sentido gramatical, um pronome, de posse, propriedade e do sentimento de patriarcal, oligárquico de domínio) ele perdeu. Mas vejam só, disse Golbery, o Geisel não vai acreditar. Aquele operariozinho grevista, cujo irmão era um comunista, chegou ao poder! E todos aqueles inocentes úteis estão lá! Na sua rápida conversa com Jarbas Passarinho e com Jarbas Vasconcelos, viu que os tais inocentes não são mais tão inocentes assim. Alguns valorizam até as horas que passaram presos e sob interrogatórios (olhem, meus caros Jarbas, sempre fui contra a tortura) para com isso ganharem milhões do Estado Brasileiro. Mas isso não se lhes basta? A pergunta de Golbery foi respondida com um movimento de cabeça por Hélio Pereira Bicudo, já cansado de ver de perto tanta safadeza do PT. Saiu do PT doutor Hélio? Perguntou Golbery incrédulo! Então ouviu sobre tudo: mensalações e mensaleiros; jipe, dossiê, campanha, Canal 21, Revista Isto é, Marco Aurélio e a imprensa etc. Golbery ficou boquiaberto: e pensava que nós éramos centralizadores, quase despóticos, semi-totalitários, censores e tudo o mais, oh, mea culpa que não acaba jamais! Santo Deus, não se vai cassar essa gente? Onde estão os colegas de farda? Bicudo fala mansamente e explica quem tem de fato a força bélica e o controle da situação. Golbery tem os olhos cheios de lágrimas. Bicudo vai lhe buscar me refresco de graviola. O velho maquiavélico se recompõe. Dá uma pausa e volta à carga: tem certeza de que o tráfico é mais forte do que as armas? O que é isso “tá tudo dominado”? Bicudo lembra a frase de Figueiredo sobre o dia em que o morro resolver descer para a cidade. Eu não gostava dele, diz Golbery sem rodeios. Não do morro, quero dizer do Figueiredo. Nunca pegou num livro. Mas se ele disse e eles estão descendo e roubando todo mundo, provavelmente foi o SNI que lhe passou essa projeção. Tínhamos muitas projeções para o final do século, caso a pobreza fosse mantida. É isso mesmo. Para segurar essas massas há que se abrir espaço para os investimentos que vêm de fora, da China provavelmente, é o que nós (ouvindo a CIA) projetávamos na época, para hoje. Mas vão ou não cassar esses deputados e juizes que fazem leis para se beneficiarem? Olha doutor Bicudo, nós erramos feio na supressão das liberdades, isso foi fato. Mas me aponte um militar que tenha ficado rico com os anos de chumbo. Conhece algum cujo filho se associou ao Roberto Marinho, que era o nosso patrono das comunicações? Isso não. Nunca. E no nosso tempo, mantínhamos a lei. O tráfico não tinha vez. Chegaram Maria Conceição Tavares e Airton Soares. Cumprimentos, elogios à plástica de cada um e despedidas. Mas já? Dizem os recém chegados. Preciso ir, diz Golbery. Hoje tem reunião festiva da velha guarda. Vocês nem imaginam. Vai de Castello Branco a Mário Covas e Guarnieri. A vantagem é que lá eu posso elogiar os contestadores sem medo de ser infeliz. Ah, Airton, fale com o Serra e venham discutir com o doutor Bicudo. Cassem esses corruptos e articulem com Putim o fim do Chaves. O Morales vai fácil, com um pó turbinado cuja tecnologia o FBI tem desde o tempo da M. Monroe. É preciso dividir, meus amigos, ou ninguém governa com essa gente nordestina empoleirada no legislativo. Vou que me esperam. E saiu.



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 14h32
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O CAFAJESTE

O BOCA DE OURO: Lá se foi o “Boca de Ouro”, o grande cafajeste do cinema nacional. No cinema, como na vida real, ele usufruiu as carnes tentadoras do mulherio das telas, quando ser da tela não significava a fama e o dinheiro que significam no ano 2000. É claro, falo de Jece Valadão.  Jece não era carioca de nascimento, mas o era de espírito. Parente de Nelson Rodrigues foi eleito por ele o tipo perfeito para os seus personagens. Se auto intitulou cafajeste. Encarnava um tipo de malandragem que morreu no começo dos anos 1970. Uma malandragem quase sadia, de mulheres, infidelidade, moralismo rodrigueano, maneirismo carioca e brasileiro cheio de vantagens malandras. Um malandro mexerica, gente da Zona Norte, vivendo à sombra da Zona Sul, ali no Rio, quando ainda se falava em Chagas Freitas, havia um cinema nacional, biquínis, lotação com o motor na frente, o Grande Otelo dando boas risadas e o Osvaldo Massaini, fazendo e distribuindo filmes Brasil afora. Ora, comer a Norma Benguel ainda era uma fantasia no imaginário masculino. Não demorou muito e já veio a Sonia Braga. E tudo se transformou através da Vênus Platinada. Um gaúcho foi eleito governador no Rio, os bicheiros sentaram-se à mesa do planejamento, o pó branco que mata substituiu os PDV do bicho e os bons favelados que Marcel Camus mostrou em “O Orfeu do Carnaval” (Palma de Ouro em 1959) se transformaram num grande exército de crianças matadoras, cheias de armas que foram usadas na guerra do Vietnã. O cafajeste virou mingau de Maizena. Entre 1967 e 1969, ele interpretou figuras perigosas da época: “Mineirinho Vivo ou Morto”, “A Lei do Cão”, “Paraíba, Vida e Morte de um Bandido”. No mundo de hoje, tudo brinquedo de criança. Mais ingênuo do que o Counter-Strike que os garotos jogam nos computadores. Ah, Jece, que passou de comedor à crente. E dizem as boas línguas que foi graças a sua ex-mulher Vera Gimenez, essa sua conversão. Aos setenta e seis anos, era um evangélico severo. No auge do sucesso, Vera Gimenez (que é mãe de Luciana Gimenez com outro marido) era cobiçada, caçada e povoava o imaginário dos ricaços do eixo Rio São Paulo. Nem cafajeste agüenta assedio a mulher bonita, quando ele é o marido. Jece Valadão era só um homem, com amores, temores e um grande sentimento machista, próprio de sua época. Morreu inocente, engolido por um mundo que nem ele e nem Nelson Rodrigues, chegaram a imaginar.



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 08h32
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POLÍCIA ESQUECIDA

UMA QUESTÃO DE JUSTIÇA: Em qualquer lugar do mundo, polícia é sinônimo de polêmica. Seja por sua atuação nem sempre acertada, seja por corrupção ou por heroísmo anônimos. São os centuriões dos tempos pós-modernos. Recentemente a Inglaterra, onde seus “Bobs” sempre foram famosos por evitar o uso de armas, viu-se envolvida, através de sua polícia, na grande polêmica sobre a morte de um brasileiro confundido com um possível terrorista. São tempos difíceis. Forças policiais são quase sempre esquecidas pela sociedade, em especial pelas classes média e alta, que só se lembram delas quando se vêem acuadas por criminosos ou quando lêem nos jornais notícias sobre corrupção policial e seus crimes corporativos. Mas dependem deles para a segurança de seus filhos e de seu capital. O Brasil não é diferente. Mas é pior, se comparado com outros países mais desenvolvidos. O período de ditadura militar entre os anos 1964/1984, levou parte da população mais esclarecida a associar polícia à repressão de liberdades, prisões e torturas, o que de fato aconteceu. Mas aquela realidade não justifica o abandono do investimento nas forças policiais, como fizeram os governos federais e estaduais que sucederam os ditadores. Os centuriões cumprem o que manda Roma, essa é a lógica policial. Tivessem os governantes investido em equipamentos e inteligência e melhorado as condições salariais de suas polícias, o cenário do crime organizado seria diferente, menos perigoso e menos agressivo. Não quer dizer que o crime fosse desaparecer, mas teria mais dificuldades frente a polícias mais sólidas e comprometidas com a lei. O ministro Thomaz Bastos mostrou que é possível melhorar uma força policial, administrando com competência a Polícia Federal. Infelizmente, tudo leva a crer que o aparelhamento tecnológico da PF passa também pelo aparelhamento ideológico e que, numa virada para um regime a lá Chaves, aquela corporação vá servir, e bem, a Roma do momento. Tudo isso para registrar que o governo de São Paulo promulgou a lei 12.401 que dá direito a indenização às famílias de policiais mortos fora do serviço durante os recentes ataques atribuídos ao PCC, (e que tem Raízes nas FARC / MST) com o objetivo de desestabilizar a campanha de Geraldo Alckmin. No total, quinze famílias serão beneficiadas, mas é muito pouco. Tem que mudar mesmo é a cultura. Sempre que morrem bandidos e presos, aparecem padres e ONGs de defesa dos direitos humanos que, diante das câmaras, denunciam quase sempre a polícia e os governos. Já quando morre um policial, nenhuma autoridade aparece. Parecem ter vergonha das corporações. Nem mesmo a organização dos sepultamentos recebe a ajuda logística dos comandos que deveria receber. Está errado. A polícia não é santa. Comete erros e têm criminosos, assim como a igreja tem seus pedófilos. Mas tem também profissionais honrados e que cumprem seu dever. Precisamos mudar a forma de administrá-las. Tornar as carreiras mais atraentes e as punições mais rápidas. Mas, sobretudo, é preciso respeitá-las e valorizá-las. Sem elas, não vamos muito longe nesses tempos de violência com tecnologia.



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 11h35
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