A TAM TEM SAUDADES
ROLIM AMARO E A HABILIDADE GERENCIAL: Por muitos anos fui um “cliente defensor” da TAM. Voei para o interior de São Paulo naqueles turbo-hélice F-28 lá no começo dos anos 1980, torcendo pelo empreendedor Rolim Amaro, que poderia (e foi) ser um concorrente indomável para a Varig, a Transbrasil e a Vasp. Quinze anos depois, lá por 1995, os F-100 dominavam o país com seus tapetes vermelhos, seus bons serviços de terra e de bordo e o carisma do comandante Rolim que compraria uma empresa Sul Americana, encomendaria novas aeronaves e marcaria presença nas manhãs frias ou quentes no aeroporto de Congonhas. Era uma época em que “escrever para o comandante” dava certo. As respostas chegavam nos terminais do check-in. Eu vivi isso. Quando um dos valentes F-100 caiu perto de Congonhas matando todos os seus ocupantes, fui um dos que mandou mensagem para o Rolim: continuamos acreditando na TAM, o senhor tem a nossa solidariedade! Os vôos continuaram pontuais e os serviços absolutamente corretos. Eu fazia cerca de seis embarques por semana e nunca vivenciei atrasos. A economia estava crescendo e o movimento da aviação civil também. A superioridade dos serviços operacionais da TAM era visível a olho nu. Muitas foram as vezes que tive a oportunidade de cronometrar, e comparar o tempo de um aparelho da TAM numa escala e outro da VARIG. A agilidade da TAM era de constranger os agentes da VARIG. Uma escala da TAM durava um exato quarto de hora, contra quarenta e cinco minutos da VARIG. O perfil do pessoal das duas empresas era diferente. Os tripulantes da TAM levavam a sério cada procedimento dentro da aeronave. Tudo muito cronometrado e perfeito. Depois vieram os Airbus A 300 e viajar ficou mais chique e mais espaçoso, embora não fosse assim em todas as rotas. Mas em 08 de julho de 2001, Rolim deixou, aos cinqüenta e oito anos a presidência da TAM e o mundo dos vivos. O Brasil perdeu a sua versão pós-moderna do Visconde de Mauá. À época diziam que Rolim não queria mais trabalhar, que só pensava no museu da aviação e em conversar com passageiros e “fazer um agá” no portão de embarque. Com certeza não era bem assim. Rolim teve a visão do uso do aeroporto de Congonhas quando as suas concorrentes, absolutamente acomodadas pelo domínio do mercado, resignaram-se a utilizar Cumbica em detrimento do usuário. Eu mesmo tive experiências de voar para Curitiba a partir de Cumbica. Um contra-senso. Demorava-se mais para ir ao aeroporto do que para voar até o destino. Rolim via o futuro. Não pensava em Low cost Low fare como o fez Richard Bronson da Virgin Air. Pensava em diferenciar pela qualidade dos serviços, e assim o fez. Nos últimos tempos decidiu pela renovação da frota e insistiu em manter os bons serviços de bordo. A TAM inaugurou ainda um inédito merchandising no Brasil, com sorteio de produtos durante os vôos e distribuição de lançamentos. Eu mesmo ganhei produtos como bolas de futebol em tempos de Copa do Mundo, Licor com apelo africano, cheque de compras para o supermercado Pão de Açúcar, chocolates e muitos outros brindes. Além disso, os free-coffee da TAM em Congonhas, Salvador, Goiânia, Porto Alegre e outras cidades, eram imbatíveis. E se você soubesse responder qual era o achocolado distribuído nesses free-coffee à comissária, poderia ganhar um bom brinde. Até o forro de cabeça das poltronas a TAM soube negociar. Sua clientela era importante, formadora de opinião e fugia de empresas que tivessem o ranço de coisas estatais, como era o caso da VARIG. As outras foram, melancolicamente, saindo do ar. Literalmente. Mas o importante é que o fato de Rolim Amaro cumprimentar pessoas no portão de embarque às 6:45 am, causava uma boa impressão para a maioria de seus passageiros. Ele sabia disso. Mostrava que não queria depender de governo, pelo contrário: crescia apesar dele. Uma vez colocaram uma bomba num dos seus aviões. Um passageiro morreu. Ouvi muita gente falando que fora coisa da Varig, então já sem saída para a sua imensa dívida, fruto da má gestão. Rolim saiu ileso do episódio. Um bom gestor acompanha a empresa em seus detalhes, precisa ter uma percepção da opinião de seus clientes e dos valores que eles têm. E era isso o que Rolim fazia. Depois de sua morte o cenário mudou. Surgiram outras companhias, a concorrência ficou mais ousada e os caminhos legais acabaram por proteger a VARIG e tumultuar o mercado. Depois veio o acidente com o Boeing da GOL e o chamado “apagão aéreo” fruto dos problemas com o sistema de controle de vôo no país. Nesse episódio, o atual presidente da TAM, Marco Antonio Bolongna, que preside também o sindicato das empresas do setor acabou por mostrar que a habilidade gerencial do comandante Rolim ainda faz falta. Como presidente do Sindicato Nacional das Empresas Aéreas, ele falou grosso e bateu no governo, com muita razão, há que se reconhecer. Todavia esqueceu-se quem eram os seus interlocutores. A vingança bem urdida dos petistas veio com alguma demora, mas veio. Durante toda a crise do controle do tráfego aéreo, o presidente da República e seus auxiliares mais próximos, mantiveram-se calados sobre o tema. Pesquisa encomendada pelo PT mostrou que a crise não atingia a popularidade de Lula. A crise não era, pois, prioridade do governo. Pouco antes do Natal, numa reunião das empresas aéreas com a Agência controladora da aviação civil, o senhor Bologna disse singelamente que tinha seis aeronaves fora de serviço, talvez para explicar as razões do over-booking. Foi a deixa que o governo precisava. Numa tacada só, o presidente Lula vingou-se das reclamações e acusações do presidente do Sindicato das Cias aéreas e de quebra bateu duro na TAM culpando-a pelos problemas dos atrasos nos aeroportos. Para o grande público, em especial aqueles que não viajam de avião, a TAM foi a causadora de todos os tumultos. Pior, o presidente fez demagogia em cima da empresa “emprestando” aviões da FAB para transportar passageiros da TAM. Estamos em estado de guerra? O governo deve intervir assim na iniciativa privada? Foi um procedimento lícito? Seja lá o que for essa decisão presidencial do ponto de vista legal, o fato é que o governo atirou na TAM e causou ferimentos significativos para a sua imagem. Rolim certamente teria um jogo de cintura maior e não misturaria jamais os assuntos sindicais com sua empresa. O senhor Bologna parece ter jogado por terra a habilidade gestora e a grande hospitalidade que Rolim criou para a sua empresa, aquela “que tem orgulho de ser brasileira”.
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 18h39
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