Blog do J Ruy Veloso


ARAÇATUBA, A PRACINHA E O SEXO

Lembranças - 1-   ARAÇATUBA, A PRACINHA E O SEXO.

 

No primeiro ano da década de 1960 a cidade de Araçatuba tinha muitas praças bem cuidadas e muitas árvores nas ruas. Nem podia ser diferente. O calor na região, muito seco e permanente, era quase insuportável, a menos, claro que você morasse lá e já fosse acostumado. Era nas pracinhas que os namorados passavam boa parte do seu tempo conversando e trocando leves carícias. Ah, como tinham paciência e controle! As pracinhas melhor freqüentadas (e mais arborizadas) ficavam perto da minha casa: eram a Praça da Caixa D´água e a Getúlio Vargas. Os bancos eram de cimento com o texto de um patrocinador no encosto. Lá pelas oito horas da noite, ainda era possível sentir naqueles bancos o calor do sol do dia. Mas voltando aos namorados: a maioria deles andava devagar, ele com a mão no ombro dela e ela, quando era mais “sirigaita” às vezes o abraçava e até trocava um beijo rápido ali mesmo, na calçada. Mas o lugar do beijo era na pracinha. Era um silêncio absoluto aos sábados, quando não havia aula nos cursos noturnos das escolas que circundavam as duas praças. Os casais cochichavam e iam lambendo as orelhas um do outro e se contorcendo ali nos bancos. Um suplício, imagino, e uma versão sentada do “molha cueca” que acontecia nos bailinhos (em Araçatuba eram “Brincadeira Dançante”, o que traduzia a intenção casta daqueles eventos). À época, costumávamos, aos sábados, atrapalhar aqueles casais, correndo por trás dos bancos, perturbando-os no seu silêncio onanístico. O cheiro agridoce do coqueiro anão e da grama nas noites de calor me traz até hoje as lembranças das pracinhas. E fico a pensar na vida dura daqueles amantes castos nos bancos das pracinhas de Araçatuba. Como era possível? Ah, o Papa Bento 16 ficaria feliz se os visse naqueles castos amassos! Mas nem sempre era assim. Vez por outra um de nós flagrava um casal mais ousado e então, protegidos por arcos de cedrinho muito bem aparados (incrível como a prefeitura era boa na manutenção das praças) ficávamos lá, escondidos e eretos a ver uma bulinagem. Ah, pressão máxima na calça e na cabeça, quando ele colocava a mão por dentro da blusa dela (Pegô no bico, murmurávamos sofregamente). E quando a moça, ousada, passava a mão, sobre a calça, na genitália do amado? (Pô, é vagabunda! E todo mundo eretão, molhado) Uma vez foi demais. A moça eu conhecia de vista. Morava na rua do empório do Genaro, no meio do quarteirão. O namorado,eu não sabia quem era. Pois ela, de pernas cruzadas e virada para o namorado, permitiu, em meio aos beijos, que ele levasse a mão direita lá no meio de suas coxas. Foi demais para o grupo (nem sei em quantos estávamos) e então, o Serjão Leite, que era sobrinho da Dulce, viera de São Paulo, onde estudara no Piratininga (sinônimo de moleza na época) e morava ali na Duque de Caxias, em frente ao bar do japonês que era vizinho da casa onde morariam uns dois anos depois o Og e o Ug, gritou: “Vai furar a calça dela, seu besta” (a frase não corresponde exatamente ao grito. Apenas tenta reproduzir uma expressão da época). Foi um pequeno incidente. O sujeito levantou-se do banco indignado (ou assustado) e correu atrás da gente. Em vão. De longe, vimos o casal se afastar e caminhar em direção à Pracinha da Caixa D´Água, que era vizinha da Getúlio Vargas, onde estávamos. Rimos muito e possivelmente reclamamos por ele ter interrompido aquela sessão de voyeurismo de que tanto gostávamos. Naquela Araçatuba de 1960, o sexo não era algo comum, gostoso e cheio de amor. Era proibido, praticado à socapa ou apenas imaginado pela mão num solitário momento de onanismo. Por sorte, nesse tempo, tínhamos entre dez e treze anos e quando chegamos aos dezessete, as coisas já tinham rapidamente mudado. Mas não muito. E disso falamos outro dia.



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 10h10
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MODA, COMUNISMO E TRUMAN CAPOTE

 

 

         

 

 

Moda, comunismo e Truman Capote

José Ruy Veloso Campos

 

Era o ano 2000 e eu estava no aeroporto de Munich, na Alemanha, a espera de meu vôo para Dresden. Infelizmente havia voado pela Varig, que à época, fazia parte da Star Alliance e a gente tinha que amargar os atrasos daquela empresa incompetente. Mas lá estava eu andando pelo aeroporto, comendo salsichas diferentes e observando as pessoas. Pois foi ali que constatei a nítida diferença entre os oriundos da antiga Alemanha Oriental e os do lado Ocidental. O modelo começava pelas barbas nem sempre bem aparadas e descia pelos casacos de corte reto e sem detalhe algum, numa cor indescritível. Os sapatos e as pastas em suas mãos eram a mesma triste paisagem. Já os outros, do lado Ocidental, eram iguais aos brasileiros do aeroporto de Congonhas ou aos estadunidenses do aeroporto de LaGuardia. Mas lá estava eu diante de algo que sempre imaginara e então, podia constatar. O comportamento era mais severo. Falavam baixo e com olhares de soslaio, enquanto os outros, em sua maior parte jovens executivos, falavam e riam entre si, com mais alegria. Ao chegar à capital da Saxônia, eu faria outra constatação, dessa vez sobre a arquitetura comunista de Niemayer em Brasília. Lá estavam aqueles prédios retangulares horrorosos, sem beleza estética e, pior, com menos janelas do que os blocos de Brasília. Mas eu pude ver de perto a moda austera imposta pela economia de Estado dos stalinistas. Austera pela pobreza de produtos, pela raiva ideológica da sociedade de consumo e pela falta de informações para melhor desenvolver o talento dos estilistas à época. Assim, a moda do ano 2000 (sobretudo nos casacos com grande vida útil) era ainda aquela dos anos 1970, que ficou arraigada como um sinal de protesto do tipo “fora o Ocidente e seu consumo! Somos comunistas”. Enfim, eram a cara de muitos colegas que tive ao longo da vida aqui no Brasil, protestando contra tudo e todos e ganhando seu salário dos patrões capitalistas. E onde entra Capote? Uma de minhas leituras do verão de 2007 foi “Os cães Ladram”, onde o escritor narra suas andanças pelo mundo (pessoas públicas e lugares privados) dedicando um longo trecho do livro a sua viagem com a companhia teatral Everyman Opera, Incorporated, que estreou a ópera Porgy and Bess em Leningrado, no dia 26 de dezembro de 1955, em plena decolagem da Guerra Fria. Capote narra as dificuldades da companhia para vestir-se adequadamente nas solenidades pelas quais tiveram que passar em Leningrado, considerando que os nativos daquela terra fria vestiam-se como que uniformizados, sem direito a ter sua própria criatividade. Lá, na metade do século vinte, Capote aprendeu que eles, os russos (da época) não respondiam ao RSVP (Répondez s´il vous plaîte) e nem usavam smoking. Nem mesmo nas grandes estréias. Era a abolição de mais um costume burguês importado. Mas não é de se estranhar. Como se o hábito fizesse o monge, o Lula não quis usar fraque na recepção que lhe ofereceu a Rainha da Inglaterra e o índio Evo Morales, recusa-se a usar gravata. Com essas atitudes, os políticos tidos como de esquerda, e supostamente mais próximos do povo, imaginam marcar sua posição como os velhos stalinistas sem cortes e sem criatividade para vestir-se. Assim foi também com MaoTse Tung e sua gola de padre, vestindo milhares de jovens que torturaram e assassinaram intelectuais e trabalhadores que supostamente não queriam seguir a cartilha do grande Líder da China. É um marketing pela moda, às avessas. Hoje, a preservação desses layout traduz um apego e uma paixão por uma cultura que não existe mais e que pretende identificar-se com a esquerda, o que quer que isso possa significar. Talvez seja isso mesmo. Depois de Bobbio, o significado de esquerda e direita está mais para uma simbologia do que pelas ações concretas e propostas objetivas. O significado se traduz em bandeiras vermelhas (MST, PT) carrancas, barbas e palavras de ordem contra o status quo. Tudo isso desde que os governos mantidos pelos impostos dos capitalistas tratem de ajudar esses frajolas empoleirados naquilo que eles insistem em chamar de movimentos sociais. Prefiro os esquerdistas de casacos retos e barbas mal aparadas...      



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 18h21
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