Blog do J Ruy Veloso


MARKETING PESSOAL

     

USP, Marketing institucional e marketing pessoal

 

O mês de maio terminou com a decisão do governador de São Paulo, José Serra, de publicar explicações e arranjos sobre os decretos que dispõe sobre o controle de gastos das universidades públicas do Estado. Para o grupo de estudantes que iniciou a ocupação forçada do prédio da reitoria da Universidade de São Paulo há mais de vinte dias e que recebeu apoio do sindicato dos funcionários administrativos e de pequena parte dos docentes da instituição, o fato constituiu-se em uma vitória, sobretudo porque veio a público no momento em que os grupos dirigiam-se em passeata para a Sede do Governo, na cidade de São Paulo para registrar seu protesto, no que foram barrados pela polícia. Mas alguns de seus representantes foram recebidos por assessores do governador que ouviram tudo o que eles têm a reivindicar. Tomado do ponto de vista político stricto sensu, a ação do governador é compreensível: ele quer evitar a presença da polícia no campus por duas razões. A primeira é pelo forte preconceito que se tem da presença de forças de repressão dentro da Academia, por força das lembranças dos tempos da ditadura militar, o que nesse caso específico da USP, em nada lembra aquelas situações. O segundo é porque (qualquer observador menos avisado sabe disso) o que esses grupos oposicionistas a Serra querem é “um cadáver”, ou seja, pessoas machucadas pela polícia para que possam depois utilizar as imagens nos programas políticos mostrando o sangue no rosto dos “heróis da USP”. É até compreensível essa posição do governador, mas lesiva à sua imagem mercadológica e às futuras negociações com qualquer grupo de interesses que se organize contra atos governamentais. Já para o movimento dos estudantes, que vem sendo capitalizado por grupos sindicais dentro da universidade, e oportunamente copiados por grupos em outros Estados da União para reivindicar as mais simples medidas, a decisão de Serra soa como vitória e vêm sendo documentada para insuflar outros segmentos da sociedade e arregimentar militantes para partidos políticos. Assim, do ponto de vista do marketing pessoal, Serra perdeu pontos junto a já reduzida classe média que o apóia, enquanto os tais movimentos ganham força por sua ação vencedora, através do esbulho e de uma dose de violência, denominados por eles de mobilização. Rudolf Giuliani, que foi prefeito de Nova Yorque e implantou o esquema de “Tolerância Zero” através de atos administrativos que reorganizaram a polícia da cidade – NYPD – melhorando seus salários e o esquema de rondas ao mesmo tempo em que fez um combate a corrupção “nunca antes” feito naquela cidade, teve o foco de marketing na figura do seu chefe de polícia Bill Bratton. Bratton tinha um histórico de sucesso, antes de chegar a Nova York, em pelo menos quatro outras empreitadas: na Polícia de Boston, no comando de Trânsito da Baía de Massachusetts e como chefe da Polícia de Trânsito de Nova York. A estratégia de tolerância zero, adotada em Nova York, já havia tido resultados consistentes nessas ocasiões. A dupla Giuliani / Bratton levantou o astral da Big Apple e trouxe de volta os turistas. Mantiveram-se firmes diante das críticas dos adversários e acadêmicos defensores dos oprimidos que sempre surgem nessas ocasiões em defesa de minorias sem levar em conta os resultados estratégicos das ações propostas. Não foi um mero acaso político. Foi um planejamento bem pensado, assumido e levado a cabo com a confiança de que daria certo. No Brasil, vira e mexe se fala no assunto (tolerância zero) e uma chuva de senões aparece para empurrar a medida para outra administração. Mas voltemos a questão da imagem. A política de Giulini e Bratton rendeu muitos frutos, na gestão, na academia e no mundo dos negócios. Um estudo publicado pela “Harvard Business Review” (Tipping Point Leadership, por Kim e Mauborgne, de abril de 2003) afirma, com base na análise de 125 empresas e organizações, que a estratégia adotada para recuperar Nova York é semelhante à adotada pelos administradores de sucesso. Em 1998, Bratton publicou pela Random House published o livro TURNAROUND: How America's Top Cop Reversed the Crime Epidemic, escrito em co-autoria com Peter Knobler e foi eleito pelo New York Times como o Livro do Ano. Para uma parte da sociedade Giuliani promoveu a truculência naquele período e teve sua imagem salva quando esteve à frente dos trabalhos no ataque às torres Gêmeas em 11 se setembro de 2001. Naquele período foi chamado de "O prefeito da América" e hoje é um dos fortes candidatos do Partido Republicano a concorrer para a Casa Branca no ano que vem. Sua imagem pessoal sofre arranhões no vai-e-vem de seus casamentos, assunto que os americanos tendem a ignorar quando a administração é boa.  Já Bratton teve outras atuações como na polícia de Los Angeles, (LAPD) e como consultor de assuntos de segurança. Lembrar a dupla Giuliani / Bratton não significa ter maior ou menor simpatia por suas causas. Trata-se de firmeza de posições que geram imagem para os políticos. Nesse caso Lula não é exatamente um neófito. Ele sabe como ninguém, entre os petistas, separar sua imagem dos problemas e pessoas problemáticas, se bem que tem sido ajudado por uma boa dose de falta de opções para o eleitorado. Mas sua imagem é de longe associada às coisas boas que ocorreram no período de sua gestão, embora a classe média saiba que ele, na maior parte dos assuntos, nada tenha a ver diretamente com isso. Para os grupos que reivindicam e se posicionam como opositores ao governo, a tibieza dos governantes (não cumprem ordem judicial de desocupação, dão marcha à ré nas decisões, fazem negociações submissas à vontade de movimentos grevistas) soa como vitória e marcam sua imagem de vencedores. É uma imagem institucional de sucesso, contra a imagem pessoal desgastada do governador Serra. Serra tem uma imagem de trabalhador obstinado, mas centralizador e turrão. Dizem que é mais turrão do que o falecido e competente Mário Covas. Mas sofreu um desgaste de imagem. O próximo episódio por vir do crime organizado. Sentença judicial tirou o líder Marcola do isolamento e mandou-o para uma prisão mais relaxada, junto aos seus próceres. Para facilitar, é claro, sob as penas da lei, os seus crimes. E como a população vai avaliá-lo diante de decisões que ele tenha que tomar? Imagens mercadológicas não são construídas facilmente, sobretudo a dos políticos. O que levamos quatro anos para construir, um simples episódio conjugal pode destruir em horas. Mas é muito mais fácil que decisões atrapalhadas destruam imagens do que comportamentos morais familiares. Já Serra tem diante dele uma figura mais jovem e com cara de sujeito decidido que mora ali nas Minas Gerais e come pelas beiradas no prato da sucessão. É esperar pra ver.

 

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 11h55
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LEMBRANÇAS -2

               

RANCHARIA OR BUST

José Ruy Veloso Campos

Não sei precisar o ano, mas deve ter sido entre 1961 e 1963. Adolescentes, estávamos tristes lá na longínqua Araçatuba porque o Dinho e o Reginaldo haviam se mudado da cidade. Magro, cheio de espinhas e narigudo, o Dinho, ou Ronaldo Polizeli Leme, gostava de vestir-se bem e tínhamos até um par de sapatos iguais, da Samello, em couro de Malibu. Gostava de ir a casa deles, ali na pracinha (de novo) em frente ao Araçatuba Clube e ao Colégio das Freiras. Sua mãe estava sempre bem humorada e uma tia que morava com eles era muito divertida. O pai era gerente do Banco do Brasil e também bem humorado. O Reginaldo era um pouco mais velho e convivia com garotos de outras turmas, mas já gostava de esportes, embora não tivéssemos ainda a Fórmula 1 que o faria tão conhecido a partir dos anos 1980 na TV. Pois é, estávamos tristes com a mudança dessa família bem humorada quando o Dinho telefonou em casa (interurbano não era assim uma coisa tão fácil, mas isso é outra história) e convidou a turma que se reunia no “Ausência Clube” (um quarto de fundos na minha casa) para visitá-lo em Rancharia, para onde o banco havia transferido o seu pai. Explicou que era um final de semana de muitas atividades, na Festa do Algodão, com baile, coroação de rainha e muita cerveja. Podia ir a turma toda, que haveria acomodação nas casas de seus novos amigos. Dado o aviso, o grupo começou a se organizar. Tínhamos quinze dias. O organizador seria o Cardia, considerado o mais responsável da turma. Eu indiquei o transporte de confiança: o senhor Sugano, um velho conhecido da família que morava ali na praça da Caixa D´Água, vizinho de onde morara meu tio padre, o padre Veloso. Foi com a família dos Sugano que aprendi o que era um ofurô. Os suganos, pai e filho, sempre tiveram carros de praça, dois Ford cupê, e agora tinham também uma Kombi para carregar estudantes. Organizada a viagem, contamos os passageiros, se é que consigo me lembrar: Eu, Cárdia, Zé Muié, Paulão Xavier, Agostinho Guerreiro, Rodolfo Maciel, João Pedro, Aguinaldo e (acho) o Osvaldinho Espanhol. Um time. Tudo foi politicamente correto. Saímos depois do almoço, numa sexta, depois da aula do pessoal e chegamos já à noite em Rancharia. A estrada alternava asfalto com bancos de areia em trechos de terra e a poeira (ou a terra) se nos entrava pelos poros naquele abafado da velha Kombi. O Dinho havia preparado um ágape especial para nossa chegada, com direito a churrasquinhos e salada de frutas. Sua mãe desmanchava-se em atenção com o grupo e as meninas da cidade vinham com desculpas à casa dos Leme para nos olhar de soslaio. O João Pedro fazia as graças da turma e exagerava na cerveja. O senhor Leme, bem humorado mantinha o ambiente sob controle e contou como e porque acontecia a Festa do Algodão na cidade. Acho que só eu e o Cardia ouvimos. Foi uma zona. Ficamos eu e mais dois na casa do Dinho e o restante distribuído nas outras casas, entre elas a casa do Pherpa. Ah, o Pherpa! Era engraçadíssimo, com um chapéu na cabeça, magro com  um gogó enorme e um vozeirão grosso, ele animava as reuniões. Dinho ao violão, ao trompete e na bateria, que seria a sua posição alguns anos mais tarde na primeira versão de “Os mutantes”. No dia seguinte, o sábado, conhecemos a cidade, tivemos um almoço misto, ou seja, as meninas apareceram, e a noite fomos ao baile. O espaço era todo do João Pedro, ou pelo menos ele assim pensava. Forasteiros, éramos olhados com um certo ar de desafio pelos garotos nativos e evitávamos olhar de frente para evitar brigas e confusões para os Leme. Não era o caso do J.Pedro. Ele achou de mexer com a Rainha do Algodão, uma nativa bonitinha que recebera a coroa de estrass naquela noite e tinha, segundo o Reginaldo, um namorado 18X24, daqueles fazendeiros tipo John Wayne. Em vão. O J Pedro foi atrás da moça e tirou-a para dançar. Sem ação e olhando para os lados em busca de socorro, ela aceitou. O John Wayne estava no bar ou no banheiro. Quando ele voltou e foi recuperar a amada, o J Pedro gritava, Paulão! Paulão! Chamando o Paulão Xavier, que era campeão noroestino de judô (hoje é um sociólogo da USP que estuda a questão urbana na pós-modernidade) O Paulão não foi porque não comprava briga barata e porque o Reginaldo e o Cardia chegaram primeiro no deixa disso. Eu fui mais pragmático. Encostei no amigo do grandão e pedi desculpas explicando que o nosso amigo orelhudo ficara meio fora de controle depois que tivera meningite. Escapamos todos e fomos amanhecer na varanda da casa dos Leme (que paciência tinha aquele casal!) ouvindo boas canções da garganta do Pherpa, algumas em dueto com o Dinho. E foi o dia até que, no final da tarde veio à despedida. Muitos abraços, algumas lágrimas e os gritos do João Pedro: Rancharia, Rancharia! Entramos na Kombi (não me lembro onde dormiu o Sugano) sob o som de “Over the Rainbow”, tocado pelo Dinho em seu trompete, depois dos muitos abraços de seus pais. A viagem de volta, com muita terra, sacolejos e escuridão, foi cheia de maus humores. Mas aproveitamos todos. Depois disso devo ter visto o Dinho e o Reginaldo umas duas vezes em São Paulo, já no começo dos anos 1970. Hoje, só pela mídia. Mas Rancharia foi uma viagem desejada e bem curtida pelo grupo. Bons tempos, como disse o amigo sociólogo Luiz Octávio de Lima Camargo: esses são os velhos e bons tempos (aqueles em que a gente não era nem velho nem bom). Pura verdade.



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 16h11
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