Blog do J Ruy Veloso


AL PACINO

AL PACINO

Na década de 1960, ainda jovem, fui assistir a peça “O caso Openhaimer”, cujo personagem título era interpretado pelo ator Jairo Arco e Flecha. Era o tempo dos IPM (inquérito policial militar) promovido pela ditadura militar para julgar políticos, intelectuais e qualquer um que falasse contra o regime. A peça, que tratava do julgamento de Openhaimer, o “pai” da bomba atômica, acusado de espionagem no tempo do macartismo, foi seguida de debate. Eu ficara muito bem impressionado com a interpretação de Arco e Flecha. Ele encarnou muito bem a figura sob julgamento. Defendia-se e falava rapidamente (ele tinha a voz um pouco rouca e fazia um esforço brutal na dicção) em resposta aos seus inquisidores. Pois é. Na hora do debate, fiquei decepcionado com a mudez do ator. Enquanto os moderadores discutiam e a platéia dava seus palpites, Arco e Flecha permanecia sentado à esquerda do palco, calado. Se falou, nem me lembro. Fiquei decepcionado porque achei que como intérprete do personagem principal ele tivesse muita contribuição a dar. Eu estava confundido personagens com o ator. E não deveria. Àquela altura eu já era razoavelmente versado no método  Stanislavski, e também já lera “O Teatro pobre de Grotowski”. Já falava em “memória emotiva” e estudava formas de sentir a emoção a partir das situações. Constantine Stanislavski propunha que o ator deveria sentir a emoção da cena, da história, do personagem enfim. Pois isso o ator Arco e Flecha fez e muito bem. Ele não tinha obrigação de participar de um debate engajado, ainda que estivéssemos em plena ditadura. Ele era um artista e fizera o seu papel. A discussão ficava por conta de sua posição política. Querer que ele participasse e falasse rápido e preciso como na peça, já era patrulhar. E por que me lembro disso? Porque ontem vi a homenagem do AFI (American Film Institute) ao ator Al Pacino. Foi muito bom ver aquelas caras conhecidas na homenagem a esse grande ator. Lá estavam Sean Cornery, Robin Williams, Samuel Jackson, Sean Penn, Ed Harris, e tantos outros monstros do cinema. Pacino é um ícone da minha geração. Ele, como Gene Hackman, De Niro, Robert Duval, e outros poucos. Nos depoimentos de Merryl Streep, Andy Garcia, Samuel Jackson, ficou o testemunho do rigor e da disciplina do ator que é Pacino. Parece ser comum aos seus colegas de set, vê-lo ensaiar mais de cem vezes uma determinada cena. Já pensou aquele tango do cego em “Perfume de Mulher”? Quando ele recebeu o premio das mãos de Sean Penn, foi impossível não lembrar da cena que o outro, Penn, fez em “Sobre meninos em lobos” quando tenta chegar à cena do crime do qual foi vítima a sua filha. Os dois no palco, foi um verdadeiro abraço de monstros sagrados. Esses sabem ser atores. E a cerimônia brindou a todos com cenas de “O poderoso Chefão”, “Um dia de cão” e outros bons filmes. Mas na hora dos agradecimentos, me lembrei de Jairo Arco e Flecha. E não estou comparando os atores até porque, Arco e Flecha deixou o palco há muitos anos e nem sei se ainda vive. Mas me chamou a atenção que Pacino falasse pouco, apresentasse agradecimentos ao casal com quem morou quando chegou para cursar o Actors Studios e agradecer a todos “a quem tanto amo”. E foi só. E o que mais eu devia esperar? Um discurso sobre as oportunidades de cinema para os menos favorecidos? Que falasse do filme do Al Gore? Contra a guerra do Iraque? A favor do Chaves? Tudo bobagem. O homem é um grande ator. E é disso que ele estava falando: das emoções. O ator é uma substância emocional camaleônica. Adapta-se a cada personagem, a cada nova emoção. E isso para o nosso deleite. O problema é que às vezes misturamos a ficção e a realidade. Não é a toa que senhoras donas de casa às vezes agridem atrizes da Globo nas ruas do Rio, quando elas fazem papel de vilã nas novelas. Quando isso ocorre, achamos que é ignorância desse extrato social. Pois garanto que muita gente pode confundir (ou cobrar?) posições das telas com a vida real dos atores. Seja como for, o que importa é que Pacino merece homenagens, como outros de quem falei. Triste é ver que poucos são os que têm cacife para substituir esses talentos que estão no fim da carreira. Dia desses falo do Tony Ramos...



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 15h57
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OUTONO EM BRAGA

 

É OUTONO EM BRAGA

 

Pelo título podem pensar que se trata da bela e antiga cidade de Braga, em Portugal, fundada no ano 14 a.C. e vizinha da não menos bela Guimarães, sempre rumo ao Norte da Terrinha. Mas não é. Trata-se mesmo da Bragança que, de novo, não é a de Portugal, fundada em 1464, não. É mesmo Bragança Paulista, situada a 90 Km da capital paulista, por terra e por uma rodovia  federal abandonada pelos petistas. Não é em Portugal, mas tem muitos traços portugueses em suas ruas estreitas no centro da cidade, demarcadas pelos nomes das famílias que foram importantes no período de seu crescimento quando era um ponto estratégico no caminho para as Minas Gerais. Braga em uma mistura de tradições mal preservadas, como qualquer cidade brasileira, lembranças, história oral e alguns esforços isolados para resgatar essa memória. Mas tem muita história. Começou com sete colinas e sete igrejas (em pé até hoje) depois ganhou ferrovia e café e foi perdendo tudo com o desenvolvimento de outras áreas do Estado de São Paulo, mais para o Oeste. Empobreceu no setor primário, ganhou alguns tímidos investimentos no setor secundário e chegou a ser referência regional no setor de serviços, em especial na educação e na saúde, nos anos 1980. Em meados da década de 1990 começou a perder espaço nessas áreas em razão da grande expansão da educação privada no país e do crescimento de pólos tecnológicos em outras micro-regiões de Campinas. Restaram para a cidade os investimentos em moradias que atendem os que fogem do caos da cidade de São Paulo (e aí vai aumentando o seu adensamento populacional) e o turismo. Braga tem a grande vantagem de estar à uma hora de São Paulo e ser conhecida por ter boas lingüiças, mas muito pouco se faz para que isso seja de fato um atrativo e um diferencial competitivo. Para o público externo, Atibaia é mais conhecida, ainda que Bragança ofereça uma configuração urbana melhor arranjada e tantas paisagens quanto Atibaia. Mas um dia os seus gestores vão descobrir que o turismo pode significar receita para o comércio e para os cofres públicos da municipalidade, quem sabe...

O fato é que morar em Braga é bom. Não tem poluição, não tem trânsito pesado, não tem grande número de violências, as ruas são limpas, os vizinhos são solícitos e ocupados, as escolas são boas, as oficinas para automóveis são boas, os supermercados têm de tudo, as padarias são boas, não tem táxi livre nas ruas (e são caríssimos) o transporte coletivo é bom (ir para Sampa de ônibus é facílimo. De hora em hora), o aeroclube tem muitos aviões, e não faltam água e nem luz. Ah, tem Orquestra Sinfônica há 70 anos e dois luthieres que fabricam baixo de pau para músicos exigentes. Tudo isso distante a menos de uma hora de São Paulo e a 40 minutos de Campinas. Quer o que mais? Ah, sim. O clima. O outono em Braga é lindo e o frio é gostoso, sem a fumaça dos corredores de ônibus. Mais? O mercado imobiliário de Braga é bom. Se comparados aos preços de São Paulo, o custo gera um enorme benefício e ainda dá para trabalhar em outras cidades morando em Braga. Duvida? É visitar pra ver.

Bragança Paulista: onde a vida é melhor.



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 16h30
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