NEVE, O ROMANCE

NEVE, O ROMANCE
Orham Pamuk recebeu o Prêmio Nobel em 2006. O Comitê explicou que a escolha sobre ele deu-se porque ele é um autor que "em busca da alma melancólica da sua terra natal encontrou novas imagens espirituais para o combate e para o cruzamento de culturas". Faz sentido. No seu romance “Neve”, que ganhei das filhas no meu aniversário, Pamuk trata na verdade da solidão, da dificuldade das pessoas em relacionar-se afetivamente e da pobreza de um povo isolado culturalmente. O pano de fundo é a luta dos radicais islâmicos contra o governo em busca do poder na Turquia visando uma teocracia que privaria de vez a sociedade de sua liberdade de expressão e de atitudes pessoais as mais simples e óbvias para o mundo ocidental, como aquela das mulheres poderem andar com a cabeça descoberta nos locais públicos. O discurso de uma gente simples e sem informação é linear e limitado aos deveres impostos pelo Corão e que, de acordo com suas posições religiosas, devem se impor à nação e ao mundo. O Ocidente é presunçoso e maldoso e merece a punição. Os turcos que foram viver no Ocidente, em especial na Alemanha, como o personagem principal, são ingênuos e imitadores simiescos dos ocidentais. Tudo o que se vê, nos dias de hoje,diariamente nos jornais. Orham Pamuk foi criticado e condenado pelo governo turco por denunciar a matança de armênios na Primeira Guerra Mundial e a matança de curdos nos anos 1980. Teve que ir à Turquia prestar declarações num tribunal. O autor estudou na Europa e se formou em engenharia, arquitetura e jornalismo. “Neve” não tem a beleza literária encontrada em vários autores ocidentais. A narrativa pode parecer pobre e o tema é frio, como o título anuncia. Mas o livro é bom. Disse-me um vendedor da Siciliano que “o público não gostou porque é romance do tipo Oriente Médio”. Pode ser. Mas lendo o livro temos vontade de conhecer o restante da obra do autor. Como pode então ser ruim ou pouco atrativo?
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 10h17
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