O DINHO

O DINHO
Então foi assim. Depois de mais de trinta anos, nos encontramos, o Dinho Polizelli Leme e eu. Foi um encontro rápido, daqueles depois de shows. O Dinho, baterista dos Mutantes, ali, cansadão e eu satisfeito com a apresentação do grupo que tem a simpática, competente e agradável voz de Zélia Ducan à frente no som de Arnaldo Batista e Sérginho Dias Batista. Houve momentos em que me senti assistindo ao Jesus Cristo Super Star, nos tempos do Altair Lima, quando a Sônia Braga era figurante. Já pensou? Os arranjos traziam lembranças dos anos 1970.
Mas, o Dinho. Lá estava ele, com o mesmo nariz e a mesma calma. Do que poderíamos falar senão do passado? Pois ele lembrou de um episódio do qual já havia me esquecido: o crente Cardia. Lá nos anos 1960, apareceu em Araçatuba um sujeito que pichava nos muros frases bíblicas com a assinatura de “O crente Augusto”. Pois numa noite, o Dinho, o Paulão Xavier e mais alguém de quem não nos lembramos, pegaram tinta e uma brocha e saíram pichando sob as frases já escritas as palavras:“O Crente Cárdia”. Era uma brincadeira com o nosso amigo mais responsável e líder “politicamente correto” da época. No dia seguinte foi um destempero geral. O Cardia sabia que a arte saíra do grupo (o Ausência Clube, nos fundos de minha casa), mas não identificava o(s) autor(es). Considerou (corretamente, como sempre) que ele tinha parentes na cidade com responsabilidades e que estavam com seus nomes nas ruas, pichados ali, sem mais nem aquela. O pai do Cardia mesmo, era gerente do Banco São Paulo, que pertencia aos Almeida Prado e Vieira da Cunha, famílias que, à distância, foram responsáveis por boa parte do desenvolvimento da cidade. Não era nem por ele. Mas pelo nome (e a honra, dizia) da família. O Dinho deu o serviço. Não sabia mentir (e não sabe até hoje, disse) e entregou os amigos. O Cardia ficou putíssimo e exigiu que apagassem a arte. Foi o que fizeram duas madrugadas depois. Mas foi divertido. É engraçado encontrar pessoas com as quais não temos contato por um longo período. Nem sempre as encontramos como eram nos tempos da adolescência. Não foi o caso do Dinho. Com mais de meio século, estávamos ali, com a mesma conversa e o jeitão daqueles tempos de moleque. Com certeza isso é positivo. Não fomos devorados pelos momentos amargos da vida. Para quem leu a viagem à Rancharia, o Pherpa (pode ser com éfe mesmo) já partiu. Morreu feliz, segundo o Dinho. O Reginaldo casou-se há décadas com seu grande amor de Rancharia (que é irmã do Pherpa) e até hoje estão juntos. Os pais, o senhor Joinville Paim e a dona Rosa estão firmes e torcendo pelo sucesso dos filhos. O humor deles, diz o Dinho, é o mesmo. Foi assim, simples e agradável, o encontro rápido e de boa memória. Parece tudo muito simples. Não seria assim tão fácil não fosse o milagre da Internet. Ronaldo Polizelli Leme e Reginaldo Leme, dois irmãos, duas figuras conhecidas, duas lembranças dos tempos vividos na jovem e conservadora Araçatuba.
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 18h23
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|