Blog do J Ruy Veloso


PODER E CONFRONTO

                                               

TRÊS HISTÓRIAS DE PODER, CONFRONTO E, NADA.

 

1-Minha avó Eulália, que aprendemos desde sempre a chamar de Líla, foi uma daquelas mães e avós resistentes, forte, decidida e lúcida até que um AVC a fez prostrada por anos numa cama. Mas morreu bonita e sem nenhuma ferida, graças ao carinho de uma filha que, solteira, recebeu a delegação dos irmãos para cuidar dela. Vó Líla foi professora e auxiliar do marido farmacêutico, agrimensor e tabelião. A vizinhança, por muito tempo, valeu-se dela para aplicar injeções e fazer pequenos curativos. Quando perdeu o marido, tinha ainda um filho de onze anos, o mais novo dos dez que compunham a prole. Era decidida  e fazia por unir a família. Alguns a achavam autoritária e controladora. Pode ser. Mas jamais invadiu a privacidade de filhos, genros, noras ou netos. Era forte e lia todos os dias os jornais. Se não o fizesse, sentia-se fora do mundo. Herdei isso dela. Mas então, houve quem a julgasse autoritária. E como não ser? Teve que administrar a casa com aqueles sete filhos que ainda eram solteiros, ali na Vila Pompéia, cheia de garoa e longe dos bondes naquela São Paulo dos anos 1950. Pois se um dia lhe fizeram bico alguns parentes, com certeza, quando ouvem sobre o seu passado, se lhes passa pela cabeça um fio de culpa. Ela foi, isso sim uma heroína. E a vida segue sem ela, mas com muitas de suas lições, bem vivas. O confronto com a avó, se houve, virou nada.

2- Ouvi muitas histórias de ciúmes nas organizações. Uma vez achei um livro com esse título num aeroporto. Comprei-o e mandei para dois chefes que eu tinha. Foi um desastre. Achava que eles deveriam racionalizar sobre as ações supostamente úteis que eu empreendia na organização e não ficar atrapalhando cada um dos meus passos. Eles tinham as razões deles e o livro foi como um veneno na sopa que já estava fria e quase azeda. Já ouvi histórias de ciúmes de gente criativa, de atropelos e puxada de tapetes por um cargo que não acrescentaria muito mais, financeiramente, para o conspirador. Pura vaidade e questão de poder. Era gente batendo de frente, em grandes confrontos urdidos à socapa e em finais de semana só para barrar um projeto do outro. Por que? Não havia uma explicação clara. Era ciúme ou necessidade de mostrar poder. Não, não é coisa de meninos. Vi e ouvi em e sobre empresas que tratavam de somas e negócios de gente grande. Coisa de bilhões por ano. Vinte anos depois, onde estão aquelas pessoas? De que valeram aquelas conspirações todas? Um adoeceu, outro enviuvou, aqueloutro perdeu tudo e os demais estão sobrevivendo. Os confrontos? Talvez estejam limitados às esteiras, as corridas, aos exames laboratoriais de rotina e aos cartões de crédito. As conspirações, se de fato houve, viraram nada.

3- João, que era pobre, comprou feijão para comer, mas resolveu plantá-lo pensando no amanhã. O pé cresceu e João foi às nuvens onde encontrou o gigante e a galinha dos ovos de ouro. Conseguiu livrar-se do gigante com muita dificuldade graças à habilidade da mãe no machado. Os ovos da galinha trouxeram-lhe o conforto, o luxo, o amor, a inveja e a desgraça. Nessa ordem. João não poupava porque a galinha não envelhecia e ele sabia que era para a vida toda aquela riqueza em ouro. O luxo que sucedeu ao conforto lhe trouxe o amor de uma parente distante que veio pedir ajuda e  por quem ele se encantou. Casou-se rapidamente e ela passou a exigir mais luxo, para desespero da mãe, boa de machado e agora sogra. As filas de pedintes de favores e de proponentes de sociedade era diárias e intermináveis. A mulher, e nora, começou a querer cobrar ingresso para que falassem com João. A mãe, e agora sogra, encheu-se rapidamente e um dia achou que ela estava se engraçando com um rico comerciante de peles. Falou com João e ele disse para a mãe esquecer aquilo. Um dia, num ataque de fúria, a mãe, e sogra, que envelhecia e tinha ciúme da mulher, que era sua nora, acertou o pescoço da galinha com o machado e a serviu ensopada no jantar. Três anos depois João estava pobre, a mãe morrendo no leito e a mulher desolada porque o rico comerciante, que tanto prometera, deixou-a  sozinha depois de cavalgá-la por quatro vezes em suas tendas do comércio. Dez anos depois, a luta com o gigante, o poder, as disputas e as conquistas daqueles personagens estavam esquecidas. Mas não acabou em nada. Virou conto de fadas. Como sempre, sem contar o que aconteceu depois que João ficou de posse da galinha, quando o poder e o confronto viraram coisa nenhuma, nada.

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 19h52
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