SOBERBA

Do Vinho do Porto a Madeleine
Impossível imaginar o que vai à cabeça de um casal cuja filha desapareceu de um chalé de hotel e agora é suspeito de tê-la matado. Impossível também saber o que pode ser a verdade num mundo tão cheio de surpresas. É assim o caso do casal de médicos ingleses que reclama que sua filha sumiu do apartamento de um resort em Portugal em maio passado. A comunidade britânica é claro, mobilizou-se e defende o casal contra a suposta incompetência das autoridades lusas. Juntou-se mais de um milhão de Euros numa campanha relâmpago para que a família pudesse continuar em Portugal acompanhando as investigações. Mas, entre idas e vindas, a polícia portuguesa acabou por enquadrar o casal como suspeito. Parte da imprensa inglesa caiu de pau, há tempos, no trabalho de investigação dos portugueses. Para a grande maioria dos ingleses Portugal é um destino turístico próximo à ilha de Sua Majestade, tem sol o ano todo e uma gente sorridente. Mas consideram aquela gente atrasada e de segunda classe na Europa. É assim desde sempre. Foram os ingleses que escoltaram o rei de Portugal, D. João VI em sua fuga para o Brasil, quando Napoleão buscou conquistar aquela saída portuguesa para o mar. Foram os ingleses que estimularam o fabrico do Vinho do Porto e são eles até hoje os grandes consumidores daquele produto da região do Douro. Os ingleses gostam mesmo de invadir a região do Algarve na primavera e no verão. Chegam com seus chapéus estranhos e suas roupas espalhafatosas. Não são os ingleses do alto do PIB. É uma classe média estável. Só isso. Mas contam com a solidariedade de seus pares colonizadores que mantêm o mesmo espírito da Armada da Rainha, quando as esquadras inglesas ameaçavam nações só por ancorar na costa de suas terras. No caso da infeliz menina Madeleine, tudo pode ter acontecido. Os pais, uma vez suspeitos, dizem que os portugueses não querem estragar o turismo assumindo que um pedófilo pode ter entrado no resort (que não é um hotel fechado. São chalés em cujas ruas podem circular estranhos à hospedagem) e querem então culpar os pais. A polícia portuguesa já deixou vazar que as crianças podem ter sido dopadas para que os pais pudessem jantar com tranqüilidade e que a menina foi vítima do remédio que lhe foi dado. Os pais então teriam forjado o sumiço. Tudo muito trágico e cinematográfico, mas nada inverossímil. Pelo menos a ministra do interior inglesa manifestou-se neutra e os laboratórios ingleses fizeram os exames, aparentemente sem favorecer os pais. Porque também aí tudo é possível. O casal de canadenses que seqüestrou o Abílio Diniz foi defendido na imprensa daquele país como “idealistas libertários” que estavam apodrecendo nas masmorras do Brasil. FHC cedeu e os libertou na briga da Embraer com a Bombardier, sob a pressão dos petistas, cúmplices dos seqüestradores de Diniz e mais tarde de Washington Olivetto. É assim que as cabeças medianas do mundo desenvolvido vêem os países mais pobres. É assim que os ingleses vêem Portugal. Se o casal for mesmo culpado, já tem a seu favor boa parte da opinião pública do seu país para quem os portugueses só tem alguma competência para prestar-lhes serviços hoteleiros. E no caso do sumiço da menina, talvez nem isso tenham, pensarão eles. Tudo muito triste é verdade, mas já ouvi gente dizer que dava remédio para que a criança ficasse “meio chumbadinha” para que os pais pudessem melhor aproveitar a noite.
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 08h56
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