GLOBALIZAÇÃO ?
GLOBALIZAÇÃO OU O CAPITAL MUDANDO DE MÃOS
José Ruy Veloso Campos*
Na semana que passou duas grandes aquisições foram anunciadas: a compra da VR refeições, do grupo fundado e conduzido por Abram Szajman, que é também, há vinte anos, presidente da federação do Comércio do Estado de São Paulo e, por conseguinte, presidente dos Conselhos do Sesc e do Senac. A “Vale refeições” começou há cerca de vinte anos num mercado que era amado e odiado pelos restaurantes, padarias e demais pontos de alimentação no Brasil. Amado por que ganhavam o estímulo do consumo de refeições pelos empregados das empresas que recebiam o vale e contribuíam para aumentar o seu movimento. Odiado porque demorava a reembolsar os vales, num sistema que não utilizava os bancos e fazia os empresários da hospitalidade gastarem tempo e correrem risco no transporte daqueles papéis, que eram um valor, circulando pelas ruas do centro e em ônibus lotados nas pastas de Office boys. O ganho das empresas de vales era grande. Somavam-se as perdas dos vales pelos empregados, o vencimento (sim, eles venciam) do prazo e a perda também pelos estabelecimentos de serviços de alimentação. Era uma farra nos tempos da inflação. A VR ganhou muito e cresceu muito graças, sobretudo a visão estratégica de seus gestores que entraram rápido na informatização e nos cartões de plástico. Foram além, criando um novo serviço através do VR Smart, que acumula pontos e fideliza clientes. Uma família inteligente que agora embolsa um bilhão de reais na venda desse serviço para a francesa Sodexho. E assim o capital brasileiro perde mais um forte negócio de suporte aos serviços de hospitalidade. Na área operacional dos serviços de alimentação, outra perda significativa: a venda eminente da rede Viena de Restaurantes para Advent, de private equity, que já abocanhou também a RA, serviços de Catering de Aviação e responsável pela alimentação em aeronaves e estações de passageiros nos principais aeroportos do país. O chefe do clã Bielawski, Roberto, dono da rede restaurantes, lanchonetes e cafés Viena e dos restaurantes Ráscal pretende vender só uma parte da empresa e manter a rede Rascal. A rede Viena é das mais antigas no país e entrou em operação em 1975 na esteira da chegada do conceito de Coffee Shop no país, misturando serviços de café e chá com pratos já montados no almoço e no jantar. Depois, nos anos 1990, adotaria o conceito de quilo.
Já o Advent, é o maior fundo de private equity em operação no Brasil, e está negociando uma transação pode ser a primeira no País com recursos da carteira de US$ 1,3 bilhão lançada pelo Advent em julho para aquisições de empresas latino-americanas.
O grupo Viena nasceu com uma loja de refeições rápidas no Conjunto Nacional, na capital paulista e hoje tem 30 lojas em São Paulo e outras 5 no Rio de Janeiro, com seis diferentes marcas: os restaurantes Viena Delicatessen, Ráscal e Grano, os restaurantes de comida rápida em praças de alimentação dos shoppings Viena Express e Viena K Express, além da Viena Café, que combina serviços de cafeteria e livraria. O Advent é o mesmo fundo que desinvestiu em empresas como a processadora de cartões de crédito CSU CARDSYSTEM, o Paraná Banco, a rede de lojas de duty free Dufry e a empresa de tecnologia Totvs, por meio de oferta de ações na Bovespa. A compra do Viena faz parte da estratégia do Advent de se concentrar em empresas de serviços. Quando os estudantes falam e escrevem sobre “resultados da Globalização”, nem sempre sabem sobre o que exatamente estão falando. Esses aí são dois casos típicos: duas famílias de origem judaica chegam ao país, arregaçam as mangas, constroem fortuna em cima de bons serviços oferecidos com capital gerado no Brasil e trinta anos depois, diante de uma carga brutal de impostos, má gestão pública, insegurança pública e alto custo nas relações trabalhistas, preferem vender o bolo pronto e investir de outra forma o ganho gerado em terras brasílis. É assim aqui, é assim em outros países em desenvolvimento. O que vai acontecer na gestão dos novos patrões, nunca se sabe.
O capital agora mudou de mãos. E ficamos assim, a deriva...
O aproveitamento das garrafas plásticas PET, já trabalhado pela Coca Cola em diversos países, rejeitado pela AMBEV, discutido por sanitaristas e ambientalistas é outro bom imbróglio globalizado e que merece um escrito a respeito. Voltarei ao tema.
*José Ruy Veloso Campos é mestre em comunicação e marketing pela ECA/USP, especialista em gestão educacional pela UNICAMP e docente da Metrocamp na disciplina de Planejamento e Controle de Marketing.
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 15h41
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