PAULO AUTRAN

AUTRAN: O GRANDE CAVALHEIRO DO TEATRO BRASILEIRO
Paulo Autran foi um daqueles atores que irradiavam uma luz inexplicável de talento e uma sincera simpatia. Tive a chance de conhecê-lo de perto lá nos anos 1960, em plena ditadura militar. Ele, ao lado de Tereza Raquel, Luíza Maranhão e Jairo Arco-e-Flecha, levavam, país adentro, o espetáculo “Liberdade Liberdade”, com poemas, músicas e muitas mensagens contra o regime vigente. Era uma cruzada e lhes acrescentava alguns tostões. Isso deve ter sido em 1966 e eu tinha lá meus dezoito anos. Recebi o grupo lá em Araçatuba, juntamente com outros colegas de teatro. Ajudamos a montar o palco do anfiteatro do Instituto de Educação Manoel Bento da Cruz, que depois seria IEPSG Manoel Bento da Cruz e hoje é, sabe-se lá o que, e providenciamos sanduíches e sorvetes para a equipe. Era uma experiência inexplicável, incomparável e invejável. Alguns anos depois eu me lembraria do fato quando visitava Raul Cortez no seu camarim da peça “O Balcão” de Jean Genet, na qual protagonizou o primeiro nu no teatro brasileiro. Tive a chance de contar ao Raul Cortez a emoção de ficar nos bastidores de “Liberdade Liberdade”. Raul então me disse que dentro de 50 anos jamais teríamos outro ator como Autran, mesmo que dissessem que Sérgio Cardoso era um “monstro”. Pois Raul, ele mesmo um “monstro” do teatro, estava certo. Talento como o de Paulo Autran não é para todas as épocas. Sir Laurence Oliver, com certeza foi um desses. Mas é mesmo difícil. Lá naquela provinciana e pecuarista Araçatuba (também lá já não existe mais pecuária, só canaviais) um casal se ofereceu para receber os atores depois do espetáculo. Lembro-me que ele, o anfitrião era um médico, o Derocy de Carvalho e sua mulher, professora da rede estadual. Foi tudo muito simples inusitado. Era qualquer coisa de especial receber em casa personalidades como Autran, Tereza Raquel, o Arco-e-Flecha e Luíza Maranhão, tida à época como o “negativo da Sophia Loren”, por sua negra beleza. Em 1986 encontrei-o novamente em gravações de novela da Globo no Shopping Eldorado onde eu trabalhava. Servimos para ele sucos e saladas e falei-lhe rapidamente daqueles tempos de “Liberdade Liberdade”. Ele foi direto: preferia aqueles palcos mambembes às madrugadas de gravações de novelas. Parecia não gostar muito das câmeras. Pois lá estão os talentos, juntando-se no céu. Raul Cortez poderá dizer de sua admiração por Autran e da comparação com Sérgio Cardoso, tendo os dois à sua frente. Estarão juntos ainda o Guarnieri, a Dina Sfat, a Nara Leão, o Zé Kéti, o Plínio Marcos, o João José Pompeo, Lílian Lemmertz, Jardel Filho, Otelo Zeloni e o diretor Eugênio Kusnet. Como se vê, passar para o outro lado tem lá suas vantagens. Uma roda dessa dispensa cerveja e política, dá para escrever muito e trazer muito assunto para a próxima encarnação. Descanse em Paz, nobre Cavalheiro do Teatro Brasileiro!
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 19h51
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