Blog do J Ruy Veloso


OBAMA e STUART HALL

             

O símbolo                                Obama                  O povo               Hall

 

OBAMA e STUART HALL

Buscando entender o fenômeno de Barack Obama nos Estados Unidos e tentando encontrar algum laço que o compare ao fenômeno Lula no Brasil, voltei a trechos de material que escrevia em 2007 sobre identidade, hospitalidade e comportamento do consumidor. Naquele texto encontrei um trecho em que falo sobre Stuart Hall e achei interessante, como primeira abordagem, relembrar o caso Clarence Thomas e observar como as coisas mudaram. Por que me interesso sobre o  “porque” do sucesso de Obama? Porque não é só um problema dos estadunidenses. Isso nos afeta diretamente nesse mundo on line. Vejamos.

Stuart Hall, um sociólogo nascido na Jamaica e vivendo na Inglaterra desde os seus 18 anos, é um dos maiores expoentes da corrente conhecida como Escola de Birmigham.  Essa corrente reúne um conjunto de pensadores britânicos contemporâneos que, a partir de uma leitura do filósofo marxista Antonio Gramsci, fazem uma radiografia dos processos culturais contemporâneos, tendo como pano de fundo as mudanças societárias impostas pelo processo de globalização e a chamada cultura pós-moderna.

Para Hall, que considera que o conceito de identidade é ainda recente e ambíguo no campo da sociologia (e que correntes e/ou teóricos acreditam que as identidades modernas estão entrando em colapso), um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as sociedades modernas a partir do final do século 20. Ele entende que essa mudança estrutural está fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, “nos tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais”.  O sociólogo inglês relaciona a questão da identidade ao “caráter da mudança na modernidade tardia, em particular ao processo de mudança conhecido como globalização e seu impacto sobre a identidade cultural.” Para dar um exemplo concreto de sua visão sociológica do assunto, Hall  (Hall, 2005,pg. 18) trás o exemplo do escândalo estadunidense de Clarence Thomas, um juiz negro de visão conservadora e que foi indicado para a Suprema Corte daquele país pelo presidente Bush, de olho em restaurar a maioria conservadora naquela instância. Era o ano de 1991. O provável raciocínio de Bush, de acordo com Hall, era o de que os brancos conservadores, mesmo com preconceitos contra os magistrados descendentes de africanos, veriam com bons olhos a indicação por ser ele um conservador e, portanto, defender idéias da maioria branca. Por seu lado, os negros que apóiam políticas liberais em questões de raça, apoiariam Thomas porque ele era negro. Ou seja, Bush jogava o “jogo das identidades”. Vale observar aqui que é uma estratégia que tem caráter mercadológico considerando-se o objetivo final que é a satisfação do eleitor pelos atos daquele que eles elegeram. Ocorreu que, no meio do processo para a aprovação do indicado de Bush pelo Senado, apareceu uma denúncia de assédio sexual, feita por uma mulher negra, uma ex-colega de Thomas, chamada Anita Hill. Nas audiências que se seguiram instalou-se a polêmica no país de George Washington: Alguns negros apoiaram Thomas, baseados na questão da raça; outros negros se opuseram à nomeação, com base na questão sexual. Para as negras, a situação apresentou-se ainda mais ampla: defender sua identidade como negra ou como mulher, simplesmente? Mesmo os homens negros ficavam divididos: sob que ângulo olhar a situação? Política, Sexismo ou liberalismo? Homens brancos estavam também divididos, não apenas por causa da política, mas de como se identificavam com respeito ao racismo e ao sexismo. Já as mulheres conservadoras brancas, apoiavam o indicado, por sua inclinação política e, sobretudo, por sua oposição ao feminismo. E as mulheres progressistas que sempre tinham posições avançadas na questão da raça? Elas se opunham a Thomas com base na questão sexual (pressionar uma subalterna para favores sexuais é imperdoável). Para fechar o círculo, veio a questão de classe social, uma vez que a assediada era subalterna.  A questão objetiva no caso ClarenceThomas é a discussão do “jogo de identidades”. No mundo do final do século 20 a sociedade já estava fragmentada em termos de identidade. Muito diferente, pois dos anos 1960 quando a luta pelos direitos dos negros era uma bandeira de Luther King e resultava em passeatas e mortes na resistência à integração vinda, sobretudo dos Estados mais atrasados. Quem assistiu ao filme Mississipi em Chamas (EUA, 1988) viu a reação da conservadora e atrasada sociedade do Estado do Mississipi que era contra qualquer tipo de emancipação dos negros, encobria os assassinatos contra eles e chamava, acreditem, os agentes do FBI de “comunistas”. No século 21, pelo menos nas regiões não tão atrasadas dos EUA, as reações não são mais tão definidas. As identidades são, de acordo com Hall, contraditórias, se cruzam e se “deslocam” mutuamente. Isso afeta o comportamento do consumidor, naturalmente. Hall entende que as pessoas não identificam mais seus interesses sociais exclusivamente em termos de classe: (Hall, 2005, pg. 20)

“... a classe não pode servir como um dispositivo discursivo ou uma categoria mobilizadora através da qual todos os variados interesses e todas as variadas identidades das pessoas possam ser reconciliadas e representadas... uma vez que a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganha ou perdida. Ela tornou-se politizada. Esse processo é, às vezes, descrito como constituindo uma mudança de uma política de identidade (de classe) para uma política de diferença”

 

Obama, com certeza, deve ter Hall na bibliografia das obras que publicou. Obama compreendeu a questão das identidades e de como interagir com essa diversidade numa sociedade complexa como a estadunidense e que tem em comum uma preciosidade que a classe média e média baixa brasileira não vê nem de longe: o amor ao seu país e aos seus símbolos. A bandeira estadunidense é o maior dos símbolos da chamada “maioria silenciosa”  e o presidente dos Estados Unidos o segundo. Ocorre que Bush Filho deixou de ser esse símbolo e Obama, ocupou o espaço. O resultado dessa estratégia bem pensada pelo senador Barack Obama veremos depois que os democratas medirem forças com os banqueiros e os fabricantes de armas. Mas já foi um caminho e tanto.

Veneremur cernui

Et antiquum documentum.

Novo cedat ritui.

Praestet fides suplementum

Sensuum defectui

Voltaremos ao tema.

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 15h07
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