  
Algemas e outras bobagens
Não sei precisar a data, mas foi há uns seis anos passados. Num vôo doméstico eu conversava com um senhor do assento vizinho e falávamos das origens de cada um, eu de Araçatuba e ele de Bauru. No meio da conversa surgiu a questão da estatização das ferrovias e dos precatórios gerados pelo ato e que nunca foram pagos a uma família que ele conhecia. O vizinho de vôo me disse então que a causa esperava há anos no STF uma solução, que os dois principais acionistas já haviam morrido e que os herdeiros não tinham esperanças na solução do assunto. O Estado não lhes pagava e acabou. Quem pode contra o poder do Estado? Pois sempre me lembrava dessa conversa quando o STF julgava com pressa e presteza os recursos do então deputado e ex-chefe da Casa Civil José Dirceu. E depois dele outros fatos foram julgados rapidamente como pistoleiros em filmes de western. Agora aparece essa das algemas. Todos os jornais fazem uma análise sensata sobre o tema. As algemas incomodam a sociedade tanto quanto os braços de quem as têm nos pulsos. Não há como negar que a alta magistratura lembrou-se dos pobres e falou do pedreiro que foi julgado com algemas e que a medida, vejam só, servirá para os pobres. Mas foi gerada em razão dos ricos. Não há como negar. E os pobres que são algemados e mostrados para as câmaras de TV? Sabe-se lá se eles são mesmo culpados? Quanto tempo leva para que um advogado dativo comece a conversar com esse suspeito da periferia? A discussão sobre algemar ou não algemar é uma bobagem. Trata-se de um procedimento comum às policias do mundo. Tive a oportunidade de ver, num curso de Ciências Policiais no Estado de Ohio, a forma de algemar o sujeito que vai à Corte (Fórum): algemas nas mãos ligadas a um cinturão que tem outra corrente ligada aos tornozelos, que têm algemas em ambas as pernas. E daí? O instrutor disse que é um procedimento normal que evita acidentes e incidentes. E pronto. Prendeu na Wall Stret? Algemas neles. Crime é crime. O estuprador, por exemplo, quase sempre tem um desvio comportamental e ao fim e ao cabo deverá receber alguma atenção psiquiátrica. Mas é perigoso, para si e para a sociedade. Deve ser algemado e colocado em cela privada para evitar a “justiça” que lhes aplicam os presidiários. E os homens que desviam recursos públicos? Eles roubam o erário e, portanto, aquele dinheiro que poderia ter ajudado a família do criminoso “pé-de-chinelo” que acaba nas prisões transformando-se em ferramenta do crime organizado. Os ladrões engravatados do erário têm mais culpa do que o desestabilizado mental e social. Qual o problema em algemar um Paulo Maluf e um Pitta? Ora, que nos poupem os doutos da Corte Suprema com suas justificativas sobre quem oferece ou não perigo. São eles ou os agentes da frente de combate ao crime que decidirão isso? E a questão dos fichas sujas? Vivemos uma situação onde os cães criam regras para a guarda das lingüiças. Assim é o Poder Legislativo maior. É curioso que eles possam se candidatar com tantos processos graves nas costas e o contribuinte não possa, por exemplo, prestar serviços ao Estado se tiver qualquer tipo de problema com a justiça. Ai de nós, simples mortais, se tivermos débitos com a Receita Federal. Não podemos fazer nada. Estamos de mãos amarradas. Já os candidatos podem, mesmo com processos de corrupção, assassinatos, desvio de dinheiro público e tantos outros crimes, chegar ao poder e lá de cima, olharem soberanos para os demais contribuintes, todos com o nariz vermelho circense, e dizer-lhes o que podem e não podem fazer. E como ficaram os processos sobre o mensalão, sobre os cartões de crédito corporativos, sobre os “aloprados”, sobre o “dinheiro na cueca”, sobre os vínculos com as FARC e sobre, sobre etc.? E as mortes nas estradas? E a guerra no vizinho país do Rio de Janeiro? Disso ninguém fala. Já sobre indenizações para os supostos torturados quem entende bem é o Greenhald, ex-deputado e advogado que tão bem defendeu os seqüestradores de Abílio Diniz e faz tentativas para defender os que seqüestraram o Washington Olivetto. Esses bandidos têm ligação com o MIR, um movimento guerrilheiro do Chile que não quis se aposentar com a chegada da democracia e aliou-se às FARC e ao MST. Por conta de dias de prisão durante o regime militar, muita gente enriqueceu. É uma mistura de ideologia com memória e oportunismo. Ditadura e tortura, nunca mais. De acordo. Queimar arquivos dentro dos partidos é que foi algo inovador no país. Perguntem pra viúva do Toninho do PT, lá de Campinas/ SP, quanta atenção lhe deram o Lula e o senhor Tarso Genro. Arhf! É muita bobagem?
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 23h18
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