 
Os sapatos de Aristeu O cineasta, a menina e o homem-sanduíche
Festival de Curtas, esperança e orgulho.
O KinoFórum, Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, aconteceu entre 22 e 29 de agosto, agorinha, em 2008. Foi um evento que atraiu um público com interesse na arte, mas de toda idade e gênero. Lá estão os “olheiros” de agências, os apaixonados por cinema dos 12 aos 80 anos e, sobretudo, estudantes e recém-formados nas artes de imagens. Só a visão do foyer das salas de projeção já é um acontecimento a parte. O visual de cada um pode ser uma verdadeira alegoria. Mas isso não é o mais importante. Importante mesmo é perceber o talento e a sensibilidade dessa nova geração. Há nesses filmes, sem exceção, mensagens claras, diretas, sobre dilemas da vida, sobre intolerância, fraquezas humanas e solidão. São temas recorrentes nos curtas, podem dizer, assim como as denúncias sociais. Pois é. Pode ser. Mas ainda assim soa esperançoso para a minha geração com mais de meio século. Trata-se de ver que essa gente jovem gosta da arte e tende a colocá-la a serviço da sociedade como forma de entretenimento de bom nível, seja tratando da solidão vivida por casais modernos, pelos embalos das rave ou pela intolerância das famílias à opção sexual dos filhos. Atrevo-me a dizer que é uma geração que oscila entre François Truffaut, Pedro Almodóvar e Fernando Meirelles, alguns com toques David Lynch. Não é exagero. Eles sabem usar seus parcos recursos. Não é o Cinema Novo. É a nova geração do cinema nacional que pensa mais em cinema social do que em cinema publicitário. Não é um cinema patrulha. É, digamos, uma arte engajada. É gente que sabe das coisas, antenada e de futuro. Por que falo disso? Por esperança e orgulho. Esperança por tudo o que acabo de dizer, vendo filmes como Eletro Torpe, de Yuri Amaral e Espalhadas no ar, de Vera Egito. Orgulho porque o júri, indicado pelas empresas parceiras que ofereceram o prêmio, formado pelos críticos Cesar Zamberlan, Rafael Barion e pelo jornalista Eduardo Ribeiro, apontou como vencedor o curta-metragem Os Sapatos de Aristeu, de René Guerra, cuja assistente de direção foi a minha filha Camila Gutierrez Campos e cuja edição foi de seu namorado, o Vini Calderoni. Os sapatos, trata da intolerância de uma família de classe média baixa à opção de transsexualidade do filho e irmão. Guerra é um diretor e roteirista de talento e não é a primeira vez que trabalhou o tema do homossexualismo. Os travestis que participam do filme são figuras desse mundo na paulicéia e as atrizes principais ninguém menos do que as veteranas Berta Zemel e Denise Weinberg, além de Phedra D. Córdoba. No Festival do Rio de Janeiro, Berta Zemel ganhou Menção Honrosa por seu desempenho. A fotografia é impressionante e nos integra de vez à situação. A canção de Violeta Parra para o funeral é um dos pontos altos dessa obra de quinze minutos: Grácias a la vida, que me há dado tanto! Me dió dos luceros que cuando los abro Perfecto distingo lo negro del blanco ... Ah, a gente fica feliz e orgulhoso. Para quem não entende e vê um curta, arrisca-se a achar que é tudo fácil. Como dar um depoimento de uma vida toda de sofrimentos, alegrias e tantas dores em quinze minutos? Na dúvida, experimenta escrever sua vida em uma página em Verdana fonte 12. Tenta... Minha Camila fala pouco e observa muito. Sua câmara fotográfica registra imagens cujos contrastes passam despercebidos para a maioria. O mesmo se dá com os seus make off. Camila compõe com seus amigos talentosos parte dessa geração. E o outro produto inesquecível, venceu também em Floripa no Florianópolis Audiovisual do Mercosul. Trata-se de O cineasta, a menina e o homem-sanduíche, que tem a direção da não menos talentosa Daniella Saba, a fotografia de Laura Del Rey (especial amiga da Camila) e uma impecável direção de arte de Mário Surcan. A atriz mirim Monize Camargo é uma revelação. A Camila fez a montagem e o tema das aflições do cotidiano de três pessoas de universos distintos é narrado com clareza, ternura e realismo. Assim é. Se nos resultados das Olimpíadas de Pequim ficou claro que o país não se preocupa com recursos para preparar futuros atletas a partir do ensino básico, é claro também que são poucos os espaços que permitem aos novos cineastas apresentar seus trabalhos e construir uma indústria do entretenimento que gere emprego, diversão e menos gente aculturada pela indústria de imagens da Costa Oeste estadunidense. Aqui, com exibidores atrelados aos blockbusters do Norte, jamais alguém terá uma chance como teve Spielberg com o seu “Encurralado” (Duel,1971) filme com o qual o diretor que hoje é milionário, mostrou seu talento, foi reconhecido, abandonou a universidade e fez a vida. Poucos aqui investem no cinema porque as chances de exibição são poucas e o retorno é duvidoso. Um perverso ciclo vicioso. Mas essa geração vai ganhar esse espaço porque muitos deles, que não estão no cinema e sim no mundo dos investimentos, vão acabar virando produtores. Querem um exemplo? Procurem pelo Cláudio Sjasman. Pode ser uma tentativa promissora. É questão de insistir.
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 14h12
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