Blog do J Ruy Veloso


SOBRE MUSAS

De acordo com o Michaelis, Musa é “suposta divindade ou gênio que inspira poesia; faculdade de fazer versos; tudo o que pode inspirar um poeta”. A lenda grega diz que quando os deuses do Olímpo tiveram vitória sobre os filhos de Urano, os titãs, eles pediram a Zeus que criasse divindades para cantar a vitória e perpetuar a glória dos Olímpicos. Zeus então copulou com Mnemósine, a deusa da memória, por nove noites consecutivas. Dessas relações, Mnemósine gerou nove filhas de uma vez em um lugar próximo ao monte Olimpo. Musa tem também um significado botânico: é o gênero das musáceas, ervas perenes, fortes, vivamente coloridas, com frutos carnosos. Enfim, musa quer dizer algo de bom para se ver, se inspirar, admirar. Musas se constituem em wishful thinking de algum tipo de competência, beleza, liderança ou mesmo de desejo e paixão. As musas inspiram e se tornam heroínas, marcas e razões para lutas, persistências, força e até obstinação, quando já beira o descontrole. Musas surgem nos momentos importantes da vida das pessoas e nos movimentos emblemáticos da sociedade. A sociedade brasileira já teve várias delas. A Fafá de Belém foi a Musa das Diretas, à época das “Diretas Já” e que resultou na eleição e morte de Tancredo Neves nos anos 80. Os maldosos de plantão diziam que se Fafá subisse num palanque o candidato poderia ficar feliz se apenas perdesse a eleição e ainda ficasse vivo. Mas ela empolgava as multidões com seus peitões de fora cantando, a todo peito, o hino nacional, coisa difícil na ditadura e hoje banalizada em qualquer formatura brega de faculdade particular. E Rita Camata. Ah, Rita! Quem tinha tesão por ela era um meu compadre estadunidense que dizia: “ele é um mulher linda e compotente”. Camata tratava das questões dos menores, da prostituição infantil e da defesa da mulher. Sabrina Sato, argh, coxuda às tantas, é brega e foi escolhida musa dos motoboys. Faz todo sentido... Heloisa Helena foi também uma musa, no Senado Federal. Sempre de calça jeans, camiseta branca, rabo de cavalo e óculos, ela surpreendeu aquela Casa de Leis quando apareceu “vestida de mulher” e mostrando um belo par de pernas. Ela justificou: tinha vindo direto de um casamento. Foi uma semana de fotos nos jornais e até uma montagem dela para a capa da Play Boy. Achei fora de propósito seu choro quando o Senado teve que sabatinar o candidato à presidência do Banco Central Henrique Meirelles. Ela chorou porque Meirelles “representava o sistema financeiro neoliberal”. Mas Musa mesmo foi (continua sendo) Catherine Deneuve. Musa do cinema francês, musa da alta costura e alta joelheria, ela sempre inspirou Yves Saint Laurent. Como outras famosas e lindas (Bardot e Jane Fonda) ela foi mulher de Roger Vadin, o diretor. Para mim Musa é alguém diferente, que se sobressai mesmo que no seu recato. Musa é coisa que vem de dentro. De repente a gente olha e poing é uma Musa. Não importa o alcance (uma vez que se trata de uma divindade), não importam as possibilidades, dane-se a realidade. É uma Musa e pronto. Em minha vida aconteceram algumas. Que me lembre a primeira foi a Hortência, uma vizinha da casa da frente, quando eu tinha uns sete ou oito anos e ela uns dezessete ou dezoito. Vá lá, fui um pouco precoce. Mas Hortência tinha outras irmãs: Maria, Sônia e Tereza. Nenhuma delas feia. Mas Hortência era morena e tinha olhos verdes. Os cabelos ondulados eram pretos. Quando saiam as irmãs, juntas, para ir ao cinema ou ao footing, uma ia limpando os cabelos das costas da outra com um leve passar de mão. Ah, inveja. Era a Hortência, e fosse loura e de olhos claros seria a minha Musa do mesmo jeito. Ela me lembrava as atrizes do cinema da época e pronto. Entre dez e onze anos a professora Clara, de francês, foi outra Musa. Clarinha na pele, como anunciava o seu nome, ela tinha cabelos muito pretos e cortados no tipo Chanell. Sua voz era doce e suas mãos grandes e delicadas. Nunca consegui ver seus pés, mas adorava a atenção que ela me dava e de como pronunciava macio: le cheval est le seul animal que nous ... Na vida adulta, a poesia das Musas misturou-se ao pragmatismo e no fast track das abordagens. Romances viraram casamentos, deram grandes alegrias, filhos, muitas frustrações e desenganos, mas, sobretudo, felicidade. Porque assim é a vida. Agora, na maturidade, solteiro, vivo a volta das Musas. E sinto-me bem assim. Prefiro minha Musa na minha visão herege do que os querubins que as substituíram na visão cristã. Os querubins foram representados pelos pintores Da Vince e Boticelli, como jovens de cabelos compridos de cor loura, avermelhada ou castanho clara, de olhos geralmente azuis e com traços andróginos, providos de asas eriçadas ou em repouso e predominavam nas telas como a representação daqueles seres seráficos que privavam com o mundo divino e o humano. Querubim é boiolagem das grandes e cheira pedofilia. Musa é vontade de ver, o prazer de estar e a curiosidade da distância. Musa não é flerte. Milan Kundera, que fez sucesso com o seu “A insustentável leveza do ser” diz em seu texto: “o que é flerte? Pode-se dizer que é um comportamento que deve dar a entender que uma aproximação sexual é possível sem que essa eventualidade possa ser entendida como uma certeza. Em outras palavras, flerte é uma promessa, mas uma promessa sem garantia” Uma Musa não é promessa e nem certeza de nada. Apenas nos faz bem, reanima nosso diálogo conosco mesmo, nos faz interessados e mexe com o amor, o que quer que isso possa significar. Ter uma Musa é perceber que se está vivo. Das Musas aqui lembradas, três diziam de perto do desejo de acertar a vida política nacional, uma outra mantinha a imagem do que foi um dia o cinema francês e aqueloutra roliça, faz a festa dos sofridos motoboys que a namoram nos outdoor nas ruas ou nos calendários dos banheiros. Todos percebem que estão vivos.

Uma Musa me faz sentir-me vivo. Uma Musa que tem inteligência e humor é mais do que Musa. É um sinal vital no fundo d´alma.

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 12h49
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A CIA E A WALL STREET

 

...Por analogia, compreendemos que, mesmo na hipótese mais pessimista, e o mundo dos anos 1930 era singularmente pessimista, somente alguns elementos aqui analisados poderiam se desencadear entre 2005 e 2020, mas jamais todos ao mesmo tempo. Entretanto, a combinação imprevisível de dois ou três deles já nos traria sérios problemas. Seis irrupções catastróficas são detectáveis:

A atual postura econômica dos EUA

tornar-se-ia insustentável em curto prazo

 

Dessa hipótese conhecemos os determinantes. Podemos constatar um triplo desequilíbrio: endividamento familiar, por interrupção da poupança norte-americana; déficit orçamentário crescente, resultante da recusa ideológica de todo e qualquer aumento de impostos e, finalmente, déficit explosivo da balança comercial. Um belo dia, o desequilíbrio global provocaria a ruína. A queda muito rápida do dólar levaria a uma subida brutal das taxas de juros, o que tornaria mais lenta a economia interna, no mínimo durante dois anos. A desvalorização dos trilhões de dólares que os bancos asiáticos detêm – os chineses em primeira posição – arruinaria o sistema financeiro de Pequim, no momento em que a diminuição do ritmo das transações comerciais transoceânicas provocasse um vasto choque na indústria chinesa. Sob pressão e incentivo de formas populistas e demagógicas, o protecionismo ressurgiria nos EUA, seguido pela Europa e pelo Japão, que montariam esferas de influência exclusivas como defesa. Para a primeira, uma no Oriente Médio, para o segundo, outro no Sudeste Asiático, em oposição direta à China.”

 

Esse texto encontra-se à página 50 do livro “O Relatório da CIA, como será o mundo em 2020 traduzido por Cláudio Blanc e Marly Neto Peres, publicado pela Ediouro em 2006, com a apresentação brasileira do jornalista Heródoto Barbeiro. O título original é Le rapport de la CIA: Comment será le monde em 2020? Com direitos da Éditions Laffont.

Seguem o texto considerações sobre a perturbação da globalização que levaria ao triunfo das forças autárquicas na China; sobre a criação de um novo eixo antiglobalização a partir da reviravolta chinesa; o aumento do poder eurasiano (China, Rússia, Iran) e perturbações no Ocidente (Europa e América Latina); o islamismo radical manteria suas alternativas no Oriente Médio e, último estágio: as brasas mal apagadas da Al Qaeda fariam as chamas renascer com mais força.

 

Tiramos daí três lições: 1- a CIA é menos estúpida do que nos querem fazer crer os ideólogos latino americanos; 2- A quebradeira da semana passada nos EUA confirmam as previsões; 3- A ABIN deveria ler o livro e aprender a fazer pesquisas qualitativas. Ô raça! 

Sobre o livro já falamos aqui neste Blog em 28/09/2006. Faz tempo...

 



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 23h38
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