Uma aula especial
UMA AULA ESPECIAL
O trabalho de professor sempre se constituiu um desafio dos grandes, sobretudo numa sociedade católica e de herança escravocrata como a brasileira. Ser professor no começo do século 21 é no entendimento de alguns um trabalho de bóia fria de luxo. De fato, num tempo em que estudantes das escolas superiores privadas, modo geral, não têm tempo/interesse pela leitura, qualquer uma delas, ou pela informação, ser um professor motivado exige mais do que talento. Exige mesmo é doação. Se considerarmos que em muitas dessas instituições nem mesmo o vínculo trabalhista existe mais, agora substituído pelas cooperativas (como já ocorre com os médicos nos hospitais) aí então, os professores terão que exigir ainda mais de si mesmos. Mas o que é gratificante nessa profissão é que se ouvem os discursos na sala dos professores, onde a adrenalina corre solta antes das aulas (e depois também) falando desde Obama, crise mundial e salários, até o calendário de feriados que, haja, às vezes oferece boas folgas e então, haja de novo, atrapalha o desenvolvimento das aulas. Professores se preparam para as aulas, ali na sala deles, como soldados que preparam suas armas ou aviões para a batalha nos filmes estadunidenses. Afiam seus notebook, carregam seus PowerPoint e perguntam sobre os territórios e lutas: como foram os TCC da Mônica e do Rodrigo Careca do 8º D? Quem está no 6º B na primeira aula? Putz, meu filme não quer rodar nesse computador! E vão decolando, um a um para suas missões onde são recebidos sempre com sorrisos, solicitações, justificativas e cansaço. Mas reconhecidos como bons guerreiros. Mas porque falo disso? Porque semana passada assisti a alguns minutos da aula da Tati. Simples assim. Tati. Lá estava ela, na sala 16, com uma turma de 6º semestre de Educação Física, absolutamente atenta, participativa, entusiasmada e motivada. Mais do que isso, os estudantes assistiam às suas explicações e faziam intervenções com amor. Isso mesmo. Amor. Tati estava lá, imóvel, numa cadeira de rodas, explicando sobre a diversidade, o preconceito e a interação dos futuros professores de educação física com pessoas portadoras de algum tipo de deficiência. Falava tranqüila, meiga, porém firme. E a sala ali, sem perder uma só palavra. Alguns estudantes tinham os olhos vendados e tentavam sentir o que se passava à sua volta. Os colegas tiveram que explicar a minha entrada na sala. E a professora seguia explicando e ouvindo a experiência de cada um deles, já no mercado de trabalho. Um era professor de natação de dois garotos, gêmeos e autistas. Outro era professor de natação de uma limítrofe com sexualidade acentuada e foi por aí. Mostrou um trecho de filme que trata da relação entre um sentenciado à pena alternativa e uma deficiente e já passava das vinte duas e trinta quando ela deu sua última mensagem remetendo-os à próxima aula. Foi aplaudida em pé por todos. Levantou-se da cadeira e esticou as pernas. Ela não é portadora de deficiência física. É uma mulher saudável, jovem e bonita. É uma professora que gosta do que faz. É uma pessoa feliz em sua profissão e querida pelos seus estudantes/clientes. Ela pode ser tema para um roteiro de filme estadunidense. Tati, em seu trabalho, traduz a essência do que é ser um facilitador do conhecimento. E nos faz orgulhosos de estarmos em sala de aula. Tatiana. Uma professora que não será esquecida. (Tatiana Passos Zylberberg é graduada, mestra e doutora pela Unicamp na área de Educação Física. Artista plástica e poetisa é professora na Metrocamp, Campinas).
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 23h07
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