Sobre relações, solidão e egoísmo

Touraine Reich Toffler
Sobre relações, solidões e egoísmo.
Caio é um jovem de boa cabeça como tantos poucos outros que pouco encontro por aí. Gosto de falar com ele porque é possível trocar idéias sem ficar com aquela sensação de contas a receber. Falamos de coisas comuns como bundas das colegas, política e arte. E dia desses ele me falava da namorada que, psicóloga/culinarista, lhe falou de uma tendência que vai se consolidar nessa metade do século 21: as relações egoístas. Explico: as mulheres e os homens tendem (rão) a manter suas relações afetivas com uma prudente distância do outro. Trata-se mesmo de uma distância física, em moradias separadas e ao contrário dos anos 1970, quando havia uma propensão à promiscuidade, as relações manter-se-ão firmes e cercadas de fidelidade. Os pares serão solidários nas necessidades e nas dores e aí, nesses casos, dividindo o dinheiro e a presença. Passada a tormenta, tudo volta como dantes: à distância. Isso sinaliza um pressuposto de baixa natalidade e um novo perfil de família, diferentes das "famílias modernas" do final do século 20 quando os pais separados constituíam novas famílias e os filhos dos casamentos anteriores se misturavam aos meio irmãos. Intelectuais distantes em seus estudos de mundo como o sociólogo Alain Touraine e explorador de cenários Alvin Tofller, trataram, cada um a sua maneira, dessa tendência.
A visão de futuro de Alvin Toffler era muito diferente da dos principais pensadores dos anos 70, que previam um futuro de ócio, após décadas de criação de riqueza e de padrões de vida elevados. Toffler previu um futuro de insegurança e humildade, no qual a tecnologia iria transformar os métodos de trabalho, em vez de acabar com o trabalho humano. Isso mudaria o comportamento da sociedade (a composição das famílias, os clubes familiares) e suas necessidades de consumo. O foco de Toffler são os governos e as empresas.
Alain Touraine dá importância ao tema da alienação - esta, pautada pela participação dependente, ou seja, a integração dos indivíduos no jogo dos aparelhos dominantes que visam impor um modelo de desenvolvimento econômico sob um aspecto impessoal, de forma a aparecer como única alternativa possível no interesse de toda a sociedade. Os termos de que Touraine se utiliza para descrever esta alienação são a integração, a manipulação e a sedução. Para o sociólgo francês, as consequências sociais de uma mulher autônoma e independente do homem não são fruto do feminismo: As mudanças em curso, na família como na vida sexual, não são, provavelmente, efeitos antes de tudo do feminismo. Mais exatamente, observa-se a separação da sexualidade e da vida cultural em geral e a construção propriamente social de um modelo de família e também de menor dominação masculina. Estamos apenas no início de uma evolução rápida que separará condutas sexuais sempre mais diversificadas e a construção da vida familiar, tomando, ela própria, formas muito diversificadas. A relativa facilidade com a qual se avança para o reconhecimento do casamento homossexual indica que as barreiras tradicionais se enfraqueceram consideravelmente.
Em seu livro Le Monde des femmes, em português, "O mundo das mulheres", (Vozes) Touraine explica o que há de diferente no "olhar feminino" sobre a vida: A sociologia das mulheres é uma parte essencial de uma sociologia geral. Já agora, uma grande parte dos debates da filosofia política e social e da sociologia é construída sobre os problemas postos pela situação e a ação das mulheres. Nossas sociedades modernas são dominadas pelo recentramento sobre o indivíduo, considerado em todas as suas funções e em seus direitos. Pode-se, também, dizer que o tema da sexualidade ocupa aí o lugar central, que era antes o do trabalho na sociedade industrial e são as mulheres que escrevem as obras mais essenciais neste domínio. Não é preciso deixar-se limitar aos problemas da desigualdade. É preciso eliminar toda referência mais ou menos psicológica ao feminino. Em troca, é preciso compreender por que as mulheres estão na origem da nova sociedade e da nova cultura que se forma sob nossos olhos.
Pode parecer que a visão de um e de outro não explique o porquê dessa tendência de solidão e egoísmo. Todavia é preciso compreender que o mundo do século 21 é assombroso porque competitivo e devorador, tanto nas relações de trabalho quanto nas relações afetivas. As mulheres e os homens não se sentem seguros, antes, usados. Pelas empresas, pelo Estado e pelos parceiros eventuais. As empresas os usam tanto quanto os parceiros. As carreiras são fugazes e os namoros também. Tudo é fast track: a empresa quer resultados rápidos e os parceiros também. Não querem (precisam?) nem mesmo uma relação sexual duradoura como propunha Reich em seu livro "Casamento Indissolúvel ou Relação Sexual Duradoura". Reich analisa a questão de dois pontos de vista, o econômico e o sexual. Para ele o casamento do ponto de vista econômico baseia apenas na relação compulsória entre homem e mulher, em que a base é de interesses econômicos ressaltando o papel da mulher e dos filhos. Este é caracterizado como casamento indissolúvel. Do ponto de vista sexual, Reich trata o casamento com uma relação baseada em necessidades sexuais e que por isso tem a pretensão de ser mais plena e duradoura. Mas isso foi escrito na década de 1930. No século 21 o jovem não sabe se quer ser pai. Quando mais maduro, aos quarenta, acha que já está velho. E aí se vai a natalidade, aí se vai o conviver na divergência, aí se vai o casamento tradicional. Parece que as novas gerações não querem ter que enfrentar, juntos, as cólicas menstruais, TPMs, puns e eventuais roncos. Isso exclui também sogras, cunhados chatos e sobrinhos pentelhos. Na prática, o século 21 parece retomar a política dos haréns: mulheres (e agora os homens também) prontas para ao uso, sem sangue, dor de cabeça ou dor de barriga. E sem vida no ventre. Só prazer e lascívia. Exagerei. Mas dá o que pensar...
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 00h47
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