
Amores impossíveis, semi-possíveis e até possíveis.
No primeiro ano da escola primária eu tinha seis anos. De longe curtia a paixão por Gilda. Pequena, cabelos pretos curtos, olhos redondos negros e um sorriso enigmático. Ela teria a minha idade, é claro. Depois foi a Hortência, a musa já explicada neste Blog. Era uma vizinha com os seus dezessete anos e três irmãs também bonitas. Amei-a com certo desespero. Depois foi a Maria Angélica. Falamos de namorar através de recados de outras meninas. Eu tinha então oito anos e andava o dia todo de bicicleta. Fui para o colégio, interno, e só pensava nela dia e noite. Tinha os cabelos queimados do cloro da piscina, pernas magras e um sorriso raso. Mas era meiga. Nunca peguei na sua mão. Depois do internato vieram mais duas vizinhas: Maria, morena de cabelos pretos e pele clara, tinha uma expressão um pouco triste e morava numa "casa de fundos" o que me dava uma certa pena e aumentava o meu querer para "salvá-la". Mas quem me dava bola mesmo era sua amiga que não saía de lá, a Sidnéia. O nome já complicava e o visual me afastava embora me enchesse de tesão: cabelos tingidos de loiro e penteados no estilo Brigitte Bardot. Saias bem curtas, batom deverasmente vermelho e unhas idem. No dia em que criei coragem e me aproximei dela, num domingo à noite na "Quadra Cinqüentenário", onde víamos jogos de basquete, o irmão (o Sidnei) chegou com uma tropa para me bater. Com vergonha e medo chamei-o para "ir lá pra fora". Quando me vi na rua corri até não mais poder e numa esquina me atirei na grama do Grupo Escolar Cristiano Olsen que tinha uma mureta baixa. Deitado na grama fiquei quase sem respiração aguardando que passassem os meus algozes. Nada aconteceu e uns quinze minutos depois corri para casa e nunca mais dei bola para nenhuma das duas. Aos quatorze anos foi a Keta, que aconteceu por acaso já que o alvo era a Rosa. Mas dela extrai o primeiro beijo de língua encostado no muro da casa da Rosa que ficava ao lado do pensionato japonês. Depois veio a Rosa. Ah, paixão conturbada que durou dos quatorze aos dezesseis, acho. Beijos e amassos com muita pureza, porque achava eu, não devíamos ir mais longe, ainda que oportunidades não faltassem. O pai repressivo me amedrontava. Mas foi o primeiro convívio com outra família e o primeiro ciúme de mulher bonita e provocante. Ela era perigosamente explosiva e jogava charme. Tinha a pele macia e duas marcas inconfundíveis, numa perna e num dos braços. A boca grande era o seu grande charme, sorrindo com os dentes separados. Ah, Rosa... Acabamos antes de ela mudar-se para o Rio, já levando uma vida adulta. Eu continuava criança. Num mês de julho, aos dezesseis, a paixão foi a prima Isis. Ah, como doeu aquele final de férias de inverno ao vê-la voltar para sua casa e dias depois perder o seu pai estupidamente em um acidente. O fetiche de seu nariz adunco, no entanto permaneceu em todas as futuras grandes paixões. No interregno da prima surge a Cristina, cujas pernas roliças e o accent morno das alterosas belorizontina, deixavam meia cidade eretiva. Sempre nos declaramos, mas tudo não passou de uma provocação dela que mexeu com minha testosterona. Algum rala-coxa sob mesas, apertos de mão sorrateiros e um beijo fugidio numa excursão a uma queda d´água. Depois foi muito fast track: a Margarida, de cabelos pretos longos e um rosto comprido. Ela se achava feia porque tinha uma prima loira de olhos azuis que fazia sucesso. Pois eu a gostei e foi tudo muito rápido, não passando de beijocas à socapa da tchurma. Mas antes dela houve a Sheilla. Ah, a menina que morava na Phillip Hill Road, San Bernardino, Califórnia e veio para o Brasil pelo American Field Service. Seu pai era engenheiro de plataforma de lançamento de mísseis em silos e ela tinha uma impressionante consciência ambiental, lá nos anos 1960. Foram beijos trôpegos e apressados no jipe que eu tinha. Seu rosto era meigo e ela tinha vergonha da acne e da pele oleosa. Suas pernas eram magras e bem feitas e seus pés (andava muito descalça) eram semi-angelicais com os dedos um pouco afastados entre si. O cabelo loiro era escorrido e quando ela chegou fingiu não entender nada do português para saber o que falavam dela. Como falavam um monte de besteiras achando que ela não entendia e eu, politicamente correto, a defendia, saí ganhando com mais de um pescoço de vantagem. E ainda por cima, gaguejava o meu inglês. Essa é a fase 1,5. Volto com outras.
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 14h44
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