
A CIGANA
Passou por nosso stand naquele evento, recendendo algo parecido com alfazema. Sua roupa era característica: saia comprida rodada vermelha, com babados; blusa vermelha e amarela com babados brancos e lenço vermelho arroxeado no pescoço. Nos braços muitas pulseiras e os dedos entupidos de anéis. Na cabeça, acho, um lenço. Batom vermelho e todas as unhas também absolutamente escarlates. Parou no stand vizinho e ficou olhando a nossa TV. Fui no impulso. Cheguei perto, abri a mão esquerda e mostrei-lhe a palma. Ela falou firme: se quer que eu leia a sorte vamos ao meu stand. Se você é participante do evento são vinte reais. Fechado o negócio, fui seguindo-a. Lá tinha de tudo: imagens de santos, almofadas no chão e uma mesinha redonda com duas cadeiras. Tudo coberto com aqueles tecidos de cortinas pesadas. Sem delongas ou um intróito qualquer pegou um lápis, abriu um bloquinho de notas e foi perguntando data de nascimento. Mal acabou de marcar os números que eu lhe passava e foi dizendo sem rodeios: 2+3 são cinco, 05 são cinco. Isso mostra o "Papa" no Tarô. Você é um sujeito que dá tudo de si e espera a retribuição. Besteira. Ela não vem necessariamente. Dê o que quer dar de si e se contenta com esse prazer. Não idealize as pessoas de acordo com seus sonhos, no amor e nem no trabalho. Elas são o que são e você vai gostar delas, ou não, assim como elas são. Essas pessoas que você desenha são na verdade a sua alma gêmea, seja masculina ou feminina. E o que você tem contra os homens? Eles podem ser amigos também. Em seguida virou a página e começou a somar atrás as datas e o ano de 2009. Depois somou os números do resultado, extraiu nove do resultado e foi categórica: o seu número é do louco (carta do tarô?) e o ano do louco vai acabar no dia 21 de março. Isso vai encerrar um ciclo. E aí vem o melhor: começa o ano da colheita. Se você estiver plantando bem vai colher muito e pode ser coisa boa. Se o plantio não está indo bem, ainda dá tempo de renovar. Sem tomar fôlego perguntou: quer que eu leia o baralho ou a mão? Escolhi a mão. E aí chega. Não conto mais. Pode ser, como sempre, uma grande coincidência, mas minha conversa de doze horas passadas veio à mesa. A cigana repetia, lendo a minha mão, tudo o que eu já ouvira há doze horas atrás. Não foi mole. Depois, só pra complicar, deu outro vaticínio. E não esse não foi agradável. Mas o que fazer? Se é tudo mesmo uma grande brincadeira, quem mandou eu brincar com histórias que podem dar medo à noite? Se não for brincadeira, quem me mandou perguntar e ainda por cima pagar, para escutar o que pode não ser bom? Aí eu lhe disse, pô pegou pesado! E ela disse: falei porque você é forte e precisa saber, senão não teria me chamado lá. Não me ofereci. Você é que veio. Era verdade. Paguei e fui saindo. O cheiro de alfazema aumentou. E o dia mudou.
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 22h51
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