CRISE
Crise 1. Suzana Toledo me encontrou na porta da faculdade. Não era dia letivo. Ela me abraçou com força: prófe, eu tô saindo, ou melhor, tô trancando. Que foi? Ela, em lágrimas: perdi o emprego na fábrica. Dizem que a venda de celulares caiu mais de 35%. Sacanagem! Também acho. Caiu nada prófe, eles querem mesmo é se livrar da gente. E o marido? Ah, coitado, tá de corretor de casas de aluguel. Imagine prófe, logo ele que é demais em informática, formado lá na Cidade de Deus em Osasco, ainda no tempo do Amadeu Aguiar. Quantos anos tem seu marido? Cinqüenta e três. E você? Já fiz trinta e dois. Puta crise prófe, puta crise... No casamento? Isola! Que é isso prófe? O maridão não me deixa e nem eu a ele. Agora, se eu não me formar, vai ser difícil emprego. Lá na fábrica eles me davam vinte e cinco por cento da mensalidade. Mas e agora? Agora? Só agradeço a Deus que não fiquei grávida. O maridão tem um filho na faculdade, mas ainda bem que é na Unicamp. Mesmo assim ainda gasta muito em livros e outras coisas. É... E o senhor prófe, muita consultoria? Quase nada...O senhor acha que é crise mesmo? Acho que é pra valer. Sério?! É... Tem que ler jornal, o Valor, o Estadão etc. É verdade o senhor sempre fala isso... Que curso faz o seu enteado? Adivinha né? Ciência da Computação... 2. Amadeu tirou os sapatos e pegou uma cerveja na geladeira. Ligou a TV, mudou de canal várias vezes, deixou no GNT e tirou o som. Eram horas. Foi levantando e sentando até a quarta cerveja. Sempre com a imagem, sem o som. Já estava bocejando quando a porta da sala se abriu e Cláudia entrou com sua bolsa a tiracolo e a pasta com notebook na mão esquerda. Ela olhou para ele no sofá enquanto tirava os sapatos. Ao pendurar a bolsa no mancebo que compraram lá nas cidades históricas percebeu as cervejas abertas e vazias sobre a mesa de centro. Disse automaticamente oi amor e foi indo para ao banheiro. Precisava lavar as mãos. Amadeu não se mexeu e nem mexeu na TV. Ela voltou sem a saia, com a meia calça, a blusa, o colar de bijuteria e os brincos delicados. Beijou-o suavemente na testa e sentiu o cheiro forte da cerveja: você tomou quase cinco litros de cerveja, Amadeu. Cada garrafa tem 900ml. Amadeu piscou e sorveu de uma vez o último copo. Depois depositou-o devagar sobre a mesa toda molhada pelo degelo das garrafas e voltou a olhar para a TV. O que houve? Ele continuou mudo. Diga homem, o que foi? Ele olhou-a com força, lá no fundo dos olhos, segurou seus braços e falou: é a crise. Como assim? Ganhamos hoje a ação contra o governo a favor do aumento do seguro da MedSalva. Ah, querido, que beleza! Você é o homem. E foi abraçá-lo. Ele se esquivou e levantou. Porra, sabe quanta gente com mais de setenta anos vai ficar sem o seguro saúde? O que é isso Amadeu, você é um advogado... Foda-se! Eu não gostei do que fiz! Calma Amadeu, o que é isso? Você vai ter três e meio por cento da causa, calma! Foda-se o dinheiro mulher. Eu ferrei aquela gente. Não gostei de mim. Calma Amadeu! Eu estou calmo, porra ! Você me põe nervoso! Não gostei do dia de hoje, mulher, não gostei! Ela saiu devagar e entrou no banheiro. Já no box, sob o jato de água morna e passando suavemente as mãos sobre os seios lembrou-se com um sorriso nos lábios nas horas que passara com Artaxerxes, o sócio do Amadeu, naquele fim de tarde. Ele sim, compreendia melhor muitos dos sentidos, inclusive os do Direito e os da crise. Cerrou os olhos e deixou a água escorrer...
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 00h39
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