ABELARDO FIGUEIREDO

ABELARDO: UM HOMEM COM MUITA PRÁTICA Eu conhecia o seu nome ligado ao Beco, uma casa de shows cuja entrada era por um corredor e onde mulatas rebolavam para os poucos turistas do exterior e do interior do país que aportavam em São Paulo. Mas foi nos anos 1980 que tive a oportunidade de conhecê-lo de perto ali no Shopping Eldorado onde dividia com o amigo “Pepe”, o espanhol/santista Jose Agra Blanco, a gestão do Palladium. Conheci Abelardo Figueiredo e no apressado convívio, pois que todos corríamos dezesseis horas por dia, aprendi alguns aforismos abelardianos e conheci cousas dos bastidores engraçadíssimas. Abelardo tinha humor, saber, talento e paciência. Sabia como transformar o simples em arte e melhor, sabia do que o povo gostava. Um dia fazendo referência ao meu gosto musical, eu comentava sobre alguns números do seu show “São Paulo by night” que inaugurou o Palladium e ele me confidenciou: “não pense que gosto de todas as músicas que ponho em meus shows. Quando o faço não é para mim e sim para o meu público”. Óbvio? Nem tanto. Não são poucos os diretores de cena que tendem a selecionar de acordo com o seu gosto. No show business desde os seus dezessete anos, Abelardo conheceu de perto todos os nomes da música e da cena brasileira. E era por todos respeitado e elogiado. Viajou a mundo com os seus shows e fez o Brasil conhecido. Ganhou dinheiro, reconhecimento e grande experiência. Era dele a expressão “pouca prática”. Assim se referia a alguém que não tinha talento, fosse uma dançarina, um político ou um garçom. Pepe, eu e Madia (Francisco Madia fazia o marketing da empresa Eldorado S.A.) pegamos a mania e usávamos a expressão sem pagar royalt. Sobre o Plano Cruzado do então presidente Sarney e seu, hoje falecido, ministro Dílson Funaro, ele dizia: “eles são um selecionado de poucas práticas”. Mas ele era um “muita prática” sempre de bom humor. Contou um dia sobre a mulatíssima Marina Montini que teria recusado um pato num restaurante parisiense: “não quero Abê. Não vou comer canário”. E Abelardo explicou pacientemente que “Canard” era pato e não canário. Foi com Abelardo que conheci de perto a beldade Vilma Dias que num programa da Globo aparecia na vinheta saindo de uma banana. Ela fazia um número pra lá de sensual com um chicote na mão domando garotões. À época eu conversava com Célia, a rainha da voz na noite paulistana e com um imenso elenco de dançarinos, músicos e técnicos. Um mundo da Broadway, reproduzido ali na pirâmide de vidro às margens do rio Pinheiros. Abelardo foi um “Rei da Noite” comedido e absolutamente família. Gostava de ir para sua casa em Monte Verde e de visitar amigos no Rio de Janeiro, cidade que amava e que temia entristecido pela constatação da violência. Era elogiado por gente elitista como Chico Buarque e venerado por Isadora Ribeiro, Norma Benguel, Marco Nanini e outros hoje globais. Manoel Poladiam e Peri Ribeiro o tinham como a um conselheiro. Pode não dar para acreditar. Mas assim ouvi à época. Enfim, ele se foi. Abelardo, com certeza, vai organizar shows na eternidade. É possível que o censurem um pouco. Menos peitos de fora e coxas mais cobertas. Mas não há de ser nada. Ele pode topar com a rainha Shabá (separada de Salomão?) e montar um espetáculo com autenticas negras do período a. C. Conversa e cintura não faltarão para que ele acerte os detalhes com São Pedro e, a propósito, vai sugerir ao porteiro do céu que mude aquela barba e o hábito já sem cor. Ele sabe como fazer isso. Tchau Abelardo, seu “muita prática!”
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 12h43
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|