DIA DA MULHER
As mulheres são o que de mais especial o Criador colocou no universo. E nem poderia ser diferente vez que sem elas a humanidade não cresceria. Aliás, as fêmeas têm essa nobre missão, a de multiplicar seus iguais. Tenho uma vida vivida entre e para as mulheres. Assim sempre foi desde que, nos meus seis anos, o Ruy pai se foi deixando-me com elas e para elas. Ele, lá de cima, não deve se arrepender de todo. Se eu senti, ao longo de minhas décadas, a falta dele, por outro lado, me aconcheguei às mulheres. E muito. Desde a mãe, as irmãs, tias, professoras, colegas de trabalho e terapeutas, passando pelas companheiras, as mulheres tiveram um peso grande na minha vida. As companheiras foram absolutamente especiais, em diferentes momentos da vida e com diferentes características e motivações de paixões e amizade. As colegas de trabalho ajudaram na leitura do masculino e feminino do mundo profissional. Eram como binóculos para se enxergar no escuro. As companheiras, modo geral, aderiram a parte de meu mundo e eu ao delas. E nos isolamos do mundo real. Sem outras mulheres e sem outros homens. Amizades poucas, como se nos bastássemos um ao outro. Não era bem verdade. Mas não reclamo. Da vida com as mulheres tive mais ganhos do que perdas. Estão aí três filhos que me mostram isso a cada instante e mais dois que, não sendo filhos, navegaram por minha vida e ganharam minha estima. Nesse caldo feminino de minha vida aprendi a preferir as mulheres para me relacionar. Claro, tive grande dificuldade em separar a carne do profissional ou da amizade pura e simples. O amor sem carne. Sim, ele existe, dizem. E acredito. Busco até hoje entendê-lo. E sigo amando, ainda que platonicamente. Tento nas minhas leituras entender melhor essa força dominadora feminina e seu papel em nossas vidas. Nem sempre é possível ou fácil entender isso. Balzac, Pamuk, Touraine, Garcia Márquez, Saramago e Proust ainda não me deram a compreensão de que provavelmente necessito. Mas acompanhei a trajetória de algumas figuras que me deixaram ainda mais convencido da força feminina no universo: Benazir, Indira, Anita Garibaldi, Hannah Arendt, a senhora Carrar, do Brecht, e outras mais próximas como Ruth Cardoso ou Fernanda Monte Negro. No vai-e-vem da vida procurei sempre ser “politicamente correto” com as mulheres, salvo quando vítima de minhas fraquezas, concomitantemente transformadas em culpas e hoje purgadas ou em processo de. As mulheres sempre me pareceram mais honestas, claras e objetivas do que boa parte dos homens. Pode ser uma bobagem, porque quando as pessoas sofrem de maucaratísmo não é o sexo que faz a diferença. Mas o fato é que com as mulheres é mais fácil abordar questões aparentemente difíceis. Com os homens, parece-me, devemos ser mais inflexíveis e duros. Ou eles nos derrubam. Será? Não creio nisso de verdade. Homens são tão bons ou tão ruins quanto às mulheres. Já tive momentos na vida em que achei que o mundo poderia acabar nas mãos delas. No segundo seguinte me parecia que, ao contrário, no futuro grupos do crime organizado poderão deter o poder sobre rebanhos de mulheres nos países pobres determinando a procriação ou vendendo crias num cenário sombrio do ano de 2100. De todo jeito, as mulheres estarão, num futuro não muito remoto, escolhendo um “produto seminal” para a sua procriação independente numa clínica do tipo das locadoras de filmes. Ali ela vai saber tudo sobre um tipo de “pai” que queira para o seu filho: origens familiares, doenças eventuais, biotipo etc. Não está tão longe essa ficção. Enfim, quero falar sobre a mulher no Dia da Mulher. O Dia da Mulher, como se sabe, é mais uma data de almanaque, comemorativa, como o Dia das Mães. Vá lá, que assim seja. Mas importa para mim é que gosto das mulheres e de saber que elas continuam fortes em seus objetivos mais louváveis, lutando contra as desigualdades, contra o crime, contra as injustiças e, sobretudo, contra a violência de que são vitimas. Gosto das mulheres e acho impossível dissociar a beleza da maioria dos pés femininos das boas profissionais, das boas amigas, das primas ou tias. Ah, as mãos, ora pequenas e delicadas (como os pés) ora mais ousadas, dedos longos e veias pronunciadas que mostram o caminho para as unhas simétricas e bem feitas. No peito dos pés, outras veias denunciam uma sensualidade estimulante que surge discreta, da curvatura plantar. Ah, “pelas barbas do profeta”, o que pode sair daquela curvatura? Mas não se pode deixar de perceber a leveza dos braços e a dobra das axilas, desde que absolutamente depiladas. Axilas estão ali, muito próximas das saboneteiras e embaixo dos ombros. Que outra visão mais pode querer o homem, depois de apreciar esse conjunto geográfico feminino? Claro, o pescoço, em direção à nuca. Cabelos despojadamente presos com um hashi podem deixar aparecendo os fios capilares da base da nuca e onde se pode visualizar uma suave depressão entre os músculos do pescoço. Essa visão deixou muitos personagens da literatura mundial dos séculos XVIII e XIX, completamente inebriados. Enfim, os joelhos. Tenho até hoje a lembrança dos joelhos da “irmã do Zé Paulo”, um colega de escola. A moça, de cabelos pretos ondulados, olhos negros e um batom vermelho, que me lembrava uma cigana, ia à missa do colégio dos padres aos domingos e sentada no banco duro da capela deixava a mostra seu par de joelhos amorenados cujas rótulas eram suavemente pronunciadas, anunciando o porvir. Ah, quantas vezes me senti pecando quando, ao voltar da comunhão, aproveitava para olhar aquelas rótulas maravilhosas. Mas os joelhos sem rótulas pronunciadas também podem ser bons e é regra que anunciem o porvir no imaginário masculino. Pelo menos no meu. Joelhos nos levam também às panturrilhas. Depois dos anos oitenta a moda é ter panturrilhas salientes e que dêem formato às pernas. O homem que nunca seguiu uma panturrilha que atire a primeira pedra. E as canelas? Já gostei de canelas grossas, daquelas que afinam suavemente em relação ao resto da perna, excluídas as panturrilhas salientes. É um tipo de perna sem malho ou malhada e com essa configuração discreta. Hoje aprendi a gostar de canelas de todo o tipo. Cabelos? Não importa como sejam desde que cheirosos. Penugem? Nas coxas e nos braços, descolorada. Não falo dos olhos e das bocas das mulheres, pois que cada uma tem a sua mensagem definida. Que sejam meigas e fortes ao mesmo tempo. Que sejam inteligentes para entender os homens e manter com eles uma relação de iguais, pois que assim somos: iguais. Que tenham humor para enfrentar os reveses da vida e que saiam deles de cabeça erguida. Ah, aprendi na vida que as mulheres têm essa capacidade, a de sair de cabeça erguida, muito maior do que a dos homens. Enfim, que os homens aprendam que o Dia da Mulher é todo o dia, são todos os momentos já que sem elas não estaríamos na terra e nem teríamos uma próxima geração. Todo dia é dia da mulher porque são elas que, não raro, suave e discretamente, articulam acertos familiares, contas, relacionamentos e até medicamentos que ajudam o homem a sobreviver vivendo melhor. Não falo das antigas donas de casa e de senhoras da Casa Grande. Falo mesmo é da mulher secretária, publicitária, jornalista, advogada, administradora, nutricionista, cobradora, policial, enfermeira, bilheteira, vendedora, médica, massagista, freira, professora, doméstica, corretora, sogra, motorista, mergulhadora, telefonista, cambista, guia de turismo, cabeleireira, manicure, pedicure, cozinheira, arrumadeira, governanta, assistente, cineasta, nutricionista, delegada, comissária de bordo, piloto de avião, parteira, rezadeira, carpideira, merendeira, desempregadas, mães, viúvas, amantes, cocumbinas, de programa, e todas enfim, merecedoras da admiração e agradecimento dos homens só pelo fato de existirem, nos trazerem à vida e nos fazerem a vida. Encerro trazendo um trecho de matéria que postei neste blog (http://jruyveloso.zip.net) em 16/12/2008 intitulada “Relações, Solidão e Egoísmo”, quando misturo Alain Touraine, Reich e Alvin Toffler. Acredita? Pois é. Vivam as Mulheres! Em seu livro Le Monde des femmes, em português, "O mundo das mulheres", (Vozes) Touraine explica o que há de diferente no "olhar feminino" sobre a vida: A sociologia das mulheres é uma parte essencial de uma sociologia geral. Já agora, uma grande parte dos debates da filosofia política e social e da sociologia é construída sobre os problemas postos pela situação e a ação das mulheres. Nossas sociedades modernas são dominadas pelo recentramento sobre o indivíduo, considerado em todas as suas funções e em seus direitos. Pode-se, também, dizer que o tema da sexualidade ocupa aí o lugar central, que era antes o do trabalho na sociedade industrial e são as mulheres que escrevem as obras mais essenciais neste domínio. Não é preciso deixar-se limitar aos problemas da desigualdade. É preciso eliminar toda referência mais ou menos psicológica ao feminino. Em troca, é preciso compreender por que as mulheres estão na origem da nova sociedade e da nova cultura que se forma sob nossos olhos.
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 21h42
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