A ESCRITA E BALZAC

O Blog, a escrita e Balzac. Disse-me uma amiga: e o Blog? Escreve a cada dois meses? Não, disse eu, escrevo quando inspirado. Parece óbvio. Não é. Estou lendo “Ilusões Perdidas” de Balzac, cujo personagem principal tenta sobreviver da escrita. Os problemas de inspiração ali colocados por Balzac, além de sua visão crítica sobre a imprensa da época, traduzem minhas dificuldades e a vontade de botar-me em letras. Para uma outra amiga eu disse uma vez que troco o bar e as bebidas pelo teclado do computador quando triste ou muito alegre. Nem tanto, mas bem verdadeiro. Comentar com amigos sobre nossos infortúnios, desde que não os afaste, é melhor do que simplesmente beber. Contar para os amigos e beber um bom vinho ou uma cerveja leve, entre um papo e outro é ainda melhor. Tem ainda a possibilidade de terceirizar nossas aflições contando tudo para um terapeuta cujo ouvido não é uma latrina, mas sim um filtro seletivo que ajuda a elaborar raciocínios sobre aflições e alegrias. Finalmente, escrever parece trazer um pouco de paz ao nosso espírito. Assim é. Honoré de Balzac sabia como ninguém tratar da criatividade e das relações nem sempre transparentes entre homens e mulheres. Era um tempo de muito “parecer” e pouco “ser”. Seus personagens (que se repetem em diferentes romances, às vezes fazendo “pontas” ou simplesmente citados) vivem conflitos entre aquilo que querem realmente e aquilo que a sociedade valoriza. Em geral a opção dos que almejam alguma posição de destaque ou alguma nobreza, passa por ser aquilo que a sociedade supostamente valoriza. Assim são as mulheres ricas ou decadentes de Balzac, assim são os homens que almejam um dia ser notados num foyer de óperas. A França do século XIX já tinha certa sofreguidão pela leitura e daí, muitos sôfregos pela escrita. Penetrar nesse universo balzaquiano me tem sido prazeroso. Tive que abandonar temporariamente “O livro Negro” de Pamuk. Pamuk é outro que trata de uma sociedade que nós, americanos do Sul, cristãos, espíritas, socialistas ou anarquistas, temos dificuldade de compreender. Suas mulheres corajosas e seus homens conflitados só podem existir na sociedade turca que vive entre o islamismo e a (para muitos) difícil idéia de um Estado laico. Mas volto ao Balzac. Suas descrições sobre os trajes, perfumes, perucas e aquilo que para nós hoje se traduz numa absoluta pobreza de espírito, nunca foi (vá lá, é contraditório) tão atual. Seus políticos, seus editores e suas mulheres navegam num oceano de hipocrisias e aparências. Os casais nem sempre se gostam entre si e tampouco de seus amantes. Tudo o que fazem tem um interesse mesquinho, material e de absoluta vaidade. Vaidade, aliás, é o que não faltava naquela Paris do século XIX. Nessa sopa balzaqueana vejo personagens que me foram próximos. Vejo personagens de nossa vida pública, vejo afinal que Balzac é muito atual. “A Comédia Humana” de Balzac continua viva, com alguns focos alterados, mas com os mesmos comportamentos de seus personagens. À época, Balzac tratava da perda da inocência numa sociedade pusilânime. Hoje, nossos personagens parecem já nascer sem inocência ou são tragados rapidamente pelos costumes modernos dessa sociedade pós-moderna que, na verdade, já eram modernos nos tempos de Balzac ou nos de Molière.
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 14h25
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