Lembranças que incomodam
  
Lembranças que incomodam Relembrando fases da vida profissional fico, às vezes, incomodado com textos, entrevistas e notícias que trazem como novidades assuntos que eu defendia a mais de dez anos passados. Em alguns casos as idéias que eu defendia lograram êxito porque encontrei quem as apoiassem. Em outros, eu as defendi e as registrei em eventos, artigos e outros tipos de trabalho. Quando vejo como “novas”, idéias que já considero, senão ultrapassadas, já envelhecidas, fico incomodado porque a memória das pessoas, corporações e até mesmo da imprensa, parece ser fraca. E então vem aquela vontade de começar a mandar e-mail, fazer telefonemas ou simplesmente gritar “eu já dizia isso em 1994”! Besteira. O mundo é mídia nessa sociedade do conhecimento. As idéias já não mais nos pertencem. Mas registramos sempre a necessidade do reconhecimento de nossa paternidade sobre elas. Sobretudo quando as idéias se transformam em sucessos atuais. Mas não são somente essas lembranças que me incomodam. Vejo nos jornais e na Web notícias sobre políticos, empresários, artistas e executivos que também, às vezes ou quase sempre, já foram um dia discutidas, condenadas, elogiadas ou simplesmente esquecidas. Então, de repente, aparece (volta) ao noticiário um comportamento, uma frase, uma decisão ou uma lei que num passado recente foi apresentada por outro ou pelo mesmo personagem e que pode se configurar como uma incoerência se comparada a uma posição num período de cinco anos passados. Os políticos, principalmente, são mestres nesses comportamentos. Defendem hoje temas contra os quais digladiaram em passado recente. Vá lá. Mudar de idéia pode ser também uma manifestação de inteligência e até de coerência. Mas não é o que ocorre quase sempre. Recentemente o Lula defendeu o Sarney, o mais legítimo representante da argentinização das províncias (Estados) brasileiros. É sabido que Sarney (na verdade José Ribamar Ribeiro, neto do Ribamar que foi “imediato” de um engenheiro da Royal Rail conhecido por “Sir Neil”, de onde lhe saiu o apelido como uma espécie de título de posse: o Ribamar do Sir Ney) de há muitas décadas manda, desmanda e se enriquece no Maranhão enquanto a sua população tem que se contentar com um IDH dos mais baixos do país. Mais do que isso, Sarney foi o grande representante civil da ditadura militar, não porque acreditasse nos “propósitos saneadores” da direita militar, mas porque lhe convinha estar ao lado do poder, como sempre esteve até mesmo na cadeira do Presidente da República. Esse homem a quem o Partido dos Trabalhadores jamais respeitou quando era oposição, hoje é citado por Lula como não sendo “um homem qualquer”. Não o é. Mas não pelas razões que afirma Lula em junho de 2009, mas por aquelas que o PT afirmava em 1989, a vinte anos passados, portanto. E quem se lembra disso? Ou melhor, a quem interessa lembrar isso? É possível que se o delegado de polícia política Sérgio Paranhos Fleury estivesse vivo Lula talvez elogiasse a sua “tenacidade no cumprimento do dever” à época. São lembranças que incomodam a quem mantém alguma coerência. Pedir coerência a políticos em defesa da cadeira do poder parece ser uma exigência descabida.
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 11h50
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