Saul Galvão

SAUL GALVÃO Conheci Saul Galvão em 1980. Ele me foi apresentado por Aristides Pacheco. O bom português Aristides, que entrou para o SENAC para dar cursos de garçom e se aprofundou nos estudos de vinhos tornando-se um enólogo autodidata, me confidenciou: “o Saul ficou no lugar do Paulo Cotrim no jornal, mas é um experto em vinho. Ele não é de badalação e entende, de verdade, sobre comida.” E lá veio o Saul para uma palestra sobre varietais para executivos que queriam entender do assunto. O Aristides Pacheco não exagerava nas tintas ao falar sobre a enofilia de Galvão. Tampouco sobre sua seriedade quanto à análise dos restaurantes que visitava. Na primavera de 1981 eu estava na gerência de uma casa em art-noveau do SENAC, o “Engenho e Arte” um restaurante escola na Rua Bela Cintra, em São Paulo, enfiado numa rica e cara decoração de época, um luxo que era a marca de José Papa Júnior à frente da federação do Comércio do Estado de São Paulo. A decoração era supimpa e cara. Já a comida, depois de idas e vindas políticas onde palpitavam pessoas de todos os lados e calibres desde Ricardo Amaral (que dava o nome à escola) até as secretárias do Papa Júnior, deixava a desejar. E muito. Tínhamos um bom Chef, mas faltava uma brigada boa. Paulo Cotrim era um consultor da casa para os assuntos artísticos. Pelo Paulo Cotrim conheci gente importante como Eliane Elias, Guilherme Vergueiro, Paulo Moura e Clara Sverner, os irmãos Moacyr e Cauby Peixoto, o maestro Zezinho, o Wanderley do piano e muitos outros. De comida nunca conversamos. Então um dia Saul Galvão apareceu. Já havia estado numa das inaugurações (foram pelo menos umas cinco). Tomou apenas água e elogiou a decoração. Não me lembro se chegou a escrever sobre o “Engenho e Arte”. Em 1985 lá estávamos nós novamente frente a frente. Eu dirigindo uma ex-franquia do Rodeio no Shopping Eldorado. Era outra casa de decoração cara. Uma autêntica Barbecue Steak House que nós rebatizamos de Bon Beef. Galvão provou uns dois tipos de carne e andou pela casa vendo as prateleiras cheias de vinho que a decoravam dividindo os salões. Estávamos em plena inflação e a casa vendia, num domingo, por exemplo, novecentos almoços. Os vinhos eram escolhas da família Veríssimo e, portanto, os portugueses tinham espaço garantido. Saul elogiou o espaço e gostou de nossa Cave du Jour. Voltei a ver Galvão em muitos eventos e acompanhei seu Blog e suas matérias no Estadão. Nesses mais de vinte anos, muitos outros personagens entraram na cena gastronômica paulistana, mas peço licença para registrar que o charme de Saul Galvão era único. Sabia falar de vinhos, conhecia regiões demarcadas e vinícolas mundo afora e, sobretudo, sabia apreciar um bom prato. Sua partida guarda uma contradição: Saul Galvão não era de sair repentinamente dos eventos dos quais participava. Ele fará falta nesse universo ao qual deu tanta contribuição e sobre o qual tanta gente fala e escreve hoje sem ter o seu savoir faire. Au revoir, monsieur Galvão.
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 23h14
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