Balzac, a vida como ela foi...

Balzac: a vida como ela foi... Na esteira de meu período balzaquiano fui procurar saber mais sobre aquele francês do século XIX que retratou a sociedade parisiense de sua época e que, no século XXI se mostra atual em tantos aspectos da vida urbana. Minha fonte foi Johannes Willms, alemão de 63 anos que é historiador e jornalista. Willms tem várias obras frutos de suas investigações histórias e a mais recente delas é a biografia de Napoleão. O historiador vive hoje em Paris e é correspondente de assuntos culturais do jornal Süddeutschen Zeitung e sua publicação no Brasil foi traduzida por Claudia Abeling e publicada pela editora Planeta (2009). É um belo trabalho e mexe com o imaginário dos leitores de Balzac fazendo-nos ora apiedados, ora enraivecidos pelo comportamento infantilizado e sem muitas perspectivas do francês que escreveu La comédie Humaine. Balzac nasceu em 20 de maio de 1799 e carregou os traços dos geminianos como a criatividade e a devoção aos seus amores. As pesquisas de Willms têm como ancora as cartas de Balzac para seus amigos e parentes, sobretudo para uma amiga, também especial, chamada Zulma Carraud. O escritor francês passou a vida com problemas com sua mãe, sem resolvê-los. A mãe Laure Sallambier, filha de uma família rica da indústria da tecelagem, casou-se aos dezoito anos (em 1797) com um homem de origem camponesa que ganhara um cargo lucrativo no exército depois da revolução francesa. O pai, Bernard-François Balzac, era trinta e dois anos mais velho do que sua mãe. Encantada com a vida que se lhe abriu pela frente a jovem mãe não tinha tempo para cuidar dos filhos e os entregou aos cuidados de uma mulher especialmente severa a quem ele e a irmã apelidaram de “un gendarme”. A mãe, além dos amantes que teve ao longo da vida, tinha predisposição histérica, com doenças imaginárias e doenças freqüentes. Balzac e a irmã só foram viver com os pais na residência oficial da família em 1803, quando ele já tinha quatro anos. A energia e vitalidade do menino Honoré incomodavam sobremaneira a mãe e os registros da infância dos irmãos marcam, por exemplo, o temor que tinham das inspeções da gendarme para despedirem-se dos pais na hora de dormir. As lembranças dos irmãos não eram boas sobre de como a mãe os rechaçava com maneiras bruscas nas suas buscas por carinho e o choque quando, em 1804, ela mandou o garoto com cinco anos incompletos para um colégio de semi-internato em Tours e três anos mais tarde, para outro colégio, dessa vez interno, em Vendôme. Para o historiador a rejeição da mãe, que atormentou Balzac por toda a vida, estava ligada ao fato de que os filhos, e não o marido, eram o obstáculo para as suas relações extraconjugais. Cartas de um jovem chamado Ferdinando Heredia, conde de Prado-Castellane, dão conta de que o jovem começou a cortejar a mãe de Balzac em 1805 e em 1818, quando já havia voltado de vez para a Espanha, continuava a escrever para Laure, longas cartas nas quais invocava a felicidade do período 1806/1817. O conde não passou despercebido na vida do escritor. Na novela La Grande Bretèche, escrita em 1832, o marido manda emparedar vivo o amante da mulher cujo nome era Féredia, uma junção dos nomes do amante da mãe. Mas ainda tem mais: a mãe manteve simultaneamente com o jovem conde outro romance com um homem chamado Jean-François-Alexandre de Margonne de quem engravidou na primavera de 1807 e deu a luz a um menino em dezembro do mesmo ano a quem deu o nome de Henri-François. A criança, endeusada por madame Balzac (para piorar a tristeza do filho mais velho) teve a sua presunção de paternidade incontestada quando o pai natural, Margonne, deixou-lhe em testamento 200 mil francos. Essa passagem de vida também foi registrada mais tarde no conto Le Doigt de Dieu no qual ele põe nas ruas de Paris uma mãe, acompanhada de um homem que não era o seu marido, uma filha e um filho mais novo que era muito parecido com o homem que os acompanhava. Num impulso de ciúme pela atenção da mãe ao menino, a irmã o empurra para o rio onde o menino se afoga. Mais didático, impossível. Mas com o meio irmão o escritor não viria a se preocupar muito. Ele se transformou num sujeito de poucos valores, preguiçoso e imaturo e sumiu naquelas ilhas do oceano Índico que pertenciam à França onde levou uma vida miserável, morrendo em 11 de março de 1858. Ironicamente o pai biológico do irmão faleceu dois meses depois e se o irmão estivesse vivo poderia ter gozado o legado que lhe coube. Honoré Balzac era inteligente e teve boas idéias de negócios ainda que todos eles tenham naufragado. Foi combativo contra a pirataria da época e chegou a quebrar uma vitrine de livraria no exterior quando encontrou obras suas publicadas sem sua licença. Falo de seus negócios e suas mulheres numa próxima blogada.
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 18h21
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