Polanski, Allen e Araçatuba

Polanski, Allen e Araçatuba Polanski não é um nome para ser esquecido facilmente. Desde que fez o filme “Faca na Água” (Nóz w wodzie, Polônia, 1962), já mostrou que o seu tema preferido era essa coisa do sexo transversal, o que quer que isso possa significar. Mas significou muito em sua vida, tanto profissional como pessoal. O bebe de Rosemary, Repulsa ao sexo, Lua de Fel, e outros dos quais não me recordo, tratam do sexo de uma forma pouco poética. Dos que vi apenas Tess (a beleza de Nastassja Kinski é desconcertante) foge do padrão, até porque é baseado em famoso romance inglês que aborda os costumes na revolução industrial. Na vida real teve como mulher oficial a bela Sharon Tate, que foi assassinada de forma brutal por um fanático drogado nos Estados Unidos. Era o ano de 1969. Hoje Polanski está detido na Suíça a pedido da justiça dos EUA por um crime que teria cometido em 1977 estuprando uma garota de 13 anos de idade, contra os seus então 44 anos. São decorridos 32 anos do fato e a mulher, que então era a menina, diz que não era virgem e que já esqueceu e perdoou o seu então agressor. Muitos famosos defendem o cineasta hoje. É algo como defender o tal do Batistini, um italiano que matou um monte de gente na Itália e que só os obscurantistas como o Tarso Genro e o Marco Aurélio Garcia conseguem defender. Já o Wood Allen acabou conhecido por ter tratado mal sua então mulher Mia Farrow e depois, pior, ter se amancebado com a filha adotiva com quem vive até hoje. No caso do Wood Allen a polícia não foi atrás. Se fosse aqui no Brasil, onde os políticos passam ao largo da Lei e quem corta palmito para comer é preso sem direito à fiança e sem roupa pra vestir, (uma vez que não têm mesmo camisa por sua natureza pobre), é bem capaz que fossem atrás do Wood Allen porque por muito menos, prenderam um italiano que deu selinhos na filha numa praia nordestina. Mas, o Wood Allen teve precursor de sua história lá em Araçatuba. Foi o Diaz. Vou chamá-lo Diaz porque ele tinha (tem ainda?) aquela cara de soldado do sargento Garcia: baixo, moreno, sobrancelhas cheias, olhos pretos meio oblongos e um jeito de falar acumulando saliva nos cantos dos lábios. Foi vendedor por muito tempo e dava treinamentos para vendedores. Falava lutando contra a saliva: a fala do vendedor tem que ser clara, precisa e concisa... Era bom de violão e cantava bem, no que era acompanhado por sua mulher, a Pilarita. Pilarita cantava e também era boa de violão. Melhor do que Diaz, diziam. Pois bem. Eles tinham dois filhos biológicos e uma menina adotiva que criavam desde os seus cinco anos de idade. Ela era a filha mais velha, à época com os seus 16/17 anos, contra uns 34 do Diaz. Sua casa vivia cheia de gente jovem e descolada. Sentavam-se em almofadas para ouvir Pink Floyd, dedilhar violão e tomar um chá de cogumelo. Coisa dos anos 1970. A família dormia em tatame com a cabeça virada para o Norte. Arroz integral, peixes e muito legume eram o cardápio do cotidiano na mesa de Pilarita e Diaz. Nas festas que dava ou às quais ia, Diaz não recusava um churrasco. Araçatubenses comem carne e tomam cerveja numa proporção 100 vezes maior do que o paulistano come pizza e toma cerveja. No dia-a-dia, Diaz voltava ao natureba. Pois uma noite Pilarita apareceu aos prantos e desnorteada na casa de uma amiga. Foi uma noite de calmantes e espanto. Na verdade, foi o diabo. Pilarita perdeu o chão e os violões. Quebrou tudo na direção do Diaz e depois, quando se agüentou, saiu de casa. O que ela contou aos amigos é que os dois, Diaz e a filha adotiva chegaram-se a ela, Pilarita, e confessaram, na lata, que vinham mantendo relações já há algum tempo. Diante dos tremores que sobrevieram à incredulidade de Pilarita, acrescentaram que eles não teriam problemas em viver daquele jeito, isto é, a três. Pilarita teve um jorro estomacal comparável ao de Linda Blair em “O Exorcista” (1973) cuspindo a uns 50 centímetros de distância o que não tinha no estômago. E quando pode, saiu da casa. Passada a tormenta, Diaz foi quem saiu de casa. Com a menina. Em 1979, acho, estava com uns colegas de trabalho no Bar do Léo, ali na Rua Aurora, e ele apareceu. Em rápidas palavras, falou do que fazia, e fazia a mesma coisa, e disse que sua mulher, que havia sido a sua filha, estava grávida. E que tudo estava bem. Nunca mais soube dele ou delas, Pilarita ou a filha/mulher. Mas quando estourou o caso Wood Allen pensei: isso já tinha lá em Araçatuba...
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 23h41
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