Balzac II
Victor Hugo Balzac
Balzac: a vida como ela foi – Dois Já falei aqui do livro do alemão Johannes Wilmms que trata da biografia de Balzac. Também já falei sobre a estrutura familiar do escritor francês e de seus problemas com a sua mãe. Hoje falo da vida adulta de Balzac. Podemos resumir sua vida profissional como um conjunto de empreendimentos fracassados, uma dívida jamais liquidada e a ajuda de alguns amigos mecenas que o apoiavam em seus períodos sabáticos/produtivos. Sua inocência para investir em projetos pouco factíveis e suas boas idéias para os romances são a marca do que foi o seu viver. A biografia escrita por Wilmms se apóia, sobretudo em cartas que Balzac escreveu para familiares e amigos, uma amiga, em especial, Zulma Carraud. Nelas o francês falava de sua luta atravessando noites para escrever com penas de ganso e tinta e depois, revisar o que a tipografia entendia de sua caligrafia. Um trabalho extenuante para o qual ele vestia um velho hábito de monge para enfrentar as noites frias a luz de velas trêmulas que se lhe desgastaram a visão. O consumo de café por Balzac chegou a ser lendário. Ele fazia uma mistura de três diferentes qualidades de grãos: bourbon, martinique e mokka, cujo resultado ele sorvia muito forte, bem preto e quente, para varar suas noites de produção literária. Fico eu pensando o que ele teria produzido se tivesse uma simples máquina de escrever... Baixote, atarracado, cabelos pretos de fios grossos, Honoré de Balzac estava longe de ser o francês galã de seus livros. Com o passar do tempo o mau estado de conservação de seus dentes ficou também conhecido em toda a sociedade parisiense. Mas nem por isso ele deixou de ser um sedutor de ter em seu rol de relações muitas mulheres francesas e com uma russa de sangue nobre com quem finalmente casou-se pouco antes de morrer, aos 51 anos. Sua grande amiga e confidente foi Zulma Carraud, cujas cartas reconstroem a vida do escritor, mas foi para Eveline, a russa que viria a ser sua mulher e a quem conheceu através das cartas que lhe enviavam suas leitoras, que Honoré mais escreveu: 414 longas cartas. O conteúdo delas gerou um texto que correspondia a quase um quarto de toda a obra da “Comédia Humana”. Foi tão forte a “criação daquela personagem”, que Eveline, então casada e com filhos na Rússia dos Czares, acabou se transformando na identidade que ele criara. Para Wilmms, “é surpreendente que Freud não tivesse se ocupado intensamente de Balzac”, tal foi a força de seus escritos que tornaram aquela mulher um ser de total parecença com o que ele imaginava ser o ideal da mulher, amante e mãe ao mesmo tempo, que lhe prometia o paraíso de uma infância infinita. Sua mania de gastança desbragada também era conhecida dos parisienses e nos burgos vizinhos. Por mais de uma vez ele se mudou para casas diferentes com nome falso para se proteger dos credores. Ele usava suas festas e sua opulência para autopromoção e garantia da própria importância. Para o pesquisador, a existência de Balzac se divide entre aparências e realidade. A aparência era a projeção de fama e conceito, encenada com muita avidez e que gerou muitas inimizades pela forma com que ele tentava, com essas atividades, ofuscar os seus contemporâneos. Por outro lado ele tinha espírito de corpo para defender os direitos da propriedade intelectual e nesse sentido por diversas vezes incitou seus pares a pressionar os deputados para criar leis contra isso. Em vão. Fracassado em suas empreitadas editoriais e de papel, Balzac acabou por dever a vida toda quantias para a sua mãe e para amigos nobres que jamais lhe cobraram. Mas era glutão e vaidoso. Gostava de bons vinhos e gastava dinheiro desproporcional, sempre fiado, para vestir-se e mobiliar uma casa, a qual batizou de Les Jardies, e construiu com dinheiro da então pretendida russa e de outros amigos. Tudo isso sem liquidar velhas dívidas. Todas essas estripulias financeiras e afetivas aparecem nas histórias de seus personagens. Balzac foi contemporâneo de Victor Hugo e dele recebeu várias visitas, tanto na casa suntuosa como no seu leito de morte. Volto depois falando sobre suas obras.
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 22h56
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