Blog do J Ruy Veloso


Turismo e o mercado de baixa renda - 2

   

 Turismo e o mercado de baixa renda – 2

Nos estudos que Erik Simanis e sua equipe desenvolveram na Índia e no Quênia visando descobrir como transformar em consumidores os 4 bilhões de pessoas da base da pirâmide social, identificamos que algumas das estratégias aplicadas lembram o que a Avon e outras empresas fizeram com os produtos de estética e beleza em meados do século 20. Naquela época as revendedoras Avon promoviam em suas casas e depois nas casas de clientes ou potenciais clientes, tardes de lanches, sucos e chás para demonstrarem seus produtos num ambiente que não deixasse expostas as donas de casa com seus temores e ansiedades para melhorar suas aparências. Esse método foi repetido em cidades do interior e favelas da Índia pela empresa Solae, uma subsidiária da DuPont. Produtora de proteína de soja, a empresa recrutou em cada uma dessas comunidades pobres cerca de 20 mulheres e mostrou a elas um novo conceito de negócios: o preparo de refeições saudáveis e deliciosas usando soja. Essas mulheres passaram um mês testando receitas com proteína de soja. Faziam receitas e as customizavam de acordo com suas tradições. Depois desse tempo passaram a fazer “O dia das vizinhas na cozinha” que consistia em convidar as vizinhas tidas como boas cozinheiras e sugerir a elas agregar às suas receitas a proteína de soja. Esse evento atraia os familiares que acabavam por conhecer o novo produto e seu potencial de sabor e valor agregado. Cerca de seis meses depois do primeiro teste de cardápio essas senhoras já estavam recebendo pedidos de livrinhos de receita e de porções de proteína de soja. Tornaram-se vendedoras. Consolidava-se assim a “estratégia Avon” para alimentação na baixa renda. Essa busca por fazer da base da pirâmide uma massa consumidora merece muitas reflexões. E cuidados. Todavia, para efeito de comparar com as possibilidades de desenvolver no Brasil, em especial nas áreas rurais, atrativos turísticos de baixos investimentos para populações de baixa renda, essa tendência deve ser pensada, isto é, como podemos fazer com que a baixa renda manifeste seu desejo e utilize equipamentos e serviços de turismo. Hoje, dia 03 de novembro de 2009, o jornal Valor Econômico trouxe matéria sobre a busca do McDonald´s pela Classe C. No Brasil, até por precificar seus produtos em dólar, o McDonald´s foi desde o princípio alvo da classe média, enquanto nos Estados Unidos atende a classe baixa. Aliás, o historiador da McDonald´s,  John F. Love, explicou o significado desse sistema (fast food) ainda nos anos 1950: “As famílias operárias podiam finalmente se dar ao luxo de alimentar os filhos num restaurante”. À época o hambúrguer deixava de ser “churrasquinho de porta de estádio” e prato de Drive- in para ser servido nas mesas de restaurantes. Hoje, 2009, o McDonald´s busca uma plataforma (pacote) de até 6 reais, com a sobremesa, para oferecer a esse consumidor C e D (num restaurante que vende a 19 reais o quilo de comida brasileira é possível comer 400 gramas pagando 7,60 reais por arroz, feijão, bife e salada). A rede estadunidense, que teve muitos problemas na justiça com franqueados no Brasil nos últimos 5 anos, faz hoje uma campanha que denominou GPPP: Grandes Prazeres, Pequenos Preços. Trata-se de uma estratégia que visa acertar as classes D e E para o seu cardápio tradicional e trazer a classe B para aos seus cafés através dos quais pretende desbancar a Starbucks no Brasil. Até meados de 2010, a McDonald´s terá 577 lojas no país e não poderia deixar de lado o segmento de baixa renda, sobretudo quando a classe média volta-se para a preocupação com o consumo incorreto de carboidratos e aumento do colesterol.

O que pretendo, falando das pesquisas do professor Simanis e da tendência do McDonald´s, é voltar à questão dos pequenos investimentos em atrativos turísticos.  A OIT, Organização Internacional do Trabalho, ou ILO, International Labour Organization o BID, Banco Interamericano de Desenvolvimento, e a OMT, Organização Mundial do Turismo, World Tourism Organization , de há muito têm estudos que mostram as melhores possibilidades de emprego e renda por unidade de valor investido nos empreendimentos turísticos, comparativamente aos empreendimentos fabris. Além disso, o nível de exigência para a mão-de-obra a ser empregada nesses serviços, em background e tempo de treinamento, é bem menor do que na indústria mais complexa. E é disso que estamos falando quando tratamos de manter intactas as áreas de cultivo ainda existentes nos municípios brasileiros, sobretudo aqueles situados perto de grandes centros urbanos, como se configuram todas as capitais dos estados no país.

Se os municípios criarem leis de incentivo aos projetos de Turismo Rural e programas de conscientização dos proprietários rurais sobre o assunto, é possível que surjam idéias e iniciativas que façam nascer projetos dessa natureza: baratos e para um público que pode estar mais perto do empreendedor do que ele imagina. Há quem tenha investido em acantonamentos e venha recebendo estudantes, religiosos e famílias, há mais de 20 anos, sem problemas de demanda ou dificuldades de manutenção. Um acantonamento pode ser feito com chalés ou grandes dormitórios divididos por idade, sexo ou qualquer que seja o critério do usuário. Escolas e igrejas são os grandes clientes desse tipo de meio de hospedagem.  Um fazendeiro da região de Itatiba, por exemplo, resolveu plantar um pomar só para seus clientes. Criou um “Colha e Pague” que dá alegria e produtos ao seu cliente, complementa seus serviços (ele tem pousada e faz geléias e sucos proibitivamente deliciosos) e não causa dano fito sanitário à sua lavoura de frutas de mesa. Ele não ganha como o McDonald´s, mas mantém a propriedade, vive com qualidade de vida e está aproximo de tudo o que se pode chamar de “progresso”.  

As perguntas que faço hoje quando penso nas inúmeras possibilidades são:

1-   O que os municípios fazem sobre o assunto?

2-   Quais são as diretrizes estratégicas para as áreas rurais nas próximas décadas?

3-   Quais as leis municipais que podem evitar a conurbação, uma resultante do êxodo rural e da falta de limites para a expansão urbana?

A questão é:

  • Como os gestores da coisa pública vêem os cenários futuros, ou
  • Têm a compreensão do que é turismo e de como o município pode se valer dele para o seu desenvolvimento econômico de forma sustentada.

Volto ao tema.



Escrito por José Ruy Veloso Campos às 17h21
[ ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]
 
Meu perfil


BRASIL, Sudeste, Homem, de 56 a 65 anos, Portuguese, English
Outro -



Meu humor



Histórico
22/11/2009 a 28/11/2009
15/11/2009 a 21/11/2009
08/11/2009 a 14/11/2009
01/11/2009 a 07/11/2009
25/10/2009 a 31/10/2009
18/10/2009 a 24/10/2009
11/10/2009 a 17/10/2009
13/09/2009 a 19/09/2009
06/09/2009 a 12/09/2009
19/07/2009 a 25/07/2009
28/06/2009 a 04/07/2009
14/06/2009 a 20/06/2009
26/04/2009 a 02/05/2009
08/03/2009 a 14/03/2009
08/02/2009 a 14/02/2009
01/02/2009 a 07/02/2009
11/01/2009 a 17/01/2009
04/01/2009 a 10/01/2009
28/12/2008 a 03/01/2009
21/12/2008 a 27/12/2008
14/12/2008 a 20/12/2008
16/11/2008 a 22/11/2008
09/11/2008 a 15/11/2008
05/10/2008 a 11/10/2008
21/09/2008 a 27/09/2008
07/09/2008 a 13/09/2008
31/08/2008 a 06/09/2008
10/08/2008 a 16/08/2008
06/07/2008 a 12/07/2008
29/06/2008 a 05/07/2008
22/06/2008 a 28/06/2008
08/06/2008 a 14/06/2008
11/11/2007 a 17/11/2007
07/10/2007 a 13/10/2007
23/09/2007 a 29/09/2007
09/09/2007 a 15/09/2007
19/08/2007 a 25/08/2007
05/08/2007 a 11/08/2007
29/07/2007 a 04/08/2007
22/07/2007 a 28/07/2007
08/07/2007 a 14/07/2007
24/06/2007 a 30/06/2007
10/06/2007 a 16/06/2007
03/06/2007 a 09/06/2007
27/05/2007 a 02/06/2007
20/05/2007 a 26/05/2007
13/05/2007 a 19/05/2007
29/04/2007 a 05/05/2007
22/04/2007 a 28/04/2007
15/04/2007 a 21/04/2007
25/03/2007 a 31/03/2007
11/03/2007 a 17/03/2007
04/03/2007 a 10/03/2007
28/01/2007 a 03/02/2007
21/01/2007 a 27/01/2007
14/01/2007 a 20/01/2007
07/01/2007 a 13/01/2007
24/12/2006 a 30/12/2006
10/12/2006 a 16/12/2006
03/12/2006 a 09/12/2006
26/11/2006 a 02/12/2006
19/11/2006 a 25/11/2006
12/11/2006 a 18/11/2006
05/11/2006 a 11/11/2006
29/10/2006 a 04/11/2006
15/10/2006 a 21/10/2006
08/10/2006 a 14/10/2006
24/09/2006 a 30/09/2006
17/09/2006 a 23/09/2006
10/09/2006 a 16/09/2006
03/09/2006 a 09/09/2006
27/08/2006 a 02/09/2006
20/08/2006 a 26/08/2006
13/08/2006 a 19/08/2006
06/08/2006 a 12/08/2006
30/07/2006 a 05/08/2006
23/07/2006 a 29/07/2006
16/07/2006 a 22/07/2006
02/07/2006 a 08/07/2006
25/06/2006 a 01/07/2006
18/06/2006 a 24/06/2006
11/06/2006 a 17/06/2006
04/06/2006 a 10/06/2006
28/05/2006 a 03/06/2006
21/05/2006 a 27/05/2006
14/05/2006 a 20/05/2006
07/05/2006 a 13/05/2006
30/04/2006 a 06/05/2006
23/04/2006 a 29/04/2006
16/04/2006 a 22/04/2006
09/04/2006 a 15/04/2006
02/04/2006 a 08/04/2006
26/03/2006 a 01/04/2006
19/03/2006 a 25/03/2006
12/03/2006 a 18/03/2006
05/03/2006 a 11/03/2006
26/02/2006 a 04/03/2006
19/02/2006 a 25/02/2006
12/02/2006 a 18/02/2006
05/02/2006 a 11/02/2006
29/01/2006 a 04/02/2006




Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis
 Consultoria em hotelaria
 The Culinary Institute of America
 The Hocking College
 Madia Mundo Marketing
 Hospitality Organization
 Le Monde
 New York Times
 Hotelaria Senac de São Paulo
 Cornell University Hotel Business School
 Castelli Escola de Hotelaria
 The academy of Montion Picture Arts and Sciences
 Turista Acidental o BLOG
 American Management Association
 American Marketing Association
 Bill Marriott´s Blog