Pobrezas
estudante Salém
POBREZA - 1- Como professor, por um quarto de século, vi muitos estudantes vestidos de forma inadequada nas escolas de nível superior, onde dei aulas. Diretor e depois coordenador de cursos, recebi reclamações de docentes em relação a estudantes por suas posturas e trajes. É verdade que tem muita gente que não têm noção de como se vestir mais adequadamente para freqüentar determinados ambientes. E os estudantes de hoje nem sempre têm orientação da família para esses procedimentos, ou simplesmente ignoram as palavras dos pais. De qualquer forma, existe sempre um viés do modo de educar os filhos nesse comportamento que vem a refletir nos ambientes coletivos como trabalho e escolas. São muitas as razões para esses comportamentos, o modo de se vestir, o de sentar-se, falar etc. Não foram poucas vezes que alunas mostraram pernas, decotes e fizeram insinuações. Há, com certeza, por trás disso, mais do que querer melhorar uma nota ou ganhar uma presença quando esteve ausente. Há algo com a sua necessidade de firmar-se através da sedução. Coisas freudianas misturadas a questões familiares e de grupos sociais. Assim acontece em todos os ambientes coletivos: tem sempre o homem galinhão, a mulher mais galinha, o homem galanteador e a mulher metida a fatal. Mas têm também os “comem quietos”, eles e elas, que fazem muito e dizem pouco. Em todos os lugares. Como professor, nos últimos quatro anos, vi coisas mais estranhas do que saias curtas, camisetas transparentes ou bermudas masculinas que pouco protegem as bolas dos garotos. Vi estudantes agressivos e desrespeitadores. Vi estudante que mandou outro em seu lugar para fazer a prova. Vi grupo de estudantes que colou um trabalho inteiro da Internet e me entregou achando que não seriam checados por algo tão bem feito e que tinha um vocabulário estranho a eles. Vi estudantes que não sabem quem são ou foram, Amir Klink, Michael Moore, João do Pulo, Al Gore, José Mindlin, Vinicius de Moraes, Cecília Meirelles, Washington Olivetto, Ivan Zurita ou Samuel Klein. E estudam administração, turismo, publicidade, hotelaria. A maioria não lê jornais, não vê noticiário na TV e romance, o que é isso? Também nunca ouviram falar em Betty Friedan ou Jean Paul Sartre. Conhecem de ver lá uma vez ou outra na TV o William Bonner e a Fátima Bernardes. Como podem entender uma saia mais curta ou uma mulher mais ousada? Assim, sem essas informações e de conhecimento pouco, deve ser pobre a moça que estuda turismo e vai toda exibida a um ambiente coletivo que demanda roupas mais sóbrias. Mais pobres ainda são os colegas que formaram uma turba incontrolável a perseguí-la como se fora uma bruxa da Salém, Massachusetts em 1692. Pior e mais pobre é a escola que, para livrar-se do problema, expulsa a moça com base no regimento sem levar em conta a repercussão do assunto que se tornou deverasmente público. Pobreza total essa solução encontrada pela instituição educacional. O evento demanda um trabalho educativo, palestras sobre os direitos da mulher, sobre tolerância e intolerância, sobre o que é uma Universidade e o sentido dessa palavra. O evento demanda acolher a moça na escola e ponderar sobre os fatos. Enfim, se a escola achava que ela, a moça, não era vítima, agora o é. Pobreza... POBREZA – 2 – Documentário na TV (não me perguntem o Canal) mostra estadunidense profissional de TI que perde o emprego porque sua empresa de telemarketing fechou e foi abrir serviços terceirizados na Índia. Revoltado ele se propõe a ir para a Índia trabalhar para resgatar o emprego. Acerta então, via Web, com um profissional da empresa terceirizada, a sua ida para a casa dele por 30 dias para ver de perto quem lhe tomou o emprego. É mais ou menos como o Morgan Spurlock, que fez Super Size Me comendo só no McDonald´s por 30 dias. O estadunidense vai morar na casa de classe média do indiano, inscreve-se para empregar-se na empresa de telemarketing (os indianos chamam de “auto-atendimento”) e tem que passar por um curso de “como falar com americanos” onde se acertam a pronúncia e expressões para os diálogos ao telefone. Convive com o seu “irmão” que o hospeda e ouve sobre o que é o seu (do indiano) casamento por indicação: a esposa vem para cuidar da família do marido e assim deve proceder. Só que a jovem mulher do anfitrião também quer trabalhar no telemarketing, que opera sempre à noite, uma vez que os fusos entre Índia e EUA são invertidos. O salário dessas pessoas chega a quase mil dólares por mês na Índia e os coloca num nível invejável de emprego, com direito ao uso de gravata e tudo o mais. O estadunidense começa seu trabalho e se interessa por conhecer a vida dos colegas. Visitando a casa de um supervisor daquele tipo de serviço constata que ele mora numa casa de um só quarto, coberta com telhas finas e que aquecem o ambiente. Detalhe, na casa moram 8 pessoas, todas dormindo no mesmo quarto. Depois ele se interessa pelos faxineiros que recolhem restos dos sanduíches dos operadores de telemarketing. Ao visitá-los em suas casas constata que é uma favela onde as casas são feitas com caixas de papelão, tijolos velhos e pedaços de automóveis. Eles ganham cerca de 130 dólares por mês. O visitante americano pondera com o seu anfitrião sobre a possibilidade de a sua mulher trabalhar no telemarketing. O indiano bate duro: ela não vai ter tempo de cuidar de minhas meias e camisas e nem de fazer o meu café da manhã. Se ela trabalhar a noite, quem fará o serviço durante o dia? Mas no decorrer daquele mês o marido parece começar a se convencer e a moça não perde a chance de aproveitar aquela oportunidade. Num dia morre um ator da Bollywood. A população se enfurece dizendo que ele era bom para os pobres e parte para um quebra- quebra na cidade. Os serviços são suspensos no telemarketing e os funcionários podem dormir uma noite em casa. No dia seguinte a empresa que contratou os serviços de telemarketing acusa uma perda de 40 milhões de dólares pela parada dos serviços. Verdade ou não, é uma ameaça para a terceirizada. Danças nas ruas, sem o glamour da rede Globo, acontecem mesmo. Só que as pessoas são feias e desajeitadas. Em casa também dançam a esposa que quer trabalhar e a sobrinha. Os homens tomam chá e olham. No final o estadunidense volta para casa com a consciência mexida: “perdi o emprego por uma boa causa. Aquela gente precisa muito mais do que eu e depois, estar em NYC me faz sentir-me seguro e em casa”. É a vida...
Escrito por José Ruy Veloso Campos às 13h48
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